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Gestão danosa e falsificação de documentos

Gestão danosa e falsificação de documentos

Sócios de “Os Leões”, da Póvoa de Santarém, demitiram a direcção do clube

A Direcção dos Leões da Póvoa de Santarém foi demitida pelos sócios, teve de entregar as chaves do clube e poderá ter de devolver dinheiro devido a irregularidades e falsificação de documentos. Presidente e vice-presidente confirmaram incorrecções, mas negam má-fé e dizem que actuaram em defesa dos interesses do clube.

Edição de 28.01.2004 | Desporto
Os sócios do Sport Club Povoense “Os Leões”, da Póvoa de Santarém, demitiram a direcção do clube. Numa assembleia-geral realizada na noite de sexta-feira, dia 23, e que terminou perto das duas da manhã, as cerca de quatro dezenas de associados desta colectividade do concelho de Santarém não aprovaram o relatório de contas referente ao exercício de 2003 e demitiram a direcção devido a irregularidades graves como a falsificação de documentos e de assinaturas e a gestão danosa.O principal visado é o vice-presidente da direcção, responsável pela gestão da parte desportiva. Valdemar Lopes foi acusado de ter falsificado várias facturas passadas ao clube, em que acrescentou produtos no valor de mais de quinhentos euros.A descoberta foi feita pelos elementos do Conselho Fiscal (CF), que ao ouvirem rumores de alegadas irregularidades decidiram confirmar algumas facturas que estavam rasuradas. Ao confrontarem os originais entregues pela direcção com as cópias na posse dos comerciantes, os componentes do CF descobriram que em seis facturas tinham sido acrescentados outros valores. Por exemplo, numa factura de um determinado produto que custava 25 euros, foram acrescentadas mais nove unidades e a factura passou a indicar dez produtos e 250 euros. Ao todo, as facturas irregulares apresentavam mais 525 euros (105 contos).Confrontado com os factos, o vice-presidente da direcção confirmou que alterou as facturas, mas relevou que aquela acção tinha sido feita em consonância com os restantes elementos da direcção e que se limitara a incluir verbas que correspondiam a gastos de gasolina e telemóvel que ele tivera ao serviço do clube. Acrescentou ainda que a direcção entendera que aquela seria a melhor forma de incluir aquelas despesas, o que foi confirmado pelos restantes elementos da direcção. “Nunca agi de má-fé. É verdade que podia ter feito as coisas de outra maneira, mas fiz como achámos melhor”, afirmou Valdemar Lopes.Mas as irregularidades não se ficam por aqui. O Conselho Fiscal descobriu ainda vários recibos alegadamente irregulares. Em causa estão documentos no valor total de perto de 13 mil euros (cerca de 2.600 contos) que foram passados pelo presidente e vice-presidente da direcção a várias empresas que terão apoiado o clube nas obras no campo de futebol com donativos em materiais. No entanto, o recibo do clube não é acompanhado da factura da empresa.Mais uma vez Valdemar Lopes afirmou que agiu de boa-fé e que aquela é uma forma comum de se compensar as empresas que dão donativos. “As empresas estão a fazer uma doação e não as podemos obrigar a passar uma factura porque nós é que teríamos de pagar o IVA. Em dez mil contos que recebêssemos, tínhamos de pagar dois mil”, justificou, acrescentando que lhe fora dito por uma funcionária das Finanças que aquela seria a melhor maneira de agir.O presidente da direcção, António Morgado, mostrou-se indignado com as suspeitas que estavam a ser levantadas e disse que no seu caso, se entendessem necessário, ele próprio pagava o IVA. Acrescentou ainda que não percebia todo aquele alarido, porque nos outros anos ninguém tinha levantado questões sobre aquele tipo de documentos.No final da discussão, o presidente da assembleia-geral (AG) do clube, Nuno Ventura, e Júlio Cabaça, pertencente ao mesmo órgão, explicaram aos sócios que nesse mesmo dia haviam contactado um advogado para pedirem aconselhamento sobre o que deveriam fazer numa situação tão complicada que nenhum deles estava preparado para lidar com ela.Assim, após a votação do relatório de contas, que foi chumbado por 27 votos contra, 8 abstenções e apenas dois votos a favor (presidente e vice-presidente da direcção), o presidente da AG nomeou uma comissão administrativa, que vai conferir o valor dos materiais já empregues e por empregar que estão no campo de futebol, com o valor dos recibos. Se for encontrada diferença, vão identificar os responsáveis e exigir a devolução da diferença no prazo máximo de 15 dias. Se o dinheiro que possa faltar não for reposto nesse prazo, a comissão apresentará queixa ao Ministério Público. Os elementos da direcção foram ainda obrigados a entregar as chaves do clube.A Assembleia-geral ordinária previa ainda a eleição dos corpos gerentes para 2004, mas dado o chumbo das contas e a ausência de listas concorrentes, não foi sequer colocado à consideração.As obras no campoe a entrevista a O MIRANTEA polémica no Sport Club Povoense “Os Leões”, da Póvoa de Santarém, começou no final do Verão, quando começaram a circular na freguesia vários rumores sobre uma gestão menos transparente do vice-presidente responsável pela parte desportiva. Dizia-se que Valdemar Lopes não prestava contas a ninguém, nem ao tesoureiro, e que geria o clube a seu belo prazer, o que inclusive levou dois companheiros de direcção, Rui Machado e António Brás, a emitirem uma declaração onde se desresponsabilizavam dos actos praticados pelo vice-presidente.Cansado de tantos rumores, em declarações ao nosso jornal, publicadas na edição de 25 de Dezembro de 2003, Valdemar Lopes justificou as obras feitas e acusou alguns ex-directores do clube de estarem por trás dos rumores que circulavam na Póvoa de Santarém e que estariam a agir por dor de cotovelo. As declarações indignaram alguns desses ex-directores, que colaboraram com o Conselho Fiscal na identificação das irregularidades.Durante a assembleia-geral, os sócios e directores Júlio Cabaça e António João Henriques, este último actual presidente da Junta de Freguesia da Póvoa de Santarém, questionaram Valdemar Lopes sobre as obras feitas, referindo que apesar de tanto dinheiro gasto o campo continua impraticável para a prática do futebol. O autarca disse mesmo que a junta tem na sua posse uma factura de cerca de quatro mil euros de trabalhos no campo, que terá de pagar. “Como é que pode dizer que ninguém colabora”, questionou, uma pergunta repetida por Júlio Cabaça, que afirmou mesmo que nenhuma outra direcção havia recebido tanta ajuda.
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