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A terra que a rainha santa baptizou

A terra que a rainha santa baptizou

Montalvo, no concelho de Constância, é uma aldeia bem servida de equipamentos públicos

Montalvo é uma terra desenvolvida, onde há lojas, cafés, médicos, dentista, padaria, cabeleireiros, banda filarmónica. Para a população de Montalvo ficar completamente satisfeita falta apenas o centro de dia, já a caminho, e uma creche.

Edição de 28.01.2004 | O poder local aqui tão perto
“Um dia a rainha Santa Isabel passou por aqui e exclamou «mas que monte tão alvo», fazendo com que a terra passasse a ter o nome de Monte Alvo primeiro e mais tarde Montalvo”, explica como gente grande Francisco Candeias, nove anos feitos, futebolista promissor e futuro cientista, nascido e criado na aldeia.Quem percorre a auto-estrada 23 (antigo IP6) pode nunca ter ido a Montalvo mas passa-lhe muitas vezes ao lado. A saída para a aldeia surge ao quilómetro 32 da via-rápida, no sentido Torres Novas/Castelo Branco, quando se vislumbra, no planalto em frente a cidade de Abrantes.A primeira coisa que se nota logo após a placa que indica a aldeia – “Bem vindo a Montalvo – conduza com cuidado” – é o aglomerado de pavilhões existentes do lado direito da estrada. É a zona industrial do burgo, com mais de duas dezenas de empresas instaladas, onde se destaca a fábrica da multinacional Tupperware, única no país.Cerca de 500 metros adiante, do outro lado da estrada, surge outra placa, bem mais artesanal, com a inscrição “Areal”, uma indústria que não podia faltar em terras banhadas pelo Tejo.Entrar propriamente na aldeia não é tarefa difícil – há três estradas devidamente assinaladas e separadas por cerca de cem metros, qualquer delas com pavimento bom. Opta-se por se seguir a do meio que, encosta acima, leva a um pequeno largo de calçada. São três da tarde e não há quase ninguém na rua. A excepção é o homem sentado na soleira da porta, que parece dormitar enquanto apanha os poucos raios de sol, e um casal de idosos que aparece à esquina. O senhor Zeferino, nome único na terra, nasceu e há-de morrer na aldeia. “Isto é uma terra que tem tudo, pelo menos a mim não há nada que me faça falta”, diz o homem, 78 anos conservados com o carinho da mulher.Ao longo das largas ruas da aldeia, ladeadas por passeios, há seis ou sete cafés e pastelarias, cinco mercearias ou mini-mercados, dois cabeleireiros, uma padaria, um sítio de venda de pão. Não falta um posto de correio e uma instituição bancária, com caixa multibanco.No centro de saúde o médico dá consultas diárias e, para quem pode pagar, duas clínicas médicas asseguram uma vasta lista de especialidades. Menos a dentária, para não tirar a freguesia ao dentista local.A população de 1300 pessoas, “mais coisa menos coisa” como diz o presidente da junta, dispõe ainda de infra-estruturas básicas como uma completa rede de saneamento básico, coisa rara fora das cidades, caixotes do lixo em número suficiente, transportes com horários que satisfazem os que querem ir para Constância ou Abrantes e fazer o caminho de volta.A banda filarmónica 24 de Janeiro dá música aos da terra e a todo o país, a Associação Escora tenta descobrir vestígios dos antepassados nas escavações arqueológicas existentes junto à localidade. “Isto agora está parado, as escavações só recomeçam no Verão, em tempo de férias”, diz um aldeão.Antigamente terra de senhorios latifundiários que davam trabalho à população no amanho da terra, Montalvo é hoje uma aldeia moderna, quase toda virada para a indústria. É dela que hoje em dia depende grande parte dos habitantes. Foi em redor dela que Montalvo se desenvolveu, ao contrário das quintas senhoriais, das quais pouco ou nada resta.É num terreno que pertenceu a uma dessas herdades – a quinta da Gorda – que há 14 anos se anda a tentar construir um centro de dia, um dos poucos equipamentos inexistentes na aldeia. A Associação Humanitária de Apoio à Terceira Idade existe desde essa altura, mas apenas no papel.O terreno foi dado por Themudo de Castro, proprietário da quinta, que entretanto faleceu deixando a herança para filhos e sobrinhos. E por causa de tantos herdeiros, a escritura do terreno demorou anos a ser feita.Um feito que só se conseguiu depois do terreno ter sido passado para a câmara, que o transferiu para a junta de freguesia no final de 2003. Catorze anos depois de se pensar num projecto que até chegou a ter subsídios comunitários autorizados. E que até teve direito a lançamento da primeira pedra por parte do secretário de Estado da Segurança Social do tempo de António Guterres.Se os idosos não têm para onde ir, as crianças correm também o risco de ficar em casa. É que as duas salas dos jardins-de-infância estão a abarrotar e tarda a construção de uma creche, que disponha também de berçário. Porque na terra há cada vez mais casais jovens, levando a natalidade a disparar nos últimos anos. No ano lectivo passado (2002-2003) registou-se um aumento superior a 40 por cento de entradas nos dois jardins-de-infância. Quase parece mentira que, dois anos antes, um dos jardins tenha sido obrigado a fechar portas por falta de alunos. Pouco ou nada falta a uma aldeia que até tem dois presidentes de junta. Ou melhor, um presidente e uma secretária, a quem todos chamam “segunda presidente”. Artur Antão, o presidente eleito, delega o exercício do poder a Cristina Candeias, a secretária, sempre que tem de se ausentar para tratar de assuntos pessoais em Pampilhosa da Serra, sua terra natal.E foi mesmo a “segunda presidente” que criou a maior polémica na terra, ao decidir, com o apoio da Câmara de Constância, deitar abaixo o enorme sobreiro centenário existente num dos largos da aldeia, junto à escola primária. O sobreiro estava já sem vida, depois de durante anos se ter mexido a terra à sua volta, para alargar e melhorar as estradas em redor. Já só havia o tronco nu e seco, mas as pessoas consideraram quase um sacrilégio o seu abate. Até a própria Cristina Candeias tentou encontrar algo que pudesse dar nova vida ao sobreiro, mas não havia outra solução.O antigo sobreiro deu lugar a outro, bem mais pequeno e também sem grande pujança. “Se calhar vamos ter de deitar também este abaixo e colocar outro ainda mais pequeno, para ver se não apodrece”. Mas na terra há quem diga que, depois de cortado o sobreiro centenário, mais nenhuma árvore ali irá vingar...Margarida Cabeleira
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