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“A sexualidade faz parte da nossa vida”

“A sexualidade faz parte da nossa vida”

Psicóloga Fátima Gameiro critica o Estado por não apostar na educação sexual nas escolas

A psicóloga Fátima Gameiro é a autora de um estudo sobre relações sexuais forçadas, que podem ter consequências a nível mental. Para esta professora da Escola Profissional de Salvaterra de Magos, é preciso sensibilizar e formar os jovens estudantes nas escolas e suas famílias.

Edição de 28.01.2004 | Sociedade
Por que motivo não existe nas nossas escolas educação para a sexualidade?Primeiro que tudo é uma questão governamental. Muito se falou e pouco se fez. Depois, quer queiramos quer não, ainda existem muitos tabus em redor da sexualidade. Principalmente falta de abertura por parte de muitos professores para com os alunos e para com os encarregados de educação. Além disso, para abordar a questão da sexualidade nas escolas temos de estar formados e informados. E poucos são os técnicos do nosso país preparados para desempenhar essa função. Os jovens da nossa região têm tabus sobre esta matéria?Apesar de eles próprios dizerem que não e de terem acesso a muita informação, tal como acontece noutras regiões do país, também na nossa região encontramos muitos jovens com pouca abertura para falar da sua sexualidade e com falta de informação e formação fidedigna. Quer dizer que os jovens do Ribatejo estão menos sensibilizados para as questões sexuais?Não quero dizer que sejam apenas os da nossa região. São todos aqueles que estão mais afastados dos grandes centros urbanos. Apesar de terem acesso a muita informação, as acções de sensibilização/formação, muitas vezes desenvolvidas por algumas associações e institutos, acontecem mais nas grandes cidades.O que é isso da sensibilização? Pode exemplificar?Olhe, por exemplo, um adolescente pode ler numa revista “como ter 10 orgasmos seguidos numa só noite”. Os jovens podem ser informados sobre o assunto na comunicação social como esta sendo uma realidade inegável, mas, conhecendo o funcionamento humano, sabemos que todos os homens têm necessariamente um período refractário (tempo de espera entre uma erecção e outra). Os jovens ao confrontarem-se com o facto na sua vivência podem achar que, como não o conseguiram, são um fracasso, ou que têm problemas sexuais. Esta experiência pode afectar não só a futura vivência da sua sexualidade como também a sua própria estabilidade emocional e relacional. Como se combate esse risco?É fundamental os jovens estarem conscientes da resposta sexual humana. E isso só aconteceria se tivessem formação complementar à informação. E essa formação poderia passar por sensibilizar os jovens para os afectos, ensiná-los a descobrirem o próprio corpo, compreenderem que cada pessoa é diferente face a cada estímulo sexual, aprenderem que a comunicação na relação a dois é fundamental e basilar no acto sexual, entre outras coisas. É preciso que toda a gente perceba que este é um assunto que deve ser reflectido, isto porque a sexualidade existe, faz parte integrante da nossa vida, tal como o respirar. Então como é que se pode resolver este assunto?Isto passa pela descentralização de alguns institutos e pela formação de professores, médicos, enfermeiros, psicólogos, entre outros profissionais da saúde e de educação. Caso contrário, tudo ficará na mesma. É também preciso trazer os pais à escola e/ou às unidades de saúde, para discutirem esta temática. Os encarregados de educação precisam de perceber que a sexualidade existe, que os seus filhos a vivem e que se a podem viver de forma elucidada. Podem ser mais felizes nas suas vivências e estarem mais despertos para os perigos que esta, como tudo na vida, acarreta.Qual a importância da implicação dos pais na educação para a sexualidade de seus filhos?Fundamental. A família é por excelência não só a transmissora de conhecimentos como também de atitudes e de comportamentos. Logo se esta sensibilização for feita na família tudo se torna mais fácil e consistente.Tem sido feito algum trabalho a esse nível na nossa região?Tal como acontece um pouco por todo o país, falta fazer muita coisa.Há vontade de se trabalhar nesta área?Poderei, se calhar, dar o meu exemplo. Quando resolvi tirar o mestrado em sexologia, tive como princípio poder trazer para a minha região conhecimentos que permitissem informar, formar e sensibilizar os nossos jovens. Sobre isso, valerá a pena dizer que pretendo, com a direcção da Escola Profissional de Salvaterra de Magos (o meu local de trabalho), dar continuidade ao nosso projecto “educação para a sexualidade”. Além do trabalho desenvolvido junto dos alunos, este ano, à semelhança do ano lectivo transacto, queremos envolver ainda mais os pais/encarregados de educação, assim como a comunidade civil.Acha que as pessoas estão receptivas? Não tenho dúvida nenhuma. A avaliar por iniciativas feitas em anos anteriores, é de esperar que o número de pais/encarregados de educação, professores e outros técnicos a participar em debates desta natureza continuem a aumentar de ano para ano.Não se poderá tornar repetitivo estar sempre a abordar os mesmos assuntos?Nunca é de mais. E os assuntos sobre sexualidade são muito diversificados, por isso pode falar-se sempre de coisas novas. Aliás, sobre isso, este ano, a nossa escola vai avançar com aquilo que eu gosto de chamar “Ciclos de Conversas” com os encarregados de educação. O objectivo será trabalhar com pequenos grupos de acordo com a disponibilidade das pessoas.Só se fala dos pais. Então e os jovens, estão preparados para a educação para a sexualidade?Estão preparadíssimos. No entanto, vale a pena relembrar que os nossos jovens estão informados sobre o assunto mas, muitas vezes, de uma forma deformada e eles só têm essa consciência quando abordamos o assunto em grupo/sala de aula. Sobre a sexualidade existe uma grande quantidade de informação. Toda a gente quer falar do assunto. Mas nem todos sabem. A informação que muitas vezes é vinculada é pouco fidedigna.Mário Gonçalves
“A sexualidade faz parte da nossa vida”

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