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Pechinchas em tempo de crise

Pechinchas em tempo de crise

Feiras da região resistem à concorrência dos centros comerciais e hipermercados

Os mercados da região fervilham de clientes. Em tempo de crise, os consumidores procuram ali artigos a preços mais em conta que nos hipermercados ou no comércio tradicional.

Edição de 28.01.2004 | Sociedade
“Se não fossem os ciganos as pessoas andavam nuas”, diz com voz colocada Ricardo Pinto, remexendo na roupa da sua banca à entrada da feira semanal de Tomar. Pelo recinto centenas de pessoas circulam com sacos cheios de compras ou simplesmente mirando pechinchas apregoadas a preços para todas as bolsas. Há seis pares de meias a 2,5 euros, roupas de marca a 20 euros. As feiras são verdadeiros hipermercados onde se encontra de tudo, até cubas para o vinho. Com centenas de camisolas de malha marcadas a cinco euros, a vendedora Maria Joaquina Nunes vai dizendo que as feiras ainda são bons locais para fazer compras. “Temos encargos diferentes dos que têm as lojas. E apesar das grandes superfícies também terem preços bombásticos há muita gente que prefere comprar nas feiras”, argumenta a feirante do mercado de Tomar, que se realiza todas as manhãs de sexta-feira na cidade do Nabão. A mais de três dezenas de quilómetros de Tomar, na feira de Pernes, concelho de Santarém, que se realiza nos mesmos dias, as opiniões não são muito diferentes. Na zona da fruta, hortaliça e onde se vende também bacalhau, queijos, sementes e frutos secos, Maria Natália Infante enfia uns quilos de batatas no saco. “Geralmente venho todas as semanas ao mercado comprar alimentos para toda a semana. Vale a pena comprar aqui porque nas lojas os produtos são mais caros”, sublinha. As feiras são oásis onde se podem encontrar por exemplo pólos da Tommy na casa dos 20 euros ou óculos de sol a cinco euros, como encontrámos no mercado semanal de Alverca no sábado de manhã. Nesta cidade do concelho de Vila Franca de Xira é ainda possível comprar quatro cuecas de mulher por módicos 2,5 euros. À porta do mercado um pastor da igreja Assembleia de Deus gritava a plenos pulmões frases feitas sobre Cristo. No ar circulava o fumo das castanhas. O homem bem se esforçava por abafar o som da música pimba debitada numa barraca de cassetes. Mas muita gente estava muito mais interessada nas três bancas, colocadas num espaço de 10 metros, onde se vendiam filmes em DVD, como o Matrix, a cinco euros. Mas mesmo assim o pastor lá ia dizendo em sotaque brasileiro: “Se tu não aceita Cristo, então tu está alienado”. Uma criança que passa pergunta à mãe: “O que é que o homem quer?”. Mais interessado numa mesa para a cozinha andava Elias Martins, morador em Alverca. “Às vezes venho mais ao mercado para passear. Gosto deste ambiente. Mas agora como precisava de uma mesa resolvi vir ver se havia alguma que gostasse”. E modelos não faltavam na tenda da vendedora Maria Palmira. Mesas redondas, quadradas, pequenas, grandes, com preços desde 250 euros para uma mesa com 2,20 metros por 80 centímetros. “Nas feiras ainda há coisas boas e baratas e, por outro lado, há vários vendedores do mesmo produto no mesmo espaço, o que permite uma maior escolha sem termos de perder muito tempo”, justificou. Essa facilidade, aliada à possibilidade de se poder mexer e remexer, experimentar, trocar, fazem também dos mercados lugares sem restrições, sem ter que se chamar um empregado. É pegar, pagar e levar... Apesar de muitos considerarem que os preços são baixos, há vendedores que acabam por ganhar bom dinheiro. “Num dia bom podemos tirar 1.000 ou 1.500 euros”, explica o vendedor Manuel Monteiro, no mercado de Tomar, ao mesmo tempo que uma mulher solta um pregão: “Olha a cuequinha a um euro. É só um euro queridas...”.Talvez para evitar que algumas pessoas escolham as lojas em detrimento dos mercados, há alguns vendedores que não se importam de trocar artigos comprados na semana anterior. Ou, por exemplo, deixar alguns clientes habituais levarem roupa para experimentar em casa. É o que acontece com o vendedor Pedro Sousa que assenta arraiais, todas as semanas, há mais de dez anos, em Pernes. Em Santarém o mercado quinzenal, aos domingos de manhã, rivaliza com os hipermercados da cidade e o novo centro comercial, situado a poucas dezenas de metros. Ir à feira, mesmo que não seja para comprar, já se transformou numa espécie de passeio domingueiro, num acto social e cultural. Pelo meio de encontrões é possível encontrar pechinchas. “Roupa de marca só a cinco euros”, ouve-se de um estridente megafone. Outro vendedor, com a voz já rouca, salta para cima da banca de camisolas e a custo grita: “É a três euros”. Cirandar uma hora na feira pode ser sinónimo de uma dor de cabeça devido ao barulho. Já para não falar que se pode sair do recinto com um pé torcido, devido aos inúmeros buracos no chão, ou com uma perna esfolada pelas estacas de ferro espetadas no meio do caminho. No colorido de roupa pendurada nas tendas, nas misturas de cores e estilos em cima das bancas de madeira, no cheiro a farturas que fritam, as feiras são sobretudo locais pitorescos. Sítios onde se encontra de tudo a preços em conta. As feiras são ainda locais de comércio que não sentem a concorrência das grandes superfícies e dos centros comerciais. António Palmeiro Multibanco na feiraAmérico Roldão tem uma loja de roupa em Casal de Cambra (Sintra), mas não dispensa vender na feira de Alverca. O seu empenhamento neste mercado, onde, diz, se pode fazer algum dinheiro, levou-o a instalar uma máquina de multibanco na barraca. Um cartaz com o símbolo do serviço está colado a um dos ferros que sustenta o toldo que protege da chuva e do sol. A ideia nasceu há um ano e teve como objectivo cativar mais compradores e facilitar a vida aos clientes. “Muita gente às vezes acabava por não comprar porque não tinha dinheiro que chegasse. Outros diziam que iam levantar e depois nunca mais apareciam. Assim já escusam de ter esse trabalho”, sustenta o vendedor que faz a feira de Alverca há sete anos. Este sinal de progresso nos mercados é de fácil instalação. Trata-se de um pequeno equipamento portátil, que funciona através do cartão do telemóvel, que faz a ponte com a rede de caixas multibanco. Terrados a partir de 25 cêntimos Não há diferenças abismais nos valores dos terrados das feiras praticados pelas autarquias das principais cidades da região. Os valores vão desde os 25 cêntimos por metro quadrado até aos 67 cêntimos, por metro linear.As câmaras de Santarém e de Torres Novas são as que praticam preços iguais. Por feira, os vendedores pagam 35 cêntimos por metro quadrado de espaço ocupado. Mas é no Entroncamento que se paga o preço mais barato, de 50 cêntimos por cada dois metros quadrados, o que dá 25 cêntimos o metro quadrado. Na cidade dos comboios a feira é semanal ao sábado de manhã. Depois surge o mercado de Abrantes, que se realiza, semanalmente à segunda-feira. O valor pago pelos vendedores ambulantes é cobrado ao mês e situa-se nos 1,75 euros por metro quadrado. Vila Franca de Xira tem uma medida diferente e em vez do espaço ser contabilizado ao metro quadrado é ao metro linear. Por mercado paga-se 67 cêntimos.
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