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“Relações forçadas têm reflexos na saúde mental”

Edição de 28.01.2004 | Sociedade
Um estudo da sua autoria, apresentado recentemente, referia que uma em cada quatro estudantes universitárias já havia sido coagida sexualmente. Acha que esses números são credíveis e reflectem a realidade?A amostra estudada nesta investigação é, como habitualmente se designam, de conveniência, ou seja, não obedeceu a critérios de estratificação. Logo, o que podemos dizer é que uma em cada quatro estudantes universitárias que compunham a nossa amostra relatou que já havia sido forçada sexualmente. Apesar de na comunicação social estes resultados estarem a causar alarme, não são motivo de espanto para quem tem conhecimento das investigações conduzidas em países como a Alemanha, Canadá, Espanha e Estados Unidos, onde estas taxas variaram de 14,5 a 53,7% da população inquirida. Sendo Portugal um país de brandos costumes, pensamos que os nossos resultados reflectem a realidade portuguesa.O que é que entende por relações sexuais forçadas?Penso que essa pergunta é fundamental, pois na comunicação social foi muito confundido relações sexuais forçadas com violação. É então importante clarificar que as relações sexuais forçadas (qualquer forma de actividade sexual não consentida) podem passar por: “contacto sexual indesejado”; “coacção sexual”; “tentativa de violação” e “violação”.Que leitura faz desses dados?Que as relações sexuais forçadas existem entre os jovens e têm consequências graves na saúde mental. Que os nossos jovens pouco ou nada recorrem a ajuda especializada - ou por vergonha ou por inacessibilidade física ou económica -, o que seria importante pela possibilidade de uma intervenção precoce poder prevenir o estabelecimento de um problema crónico e pela existência de soluções adequadas para a resolução de problemas específicos da população forçada. O que leva jovens universitárias a submeterem-se a relações sexuais sem o seu consentimento?Relativamente às relações entre atitudes e comportamentos, um elevado número de investigadores e de teóricos sugeriram que as relações sexuais forçadas são o resultado dos processos “normais” de socialização que os homens experimentam. E que as atitudes, crenças e experiências de socialização dos atacantes são a base que predispõe um homem a perpetrar um ataque ou a acreditar que este é justificável. Realmente, parece que as relações sexuais forçadas estão rotuladas em estereótipos culturais de homens e mulheres que definem a maneira como é esperado para interagir social e sexualmente, o chamado duplo padrão.Ficou surpreendida com a ampliação que foi dada ao estudo por parte da comunicação social?Sem dúvida! Isto porque no 3º Simpósio de Sexologia da Universidade Lusófona várias foram as comunicações interessantíssimas apresentadas. Contudo, a comunicação social deu destaque a dois trabalhos sobre agressão sexual. Isto repercute o facto de se estar no âmbito de uma das temáticas mais abordadas no nosso país actualmente, apesar de estes estudos terem iniciado em 2001. Qual foi o universo utilizado para a elaboração do estudo?Relativamente ao primeiro estudo - “Estudo das propriedades psicométricas de medidas para avaliação de relações sexuais forçadas” - foram incluídos 1374 estudantes universitários portugueses. As respostas foram obtidas de duas formas distintas: 304 (22.1%) por questionários respondidos na internet e 1070 (77.9%) por questionários respondidos na sala de aula (aplicados em sete estabelecimentos de ensino superior de Norte a Sul de Portugal). Destes 1374 sujeitos, 39.1% eram homens e 60.9% eram mulheres. Quanto ao segundo estudo, “Atitudes face ao sexo forçado, relações sexuais forçadas e ajustamento emocional em mulheres universitárias”, participaram 837 estudantes universitárias portuguesas. As respostas foram obtidas de duas formas distintas: 144 por questionários respondidos via internet e 693 em sala de aula. No respeitante à prevalência de agressão sexual, 612 sujeitos (73.1%) nunca tinham estado envolvidos em relações sexuais forçadas, 57 (6.8%) tinham experimentado contacto sexual indesejado, 25 (3%) tinham sido envolvidas em tentativas de violação, 111 (13.3%) tinham sido coagidas sexualmente e 32 (3.8%) tinham sido violadas.Como surgiu este tema de investigação?Por convite da universidade, visto este trabalho fazer parte de um projecto de colaboração em curso com as Universidades Autónoma de Madrid, com o Professor José Antonio Carrobles e com a das Ilhas Baleares com o Professor Javier Perez Pareja.Mário Gonçalves

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