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Tradição, lenda e devoção

Tradição, lenda e devoção

O culto a Nossa Senhora da Boa Viagem e a ligação a Camões
Edição de 07.04.2004 | O poder local aqui tão perto
Todos os anos, na segunda-feira de Páscoa, o ritual repete-se. A imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem desce do altar na Igreja Matriz de Constância e é transportada num andor até à beira dos rios que banham a vila para abençoar embarcações, automóveis e pessoas. Esse é um dos pontos altos das festas do concelho, onde se combinam de forma harmoniosa as manifestações religiosas e as actividades pagãs.O culto a Nossa Senhora da Boa Viagem remonta ao século XVIII, quando Constância, então com o nome de Punhete, vivia sobretudo de actividades ligadas aos rios. Em 1788 foi construído na actual igreja matriz o altar onde se colocou a imagem sagrada que ainda hoje continua a sair na procissão para abençoar os barcos, os automóveis e as pessoas em cada Páscoa que passa.Numa época em que não havia caminhos-de-ferro nem autoestradas, a vila assumia-se como um importante centro de intenso tráfego fluvial e eram os próprios marítimos de Constância – tripulantes das embarcações que faziam o transporte de mercadorias Tejo abaixo até Santarém e Lisboa – que promoviam os festejos em honra da padroeira dos navegantes, aos quais se associavam os amigos e companheiros da faina do Tejo e do Zêzere. Com o andar dos tempos, os rios foram perdendo importância como via de comunicação e as profissões a ele ligadas foram desaparecendo aos poucos. Já não há calafates ou marítimos em Constância, e os pescadores são raros. Mas não se perdeu a veneração a Nossa Senhora da Boa Viagem. A procissão em sua honra envolve centenas de fiéis e motiva a deslocação à vila de milhares de forasteiros. O desfile de embarcações empresta um colorido inolvidável à paisagem. De Abrantes a Vila Franca de Xira vêm barcos engalanados para participar na festa a convite da autarquiaO desembarque é habitualmente feito na margem do Zêzere, a escassos metros do local onde o rebelde rio se irmana com o Tejo, sob a vigilância serena da estátua de Luís de Camões, o mais celebrado poeta lusitano que, segundo reza a lenda, terá passado alguns tempos da sua vida em Constância.Em memória dessa passagem ergueu-se o Horto Camoniano e a Casa-Memória Luís de Camões, sobre os escombros de um imóvel onde reza a lenda que terá vivido o poeta.A tradição de que Camões viveu nessa casa num dos seus desterros, segundo averiguações feitas em 1954, surge através da recolha de testemunhos da população mais idosa da vila. Mas nenhum documento foi encontrado que legitimasse ou destruíssem a tradição já instalada.No entanto, as ligações da família de Camões à região são um facto. Nos arquivos da época descobriu-se que as terras de Constância até ao Sardoal haviam sido doadas a um seu bisavô por D. Fernando e D. Leonor Teles em paga dos seus serviços à causa da união das coroas de Portugal e Castela, terras que perdeu com a chegada de D. João I ao trono.
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