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Criança prejudicada por guerras de adultos

Criança prejudicada por guerras de adultos

Tiago Antunes está proibido de frequentar ATL de Santo António, Tomar, enquanto o progenitor não pedir desculpa

Uma criança da escola primária de Santo António, Tomar, está proibida de frequentar as actividades de tempos livres enquanto o pai não pedir desculpa à professora, que diz ser vítima de perseguição.

Edição de 07.04.2004 | Sociedade
Tiago, de nove anos, andava na brincadeira com os colegas do ATL (actividades de tempos livres) da escola do primeiro ciclo de Santo António, Tomar, quando caiu e torceu o pescoço. A professora Telma Santos achou que não era nada de mais mas António Nunes, o pai do Tiago, teve opinião contrária. Tão contrária que ameaçou bater à professora, além de lhe chamar “estúpida”, “parva” e “incompetente”.Depois deste episódio, o coordenador da escola de Santo António, Francisco Pimenta, decidiu proibir a criança de frequentar os tempos livres enquanto o pai não pedisse desculpa pelo seu comportamento à professora. Coisa que até hoje não fez, por achar que tem a razão do seu lado.Apesar de o Tiago não estar no ATL há cerca de um mês, o pai vai lá todos os dias logo às 8 da manhã esperar Telma Santos. A professora diz que é injuriada e ameaçada de que a coisa não ficará por ali. Às 13h00, quando a professora sai, António Nunes volta à carga. Uma situação que foi confirmada ao nosso jornal por várias testemunhas e que se repetirá diariamente, apesar da presença de um agente da PSP no local, solicitado pelo coordenador da escola. Mas António Nunes desmente essa versão. Diz que a via pública é livre e que pára em frente à escola para “beber um café”, de manhã, no mesmo café onde até o polícia também vai beber a bica. A gota de água que fez transbordar o copo aconteceu na quarta-feira da semana passada, à hora de saída da escola. Verificando que o pai do Tiago estava na rua, em frente ao estabelecimento, Telma acabou por aceitar a boleia de outra professora até casa. Só que António Nunes não se deu por vencido e quando o carro das docentes arrancou ter-lhes-á trancado a passagem, ameaçando-a de que um dia iria apanhá-la mais desprevenida.Mais uma vez o pai do Tiago desmente as acusações. Diz que se quisesse fazer mal à “auxiliar” já o tinha feito, porque “conhece todos os passos que dá”.Telma Santos é que não esteve com meias medidas. Com os nervos em franja, a professora foi apresentar queixa contra António Nunes na esquadra da PSP da cidade, acusando-o de perseguição e ameaças. “Agora já tenho até medo de sair à rua sozinha”, diz Telma Santos, adiantando que a pressão psicológica do pai do Tiago tem aumentado de dia para dia.O MIRANTE contactou a PSP de Tomar, que confirmou a queixa, tendo-a já comunicado ao Ministério Público. O processo seguirá os trâmites legais, com António Nunes a ter de ser ouvido em inquérito.Na base dos acontecimentos está uma queda dada pelo filho de António Nunes no dia 5 de Março. “Ele andava na brincadeira com outra criança no pavilhão do ATL e acabou por cair, magoando-se no pescoço”, refere a professora, adiantando que fez uma avaliação do problema e considerou que a questão não era preocupante.“Ele sentia uma dor no pescoço mas não vomitou nem teve outras consequências e passados dez minutos já andava a brincar novamente com os amigos”, diz Telma, adiantando no entanto que o Tiago andava com a cabeça de lado porque, dizia, assim não tinha dores.Mas a versão de António Nunes é bem diferente. Ao nosso jornal o pai do Tiago afirmou que o filho magoou-se às dez da manhã e estava cheio de dores quando o foi buscar, à hora de almoço (12h00), admitindo que chamou “incompetente e outros nomes” à professora, que trata por auxiliar.António Nunes diz que, depois de almoço, levou o filho ao hospital de Tomar, onde lhe foi diagnosticada uma inflamação no tendão. A criança acabou por recorrer ao hospital de Abrantes, onde está centralizada a urgência de ortopedia. Um procedimento normal de acordo com a chefe da enfermaria de pediatria. “Em caso de dúvida o doente é sempre enviado para Abrantes, seja o caso grave ou não”.O pai afirma que teve de comprar um colar cervical para o Tiago porque no hospital lhe pediram 25 euros de caução para trazer um. E quer que o seguro escolar lhe pague todas as despesas – também recorreu ao médico de família na segunda-feira seguinte ao acidente – que teve por causa da queda do filho.“No agrupamento dizem que não pagam porque o acidente foi fora do recinto escolar”, queixa-se o pai do Tiago. Uma afirmação desmentida por Francisco Pimenta – “O seguro escolar cobre todas as despesas desde que o senhor apresente os respectivos comprovativos, o que não aconteceu até hoje”.Quanto à denúncia de que o ATL não tem condições, o coordenador da escola de Santo António refere que tomara muitas crianças no país terem um ATL como o do seu estabelecimento de ensino. O ATL da escola de Santo António é grátis e foi criado numa parceria que envolve o Conselho Municipal de Educação de Tomar (centro de saúde, segurança social, centro de emprego e misericórdia) e a Direcção Regional de Educação (DREL) de Lisboa e Vale do Tejo. As 80 crianças que o frequentam provêm na sua maioria do bairro 1º de Maio, uma das zonas mais problemática da cidade em termos sociais.O Tiago continua sem ir à escola. Porque o pai se recusa a pedir desculpas. “E mesmo que agora pedisse não eram aceites”, diz Francisco Pimenta.Margarida Cabeleira
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