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Ministério Público investiga donativos dos crentes

Contas do Museu Sousa Martins continuam em segredo

As contas da Casa Museu Sousa Martins em Alhandra estão a ser investigadas pelas autoridades. “Para acabar com as desconfianças”, a junta de freguesia vai assumir a gestão. O escritor Júlio Graça sente-se cansado e admite deixar a direcção da instituição que geriu nos últimos 20 anos.

Edição de 07.04.2004 | Sociedade
O Ministério Público (MP) e a Polícia Judiciária (PJ) estão a investigar a gestão da Casa Museu Sousa Martins em Alhandra. Entretanto, segundo a presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, “para acabar com as suspeitas”, a autarquia decidiu entregar o espólio e a gestão do património e das receitas à junta de freguesia.O escritor Júlio Graça, 80 anos, responsável pela gestão da instituição há mais de 20 anos admitiu vir a deixar as funções de conservador. “Sinto-me cansado e não tenho predisposição para continuar”, disse a O MIRANTE. O conservador afirmou que foi pressionado para continuar por todos os comissários da comissão consultiva, mas ainda não decidiu o que vai fazer. A investigação da gestão do museu surgiu depois de várias denúncias de um alhandrense junto dos diversos órgãos autárquicos. O alvo preferencial de Domingos Soares, um metalúrgico aposentado de 60 anos, foi precisamente Júlio Graça. O Jornal “O MIRANTE”, investigou a situação e escreveu um artigo sobre a matéria em Outubro de 2003.Na preparação da reportagem, vários cidadãos de Alhandra alertaram para a falta de transparência na gestão da instituição e para a necessidade de serem controlados os milhares de contos de donativos e ofertas entregues pelos crentes do “médico milagreiro”. Mas só Domingos Soares deu a cara e por isso foi alvo de uma queixa por alegada difamação interposto pelo escritor Júlio Graça. O processo está em fase de inquérito no MP de Vila Franca de Xira e já foram ouvidos o arguido, o queixoso e várias testemunhas. Contas continuam em segredoQuando investigou as denúncias, o nosso jornal procurou ter acesso às contas, mas o director recusou mostrar os relatórios. “Quem manda nisto tudo sou eu, sou eu que faço a gestão e as contas são apresentadas todos os anos a quem de direito”, disse Júlio Graça no final de Setembro de 2003.A presidente da câmara, Maria da Luz Rosinha também negou facultar os relatórios. Feito novo pedido, a semana passada, o assessor de imprensa de Maria da Luz Rosinha informou que o processo está entregue ao Ministério Público e está em “segredo de justiça”. Contudo, quando entregou o processo ao MP, a presidente disse que as receitas do museu não davam para pagar os salários dos funcionários que são pagos pela autarquia. A autarca reafirmou confiança no gestor do museu, mas reconheceu a necessidade de alterar procedimentos de gestão.A comissão instaladora do museu criada em 1985 foi extinta há mais de oito anos por não ter personalidade jurídica para assumir a gestão da instituição. A casa foi doada à Junta de Freguesia de Alhandra e o espólio confiado à Rede Municipal de Museus de Vila Franca de Xira quando, segundo o presidente da junta, Jorge Ferreira, existiam actas que provavam que o espólio era da autarquia de Alhandra.A situação foi analisada pelo conselho consultivo criado em 1998 e onde têm assento as autarquias, escolas, algumas colectividades e outras forças vivas da freguesia.O MIRANTE sabe que a comissão reuniu várias vezes com as autarquias e conclui que o espólio e a gestão devem ser entregues à junta de freguesia que assinará um protocolo com a câmara que assegurará que a edilidade vai continuar a pagar os encargos com funcionários do museu, apesar das receitas serem canalizadas para a junta.O director do museu, Júlio Graça disse a O MIRANTE que o modelo do protocolo ainda não está definido, mas considerou que a entrega da gestão do museu à junta é um procedimento correcto. “O Museu é de Alhandra e a junta é o representante da freguesia”, disse.No próximo dia 22 de Abril, a assembleia de freguesia deverá abordar este assunto numa reunião pública que se prevê polémica depois de um conjunto significativo de alhandrenses ter pedido a intervenção da autarquia em nome da transparência da gestão da casa.Recorde-se que em Março e Agosto, por ocasião das datas de nascimento e morte de Sousa Martins, o cemitério de Alhandra, onde está sepultado o médico, e o museu, são invadidos por milhares de fiéis vindos de todo o país e muito deixam donativos e ofertas em géneros.O gestor da casa museu confirmou que há pessoas que entregam cheques de milhares de euros. Em 1994 foi oferecido um cheque de mil contos (cinco mil euros). Segundo Domingos Soares, esses valores nunca foram inventariadas com transparência. O munícipe chegou mesmo a sugerir que a casa museu emitisse recibos comprovativos dos donativos.O presidente da junta de freguesia explicou que as verbas em causa não chegam para manter o museu e não fosse o apoio da câmara os resultados financeiros seriam negativos.Jorge Ferreira reafirmou total confiança em Júlio Graça. “É um homem respeitável, honesto e que nos merece toda a confiança”, disse.Júlio Graça disse a O MIRANTE que desconhecia que o museu estava a ser investigado pela PJ, mas mostrou-se tranquilo e sereno. “Não há nada a esconder, as contas foram aprovadas pela câmara, pela junta e pela comissão consultiva”, conclui. Nelson Silva Lopes

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