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Escrever foi a primeira aspiração

Escrever foi a primeira aspiração

Maria João Carvalho, escritora e médica

Não há horas nem dias marcados para escrever. Maria João Carvalho, cardiologista no Hospital Rainha Santa Isabel, em Torres Novas, escreve quando a necessidade de contar para o papel se impõe e quando começa a arquitectar uma história é difícil deixar para trás a sucessão de acontecimentos que as várias personagens vão vivendo.

Edição de 14.04.2004 | Identidade Profissional
Escrever, para Maria João Carvalho surge como um complemento a uma actividade profissional, igualmente absorvente, vivida entre o serviço de urgência e as consultas de cardiologia. Saber qual das duas é mais importante é uma questão de resposta complicada. “É claro que a escrita começou muito antes da medicina. Escrevi o primeiro romance com 11 anos e, nessa altura, a minha mãe, confiscou-mo e disse-me que se eu tinha vontade de escrever havia de escrever, mas era quando tivesse a experiência de vida suficiente para poder fazê-lo, sem ela não sabia interpretar as coisas. O que é verdade. Às vezes chega-se a um beco sem saída e é preciso esperar para encontrar a solução ou o caminho a seguir para continuar a escrever”.O livro, aquele primeiro romance, deverá estar guardado – “a minha mãe guardava tudo” - entre os muitos papéis que se foram empilhando ao longo dos anos, mas as histórias vividas ou contadas permanecem na memória. São elas que fazem crescer e são elas também que as muitas personagens que nascem crescem e morrem na conjugação de consoantes e vogais voltam a viver.Entre o primeiro romance e o primeiro livro editado distam quase 40 anos. “Fui sempre escrevendo e cheguei a ganhar alguns prémios, uma espécie de jogos florais no liceu. Eram sonetos sobre a época dos descobrimentos. Escrevia umas coisitas, mas depois não encontrava solução e ficava pelo caminho. Depois vinha outro, depois outro, tenho três ou quatro romances que ficaram num beco e hoje se calhar já não tenho vontade nenhuma de acabá-los. Dos três livros que editei só um deles, o segundo “Edgar e o canário”, estava começado há mais tempo, os outros (“Nero o cão” e “Uma borboleta quase branca”) nasceram, cresceram e morreram”. Mas foi preciso sair de Lisboa e ir residir para uma cidade do interior, Castelo Branco, para a Maria João Carvalho tornar público o que sempre se lembra de querer fazer: “A escrita foi a minha aspiração de mais tenra idade. Sempre quis escrever, a medicina veio mais tarde. Escrever vem de dentro e acho que tenho talento para a escrita. Para a medicina não sei”.Em Castelo Branco, onde os “dias parecia que tinham 48 horas”, Maria João teve a tranquilidade suficiente para se dedicar à escrita: “Em Lisboa não tinha tempo, perdia horas nos transportes e quando chegava a casa já não tinha paciência para nada. Em Castelo Branco os dias rendiam muito, tinha uma vida muito calma, com muito sossego e como precisava de companhia as personagens dos meus romances acompanhavam-me. Conversava com elas, discutia, discutíamos o romance”.Médicos que também são escritores, ou os que transformaram a escrita na sua principal actividade deixando para trás a medicina, não são casos raros. Miguel Torga ou António Lobo Antunes são dois exemplos bem conhecidos. Maria João Carvalho, apesar de não nunca ter escrito sobre doentes, considera que a sua profissão pode contribuir para a criação literária. “Há muitos médicos escritores e a única explicação é a grande experiência de vida que vamos adquirindo com os doentes e com as suas famílias. Ouvimos muitas histórias todos os dias e o médico é sempre um humanista a não ser que só vejam números, também há, mas desses não vai ficar nada, nem romances, nem contos nem nada”, diz.Por outro lado, lidam com uma coisa que “é quase sagrada”, a integridade física: “Actualmente os médicos são quase os únicos a tocar o sagrado. As pessoas já não têm credo, não têm convicções políticas, perderam-se os ideais. Desapareceu tudo isso, ficou a saúde. Dantes dizia-se que ao médico e ao padre dizia-se tudo, ao padre já não se diz, mas ao médico ainda se diz. Não temos consciência disso, mas há como um empréstimo de transcendência de um lado para o outro e se calhar temos de escoar esse peso, porque é um peso, fazendo outras coisas. Escrevendo, pintando... os médicos fazem muitas coisas e se calhar os outros também”. Ultimamente o trabalho no hospital não lhe tem deixado muito tempo livre, mas na forja estão dois romances: “Tenho tido muito trabalho, faço muitas urgências e a fadiga acumula-se. Mesmo assim tenho escrito qualquer coisa e já sai do buraco, já tenho solução à vista”.Um dos livros já tem nome – “Quando a mãe jogava majong” – mas o outro continua sem titulo: “Já teve um, mas confundia-se com um programa humorístico e desisti, terei de arranjar um outro”. Para Maria João não são necessárias condições especiais para escrever – “escrevo em qualquer sítio e em qualquer situação” – aproveita os bocadinhos no hospital e “lá vão mais umas frases”.Depois e apesar das histórias dos doentes não servirem directamente para a criação dos seus romances e personagens, Maria João é cardiologista, ou seja cuida do órgão com maior simbolismo. “É verdade que o coração é o símbolo do amor, o pulsar da vida, diz-se que se tem bom coração ou mau coração. A simbologia do coração é quase infinita”, diz. Amanhã Maria João Carvalho vai sair da sua casa de Parceiros rumo ao hospital a alguns quilómetros mais além. Veste a bata branca, coloca o estetoscópio ao pescoço e fica pronta para mais um dia a ajudar quem precisa, a ouvir as suas histórias, os seus dramas e anseios. Depois é tempo para outras realidades. Margarida Trincão
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