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Camarada Manuel Serra D’Aire

Edição de 21.04.2004 | E-mails do outro mundo
Já lá vão trinta anos sobre a revolução de Abril. Ou melhor, trinta anos de evolução, como diz o Governo nos cartazes por aí espalhados, que seguiram fielmente a teoria da evolução das espécies defendida por Charles Darwin e que tem no primeiro-ministro que a manda celebrar o exemplar mais paradigmático.Quando Darwin estudou a evolução da fauna nas ilhas Galápagos e noutros pontos do globo para sustentar a sua teoria evolucionista estava longe de adivinhar o gigantesco laboratório que tinha à disposição em Portugal se tivesse vivido mais um século. Aqui, ao contrário de outros locais, bastaram trinta anos para que se processassem mudanças radicais na fauna. A capacidade de adaptação dos nativos ao novo clima político seria considerada admirável pelo estudioso inglês.Um exemplo: em 30 anos Durão Barroso evoluiu de fervoroso maoísta adepto da revolução cultural chinesa a chefe de um Governo de centro-direita. E, diga-se em abono do rigor científico, foram muitos os que em três décadas de evolução passaram de potenciais Che Guevaras a mordomos do liberalismo económico, num esforço de adaptação assombroso às novas realidades que só os últimos empedernidos comunistas não conseguem acompanhar, talvez por ainda acreditarem no Pai Natal.Mas a evolução destes trinta anos não se ficou pelos descendentes do macaco. Com a evolução que Abril proporcionou surgiu a televisão a cores e as telenovelas, os fundos comunitários para construir rotundas e plantar girassóis, os preservativos às cores e com sabores, o caso Casa Pia, as vitórias do Porto e as derrotas do Benfica. Enfim, montes de coisas úteis para entreter o povo, acrescidas do facto de ter sido liberalizada a venda da Coca-Cola em Portugal, de termos descoberto que fumar mata e de nunca mais termos mandado soldados para as nossas colónias.Abril trouxe ainda a elevação do tacho a património nacional, tornando-se num marco indelével da modernidade lusitana. Governo (local, regional, nacional) que se preze cria tachos às carradas, para alimentar as suas clientelas. E político de tomates não se fica por um ou dois tachitos, coleccionando no seu currículo ao longo da sua habitualmente curta vida activa autênticos trens de cozinha.Assim de repente lembro-me de dois jovens políticos da nossa região que se estão a tornar em casos sérios (eu sei que há mais, mas o espaço não chega). O presidente da Câmara de Santarém, o socialista Rui Barreiro, antes de ser eleito com os votos do povo, em meia dúzia de anos coleccionou quase outros tantos cargos, desde adjunto do governador civil a director geral do desenvolvimento rural. E ainda não tem 40 anos...Mas a grande coqueluche dos últimos tempos é o abrantino Pedro Marques que em menos de um mês conseguiu ser director do Centro de Formação Profissional de Tomar, deputado à Assembleia da República pelo PSD e, mais recentemente, nomeado director dos centros de saúde de Abrantes, Sardoal, Mação e Constância. Refira-se ainda que o jovem social-democrata teve ainda tempo para ser vereador na Câmara de Abrantes e para anunciar a sua recandidatura à presidência desse município.Aqui está um exemplo da flexibilidade e polivalência credor de menção no Guiness Book e que faria as delícias do nosso patronato. Um caso que só se tornou possível com a evolução de Abril. Aliás, perante tanto voluntarismo e competência, acho que Pedro Marques devia ser melhor aproveitado em prol do serviço público, assumindo funções de vereador à segunda-feira, de deputado à terça, de director do centro de formação profissional à quarta, de director do centro de saúde à quinta e de candidato à Câmara de Abrantes à sexta. O fim de semana, obviamente, seria para descansar porque, ao contrário dos tachos, o corpo de um político não é de alumínio inoxidável.Saudações revolucionárias do Serafim das Neves

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