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Histórias de guerra e paz

Histórias de guerra e paz

Oficiais do Campo Militar de Santa Margarida falam das suas missões em África

Um esteve na Guiné para lutar pela soberania portuguesa. Outro esteve em Angola, já nação independente, para zelar pelo cumprimento do processo de paz tutelado pela ONU. Quase trinta anos medeiam essas experiências, que marcaram o tenente-coronel Carlos Correia e o capitão Pedro Silva.

Edição de 21.04.2004 | Sociedade
Tinha 22 anos quando embarcou num barco a vapor para ir defender a ex-colónia portuguesa da Guiné. Corria o ano de 1970. Mal chegou, o então alferes Carlos Tavares Correia foi confrontado com a morte. Ainda nem tinha saído para o mato. A companhia que comandava teve que ir fazer a evacuação de uma patrulha atingida por uma mina. No regresso ao aquartelamento transportou quatro mortos. Foi o primeiro contacto com a dura guerra colonial, de que tinha ouvido falar no treino das forças de operações especiais em Lamego. Na viagem de sete dias no barco, antes usado para transportar gado dos Açores para o continente, sentia que não queria ir. Mas o dever de defender a pátria acabou por falar mais alto. O calor e a humidade da Guiné foram as primeiras dificuldades que encontrou. Depois habituou-se ao clima. Aos tiros. A dormir em abrigos, cavados debaixo do chão. A companhia que comandava, com 30 homens, era conhecida pela companhia 27 escudos, porque tinha o número 2700. Durante os mais de 24 meses que esteve no teatro de guerra nunca viu o inimigo. Após os ataques o único sinal dos “turras” - como eram designados os guerrilheiros dos movimentos de libertação -, era o sangue espalhado no chão.As primeiras saídas para o mato foram as mais complicadas. “Íamos à procura do desconhecido. Havia um ambiente temeroso. Depois, ao fim de um tempo, habituámo-nos”, contou. Tal como se acostumaram ao som das balas que durante a noite voavam por cima dos abrigos. Uma forma de desgastar as tropas portuguesas. Hoje com 56 anos e com a patente de tenente-coronel, Carlos Correia é dos poucos combatentes que ainda se mantém no activo. Está no Campo Militar de Santa Margarida (CMSM), Constância, e reside no Entroncamento. Mais de 30 anos após a guerra, ainda recorda o episódio em que uma mina rebentou a cerca de 100 metros da sua posição. Morreram três soldados de outra companhia e dois ficaram mutilados. No tempo que esteve na Guiné a maior satisfação foi ter trazido para casa todos os homens que levou. Apesar de terem registado 14 flagelações ao aquartelamento e o rebentamento de 7 minas, que só por milagre não apanhou nenhum dos elementos da companhia 27 escudos. Carlos Correia diz que a Guiné era o Vietname português. As grandes dificuldades prendiam-se com o facto de haver muitas povoações que ajudavam os guerrilheiros. Nas saídas para o mato dos militares portugueses costumavam ir habitantes locais a acompanhar. Quando não ia ninguém já se sabia que se preparava um ataque. A maior felicidade que guarda do tempo de combate é a de não ter tido baixas na sua unidade. E as amizades que se fizeram e que estão em centenas de fotografias guardadas em duas caixas de sapatos. Voltar a África em tempo de pazVinte e sete anos depois um camarada do tenente-coronel volta a África. O capitão Pedro Pires da Silva, de Tomar, a prestar serviço no CMSM, integrou uma unidade de observadores internacionais no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU). Entre 1997 e 1998 esteve em Angola a verificar a implementação dos acordos de paz. Não havia guerra, mas a insegurança estava ao dobrar de cada esquina. “Na altura qualquer indivíduo tinha armas. Todos os dias passavam tiros por cima do acampamento. Havia ainda o perigo das muitas minas espalhadas pelo terreno, que todos os dias vitimavam civis”, lembrou.Durante a presença dos capacetes azuis de 38 países, nunca houve nenhum ataque aos portugueses. Mas os militares brasileiros sofreram uma emboscada na qual morreram três pessoas. “Havia um certo carinho pelos portugueses, sobretudo por parte da população mais velha”, justificou. No tempo em que esteve em Luanda o que o impressionou mais foi a destruição. O lixo nas ruas e as crianças a tomarem banho em poças de água putrefacta foram outras imagens de choque. Na cidade de Huambo não havia um centímetro quadrado de parede que não tivesse 10 furos de balas. No meio da insegurança o capitão viveu um episódio hilariante. Num posto de controlo das Forças Armadas Angolanas um soldado apontou a arma ao carro onde seguia Pedro Pires da Silva e outros capacetes azuis. Estava embriagado e exigia o pagamento de portagem para poderem passar uma ponte. Ao fim de algum tempo de negociação o militar português acabou por dar 500 kuanzas, o equivalente a 25 cêntimos. O militar angolano entregou então um recibo antigo, da época de 60, que no cabeçalho dizia “República Portuguesa”. António Palmeiro
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