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Uma vida de saltimbanco

Luís Gameiro, polícia e estudante de mérito

Trabalhar e estudar são actividades compatíveis, como prova Luís Gameiro, o polícia residente no Entroncamento que trabalha em Lisboa e tem aulas no Politécnico de Tomar, onde é um dos melhores alunos. Mas nem todos aguentam o ritmo alucinante do dia a dia. Em Abrantes, Artur Marques suspendeu há dois anos o seu curso de Comunicação Social na Escola Superior de Tecnologia por não ter tempo para tanta coisa junta. São as duas faces da vida de um trabalhador-estudante.

Edição de 28.04.2004 | Sociedade
Poucos terão uma vida tão atribulada como Luís Gameiro. Aos 31 anos reparte a sua vida entre o Entroncamento, onde vive, o Comando Metropolitano de Lisboa da Polícia de Segurança Pública, onde veste a farda de agente da divisão de segurança, e o Instituto Politécnico de Tomar, onde estuda e, entre milhares de colegas, consegue tirar as melhores notas.Estudar está-lhe no sangue. Apesar de ter feito um interregno de uma década nunca deixou verdadeiramente os livros de estudo. Considera-se um autodidacta por natureza e não é por acaso que a sua biblioteca ultrapassa já o meio milhar de livros.Há quatro anos decidiu regressar às salas de aulas. Queria seguir psicologia mas acabou no curso de Gestão de Recursos Humanos e Comportamento Organizacional do Instituto Politécnico de Tomar (IPT). A sua perseverança tem sido compensada pelas distinções de mérito que recebeu do instituto nos dois últimos anos, com notas superiores a 17 valores. Foi também o seu sentido cívico que o levou, em 1996, a ingressar na polícia, por sugestão de um amigo, hoje colega de profissão. Durante os últimos três anos, Luís Gameiro dormiu pouco, não teve horas certas para as refeições e dividiu-se entre Lisboa e Tomar, com uma passagem rápida pelo Entroncamento, mesmo só para ver a filha Carlota e a mulher Alexandra, que o apoia incondicionalmente. Uma vida que, apesar dos transtornos e dos incómodos, abraçou por convicção. E quando as coisas são feitas assim os resultados aparecem. No ano passado, classificou-se em primeiro lugar entre três mil alunos do IPT, com 17,40 valores.Este ano (as distinções de mérito reportam-se sempre ao ano lectivo anterior) Luís Gameiro voltou a repetir a dose, classificando-se em terceiro lugar, com 17 valores.O trabalhador-estudante minimiza o feito – “Há muitos como eu”. Apesar da modéstia, Luís deixa a receita para quem está a pensar seguir os seus passos: força de vontade.Mas o método de trabalho também ajuda muito. Ainda por cima quando por força do emprego não se consegue assistir a muitas aulas. Primeiro que tudo há que pedir o programa de cada cadeira, logo no início do ano. Com ele na mão busca-se toda a informação possível sobre os assuntos que irão ser tratados.Fundamentais são os apontamentos. E para isso servem os colegas, “alguns espectaculares”, como a Aida, que lhe emprestam os cadernos. Todos os dias Luís Gameiro selecciona um ou dois livros para estudar no comboio – “afinal sempre é hora e meia para cada lado”. O pior é quando adormece.Os colegas voltam à baila quando fala do período antes das frequências. “Reunimo-nos três ou quatro, dois ou três dias antes, para debater as matérias”, refere, adiantando que nesses dias só param mesmo para comer.Abraçar a dupla função de trabalhador-estudante acarreta custos. Custos financeiros, que prefere não contabilizar, mas também outro tipo de custos. O distanciamento do seu círculo social de amigos, as idas ao cinema e ao teatro. “Consegui ir ao concerto dos Doors, vá lá, mas esse não podia mesmo perder”, diz.Há no entanto perdas que deixam marcas, como o momento em que a filha, de dois anos, começou a gatinhar. “A mãe estava lá, eu estava na escola”.Desde Outubro, Luís Gameiro está a dar formação na Escola Prática da Polícia, em Torres Novas. Pelo menos até ao final de Maio consegue ter mais tempo para a família, mas menos para o curso, já que o horário da formação coincide com o das aulas. Em Junho, volta ao seu périplo entre Entroncamento/Lisboa/Tomar. E prepara-se para dar novo salto na sua vida. “Quero fazer um mestrado, mas tem de ser de seguida”, diz, adiantando que os 1750 euros que irá receber da bolsa de mérito irão servir como entrada para o mestrado. Para este estudante/trabalhador, o curso não é só um meio para atingir um fim. O que está em causa é a sua realização pessoal. “Não estou a perder dinheiro, estou a investi-lo”.

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