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Endiabrado Manuel Serra D’Aire

Endiabrado Manuel Serra D’Aire

Edição de 05.05.2004 | E-mails do outro mundo
Já aqui o disse e repito: é da mais elementar injustiça o que estão a fazer ao cidadão Benvindo, condenado a trabalhar por pôr um filho a pedir numa rua de Santarém. Se a justiça é cega e igual para todos, cadê os outros? Os senhores polícias e juizes que ponham os olhos na resma de gosmas que por aí anda! Era uma maneira de ter o problema do desemprego resolvido em três tempos. Neste país pedintes não faltam, sejam engravatados ou entrevados. E a muitos deles não lhes fazia mal nenhum alombar, nem que fosse só 80 dias como o pobre condenado, para verem o que é ter de vergar a mola honestamente e depois serem assaltados diariamente por essa corja da pedincha.Um tipo vai ao supermercado e até chegar lá dentro tem de passar por uma série de barreiras de pedintes. Um gajo vai estacionar o carro a um parque qualquer, às vezes até pago, e tem os arrumadores à perna como cão a um osso. Uma alma de Deus pára num semáforo e sai-lhe ao caminho uma seita de romenos a impingir-lhe uma treta qualquer a troco de umas moedas. Não há pachorra! Com tanta terra para cavar, tanto pinhal para limpar...A institucionalização da pedincha chegou a tal ponto que, no fim de semana da Páscoa, deparei com o que parecia uma operação Stop numa rotunda em Abrantes que dá acesso à A 23. Um local movimentado, como deves imaginar. Plantada na rotunda estava uma ambulância da Cruz Vermelha e, literalmente, na faixa de rodagem estavam dois homens fardados que deviam pertencer a essa organização, que eu muito prezo, a empatar o tráfego. Escusado será dizer que de mim não levaram um chavo. Para me convencerem é preciso saber pedir. E aquilo tinha mais aparência de assalto a uma diligência no velho Oeste do que de peditório para uma intituição respeitável. Pareciam os irmãos Dalton dos livros do Lucky Lucke.Aliás, tal como o célebre tacho, a pedincha é outra das conquistas de Abril. Basta ir a uma reunião de câmara para se ter uma ideia do que para aí vai. Ninguém faz nada sem um subsidiozito da autarquia. É para um concurso de pesca, é para uma ida do rancho a frança, é para o futebol, para o concurso de vestido de chita, para uma largada de pombos e por aí fora. Some-se isso tudo e digam-me quantos buracos não se podiam tapar. Quantos assessores não se podiam contratar...Mas a melhor aconteceu-me um dia destes num restaurante de Almeirim. Um grupo de amigos está a almoçar quando irrompe uma cachopa que desata a tirar fotografias aos convivas. Um tipo não pode agarrar o entrecosto à mão porque fica registado para a posteridade. A matrona não pode palitar os dentes porque está sujeita a ficar no ficheiro sabe-se lá de quem. Um galifão não pode levar a amante sob pena de ver tudo desmascarado no dia seguinte. E cada foto era a 5 euros com a agravante de, se não comprares, a tua imagem ir para reciclagem. Foi isso que me disseram. Pelo sim pelo não, comprei a minha fotografia quando meia hora depois me a mostraram. Não me estou a ver reciclado assim sem mais nem menos, por alguém que não conheço e possivelmente conhecedor de técnicas de vudu. Imagina que me espetavam alfinetes nos olhos, ou que me punham as orelhas a arder enquanto me chamavam pelintra e forreta.A confusão chegou a tal ponto que, em simultâneo, à volta da minha mesa, andava um homem a vender lotarias, a cachopa a tirar fotografias e um simpático ancião a vender pares de cornos a pessoas que só queriam almoçar descansadas. Caso para dizer que naquele restaurante até serviam refeições…Um abraço mal digerido do Serafim das Neves
Endiabrado Manuel Serra D’Aire

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