uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
31 anos do jornal o Mirante
A freguesia que brotou de uma nascente

A freguesia que brotou de uma nascente

A localidade nasceu à beira de uma fonte por onde negociantes de gado passavam

Autosuficiente na indústria, comércio e serviços, Asseiceira é uma freguesia de gente reivindicativa, que luta pelas suas convicções. Como há 170 anos os irmãos D. Pedro e D. Miguel ali o fizeram, na guerra civil vencida pelos libeirais.

Edição de 05.05.2004 | O poder local aqui tão perto
A água é fonte de vida e o elemento base da freguesia da Asseiceira, concelho de Tomar. Foi por causa dela que a localidade do concelho de Tomar nasceu. Reza a história que a terra era local de passagem dos comerciantes de gado que faziam o seu negócio entre Santarém e Tomar. Como havia à beira do caminho uma fonte que jorrava água fresca de Verão e de Inverno foi ali criado um posto de descanso para os viajantes.Foi a partir dessa fonte, chamada salgueiral, e de uma estalagem feita posteriormente por alguém com olho para o negócio, que as pessoas começam a instalar-se formando um primeiro núcleo populacional. Há 700 anos, D. Dinis fundou a povoação com o nome de Ceyceyra, que pela transformação das palavras acabou em Asseiceira.A fonte ainda hoje existe e foi até restaurada pela junta de freguesia. Mas agora já não está à mão do viajante que circula na estrada nacional 110, entre Entroncamento e Tomar. Quem quiser beber daquela água tem forçosamente de passar pelo meio da aldeia sede de freguesia.Uma freguesia que, paradoxalmente, com a fartura de água existente ainda espera pelo saneamento básico. As obras para construção do emissário iniciaram-se há bem pouco tempo, depois de anos de reivindicações por parte de uma população que soma já mais de seis mil habitantes, 15 por cento da população do concelho.Mas a aldeia também faz parte de um importante período da História de Portugal. Poucos saberão que foi ali, em 1834, que se deu a célebre batalha da Asseiceira, onde os irmão D. Pedro e D. Miguel esgrimiram armas na luta que envolveu absolutistas e liberais e que deu origem, dois anos depois, à reforma administrativa do país, já com os libeirais no poder. Uma reforma que levou Asseiceira a baixar para a “segunda divisão” administrativa, perdendo o estatuto de vila e sede de concelho. A 16 de Maio próximo comemoram-se os 170 anos da batalha sangrenta, uma data que será assinalada na aldeia.Durante o combate entre absolutistas e liberais os feridos eram tratados no edifício da misericórdia, que passou a ser conhecido como hospital de sangue. Hoje não é mais que um monte de ruínas, que o presidente da junta diz querer recuperar, em honra da memória histórica.Seja ou não devido ao passado histórico da terra, o facto é que a população das aldeias que compõem a freguesia é aguerrida e reivindicativa por natureza. Não é por acaso que, há uma vintena de anos, Santa Cita quis desagragar-se da sede e formar ela própria uma freguesia. E há meia dúzia de anos o mesmo se tenha passado em Linhaceira, a aldeia mais populosa do distrito de Santarém.Apesar de toda a freguesia estar bem apetrechada em termos de comércio e indústria – o presidente da junta diz mesmo que são auto-suficientes – é em Santa Cita e Linhaceira que se concentram os mais importantes pólos de desenvolvimento.O grupo Citaves e as construções João Salvador são os maiores empregadores da zona, mas há ainda a cerâmica e a olaria, negócios que floresceram mercê da excelente qualidade do solo existente na freguesia. Não é por acaso que uma empresa de argilas de Torres Vedras se instalou recentemente na região, exportando barro para além fronteiras.Em termos de serviços a freguesia também está bem servida. Há diversas oficinas de mecânica e pintura, casa de venda de pneus, carpintarias e materiais de construção. Comércio não falta também – restaurantes, cafés, mini e supermercados e até uma média superfície, cabeleireiros, farmácia, bomba de combustível, caixa multibanco e papelaria, que funciona também como posto de recepção de correio.Mas os habitantes da freguesia não se contentam com pouco e querem sempre mais para a sua terra. O seu espírito aguerrido já deu muitas dores de cabeça a quem está à frente do poder político local. “Esta é uma freguesia sui generis e difícil de governar porque cada aldeia quer ter as suas coisas”.É por isso que cada uma tem a sua associação recreativa e cultural, com provas dadas a vários níveis. Na sede de freguesia, por exemplo, destaca-se o rancho, já federado, denominado As Lavadeiras, nascido em honra às mulheres que lavavam roupa no tanque comunitário junto à fonte do Salgueiral.Na Linhaceira o futebol é o desporto rei, com a equipa da terra a militar actualmente na segunda divisão da distrital de Santarém. As mulheres não deixam ali os seus créditos por mãos alheias e criaram também uma equipa de futsal. A associação de Santa Cita é conhecida pelo seu clube de hóquei e, mais recentemente, pela modalidade de patinagem. Na freguesia há ainda uma associação de caça e pesca e um grupo de escuteiros.Existem quatro extensões de saúde –Linhaceira, Asseiceira, Santa Cita e Roda Grande – com as três últimas localidades a terem cemitério. Cada terra tem ainda a sua casa mortuária, dado invulgar hoje em dia, e está em construção um centro de dia na sede de freguesia que irá servir toda a população.Das escolas primárias existentes, apenas a da Roda Pequena fechou o ano lectivo passado, por falta de alunos. Mas a freguesia está incluída no plano concelhio de criação de centros escolares, um projecto cuja concretização o presidente da junta anseia.Mais e melhor iluminação pública e pavimentação das estradas interiores das aldeias são as principais pechas da Asseiceira. Mas há um sonho ainda para concretizar – ter na freguesia uma escola dos segundo e terceiro ciclos, um estabelecimento justificado pelo grande número de jovens que todos os dias se deslocam para a cidade, a sete quilómetros. “Não se concebe que os autocarros venham constantemente apinhados de alunos, sem a mínima segurança”, diz Augusto Lopes, reivindicando a descentralização do ensino preparatório e secundário. Talvez possa pedir algumas verbas a Franquelim Alves, amigo e filho da terra que hoje é secretário de Estado Adjunto da Economia...Margarida Cabeleira
A freguesia que brotou de uma nascente

Comentários

Mais Notícias

    A carregar...