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A tragédia dos actores

Edição de 05.05.2004 | Opinião
Alguns dos meus leitores de O MIRANTE já me conheciam das crónicas que são publicadas ao Domingo no Correio da Manhã.Terão reparado que na última delas, referi-me a um célebre actor. Não mencionei o nome, mas tenho a certeza que quase todos o identificaram.Os julgamentos com actores são complicados.O juiz tem de avaliar se o depoimento merece ou não credibilidade. O actor está habituado a viver num mundo de faz de conta. Assume o seu papel e fá-lo da forma mais crível. Não digo que os actores sejam mais mentirosos que as outras pessoas, mas devem ter mais habilidade para fabular. Certa vez, assisti a um julgamento em que era testemunha Rui Mendes. Para além de magnífico profissional, é também um excelente director de actores.O caso era de importância diminuta.Ele conduzia o seu automóvel em Lisboa, à noite, depois de terminar uns ensaios. Deparou-se com um acidente.O arguido estava ausente e o julgamento decorria à revelia. Era acusado de conduzir uma das viaturas envolvidas, sem ter carta de condução.Rui Mendes foi de um rigor extraordinário.Descreveu tudo o que vira com grande pormenor. Relatou algumas conclusões que retirou. Mas soube distinguir bem entre os factos que presenciou e as ilações que fez.Parecia que estava a descrever um acto de uma peça de teatro.Foi um mestre na reconstituição do acontecimento.Houve um caso trágico ocorrido com um casal de actores. A mulher era a arguida, mas estava inocente.Ambos viviam num pequeno apartamento escassamente mobilado.À noite, tinham recebido uns amigos. A filha do casal tinha quatro meses. Estava atacada com muita tosse.Logo que os visitantes se retiraram, os membros do casal tomaram rumos diferentes.O marido continuou na sala, a ver televisão.A esposa foi para o quarto e resolveu tratar do problema de saúde da menina. Pegou num panelão com água a ferver e deitou-lhe ervas aromáticas. Pretendia que o bebé respirasse os vapores. Colocou a panela no chão junto à cama e deitou-se com a criança, colocando-a à ponta da cama e segurando-a firmemente.O diabo é que a mãe da menina deixou-se adormecer. O pai terminou de ver televisão e decidiu ir deitar-se. Ao entrar no quarto, deparou com um cenário dramático. A mulher estava a dormir profundamente. O bebé encontrava-se no panelão. Quando a mãe adormeceu, a criança deixou de ficar presa à mãe e inevitavelmente tombou.Os agentes da Polícia Judiciária fotografaram todos os cantos à casa, que aliás era pequena.O panorama era impressionante. O pai já tinha retirado o cadáver e colocado-o sobre a cama. A mãe encontrava-se em estado de choque.Foi absolvida do crime de que vinha acusada: homicídio negligente da própria filha. Mas certamente teve um sofrimento incomparavelmente superior ao de quem passa uns anos na cadeia.É conhecido um episódio passado com Vasco Santana, o grande actor dos primeiros filmes sonoros portugueses.O artista envolvia-se frequentemente em confusões e várias vezes respondeu em tribunal.Como sempre e ainda hoje sucede, no final do julgamento, o juiz dá a palavra ao réu, para dizer o que entender por conveniente antes de ser proferida a sentença.O juiz questionou Vasco Santana:- O senhor tem algo para alegar?Não foi falta de respeito ao tribunal. Nem desejo de fazer humor. Parece que Vasco Santana não ouviu mesmo correctamente o que o magistrado dissera.E então respondeu, demonstrando alguma surpresa pela pergunta:- Senhor Dr. Juiz, eu para alugar só tenho uma casa no Estoril.* Juiz(hjfraguas@hotmal.com)

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