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A dura vida de mãe

A dura vida de mãe

O dia a dia diabólico de três jovens mulheres trabalhadoras, esposas e donas de casa

Longe vão os tempos em que as mulheres eram vistas como as fadas do lar. Hoje, disputam palmo a palmo com os homens os lugares no competitivo mercado de trabalho. E essa luta paga-se com o ritmo de vida acelerado, com o desgaste físico e psicológico. Decididamente: vida de mãe não é fácil!

Edição de 05.05.2004 | Sociedade
O quotidiano de Lídia Santos começa cedo, muito cedo, muitas vezes ainda noite cerrada. Por volta das seis e meia da manhã levanta-se e cumpre a primeira de muitas etapas que tem de vencer diariamente: alimentar e vestir os gémeos João Francisco e Margarida, que em Junho fazem um ano. Depois é a vez de cuidar de si antes de começar a correria que a vai levar de Constância, onde reside, até Vila Franca de Xira, onde é funcionária do Ministério Público no tribunal local. As crianças ficam numa ama.O trajecto é sempre igual de segunda a sexta-feira: vai de automóvel até ao Entroncamento, onde muitas vezes tem de penar para encontrar estacionamento, apanha o comboio e sai na estação de Vila Franca, que, felizmente para ela, fica bem próxima do seu local de trabalho. À tarde, o percurso repete-se em sentido inverso. O tempo que passa no comboio acaba por ser dos poucos momentos de descontracção do dia. Já passa das seis da tarde quando chega a casa. Muitas vezes “de rastos”. Mas a jornada ainda só vai a meio. Há que preparar o jantar, cuidar da casa, dar banho aos bebés, dar-lhes a comida. O pouco tempo que sobra é para brincar com os gémeos e descontrair um pouco em frente à televisão. “Deixei de ter tempo para mim”, diz, quando lhe perguntamos o que mudou mais na sua vida após ter sido mãe.Vale-lhe neste lufa-lufa constante a ajuda preciosa do marido e de uma mulher-a-dias. E também a hora que lhe é concedida diariamente por lei, que lhe permite entrar mais tarde e sair mais cedo do trabalho. Um benefício que vai acabar no final de Maio e que significa stress acrescido. Não admira por isso que diga que o seu sonho é sair-lhe o totoloto. Mas já seria uma sorte grande para Lídia Santos, 35 anos, se pudesse trabalhar mais perto de casa. As possibilidades de transferência são remotas, pelo menos para já. Mas vai concorrendo quando surgem oportunidades. Enquanto assim não for, já sabe que continuará a ter grande parte do fim-de-semana para pôr em dia tarefas que não pôde executar ao longo da semana. Mas, para ela, o mais complicado mesmo é “estar doze horas longe dos bebés”.Uma agenda completaHoje, as mães quase não têm tempo para ver crescer os filhos. Ana Reis Casquinha, 32 anos, advogada, esposa, mãe de dois filhos, é outro exemplo de quem conta o tempo ao segundo. Para além da actividade profissional que a obriga a fazer muito mais que as oito horas diárias, Ana Reis Casquinha é dirigente distrital do PS de Santarém, coordenadora do secretariado do PS em Samora Correia e eleita da Assembleia Municipal de Benavente. É ainda presidente da assembleia geral da associação de pais do Agrupamento de Escolas de Samora Correia e membro da comissão instaladora da Associação de Pais e Encarregados de Educação das Crianças do Centro de Bem Estar Social Padre Tobias. Uma vida pública recheada, que há poucas décadas era pouco comum em mães de família. Mas os tempos são outros. E quem a conhece diz que não consegue rejeitar convites. Embora uma gravidez delicada a tenha feito deixar a Associação Recreativa de Porto Alto, onde foi vice-presidente, e rejeitasse várias propostas para cargos de dirigente associativa. “Já tenho uma agenda completa”, explica. O dia de Ana Reis começa às sete da manhã e muitas vezes termina às duas da madrugada. Quando se levanta trata dos filhos, Ana Rita, de dois meses, e Vítor Hugo, de 4 anos. Depois vai levar a bebé à avó materna e o rapaz à creche. Entregues os filhos, passa pelo escritório para articular a agenda. Se houver diligências nos tribunais ou noutros organismos sai, sem saber a que horas volta. O dia é preenchido com questões jurídicas, mas há sempre problemas da vida política e pessoal para resolver. Quando pode, raramente antes das oito da noite, a advogada vai buscar os filhos à avó, trata deles, muitas vezes, com a ajuda do marido, e, cerca das nove, sai para reuniões nos vários grupos onde trabalha. Os serões raramente acabam antes da meia-noite e muitas vezes rompem pela madrugada. Quando chega a casa, Ana Reis ainda vai dar o leite à filha que nem sempre lhe dá uma noite descansada. Por vezes, dorme cinco horas, mas considera que é suficiente quando o organismo se habitua.Os fins de semana são aproveitados para colocar a roupa em dia, ou seja lavar as roupas de toda a semana, para que a empregada possa passar durante a semana, e para fazer algumas coisas “que são impossíveis durante a semana”, como ler, ver televisão e dar atenção aos filhos. Quando não existem actividades políticas ao fim de semana, a família aproveita para fazer as compras e passear. Uma correria constanteHistória semelhante passa-se com Maria João Braz, 29 anos, actualmente funcionária dos Correios em Tramagal e Santa Margarida. O fim de semana desta mãe, residente na Chamusca, é para pôr a roupa “em dia” e para tentar “compensar” os filhos do pouco tempo que tem para eles nos dias de semana: levá-los aos escuteiros, à catequese ou ao futebol. “Acaba por ser outra correria”, diz.O seu dia começa às seis da manhã. Tem de cuidar das crianças – Marco António, de 9 anos, e Ana Carolina, de 6 anos, – de preparar o almoço do marido, que trabalha fora da vila onde residem, e de se arranjar antes de partir para o emprego. Não tem empregada e a ajuda do marido, diz, também não é a ideal.Sai de casa por volta das oito da manhã e regressa às 19h30. Depois, a história repete-se. Tratar do jantar, dar banhos aos filhos, ajudar nos trabalhos de casa. O tempo não dá para ver televisão, nem para se sentar um bocadinho no sofá. Vale-lhe os dias em que as crianças ficam com as avós para poder repousar um pouco. Maria João sentiu uma mudança profunda na sua vida após ser mãe, “tanto psicologicamente como fisicamente”. Mas mais psicologicamente. “Durante a semana não damos a atenção que gostávamos de dar às crianças e depois por vezes tentamos compensá-los erradamente”. E isso marca.Confessa que por vezes o ritmo de alta rotação do dia a dia a leva a tomar atitudes mais bruscas de que depois se arrepende. “Essa correria reflecte-se na nossa relação com eles. Às vezes ralha-se mais um pouco com eles de manhã e depois, quando me sento no carro para ir para o trabalho, já estou arrependida e as lágrimas vêm-me aos olhos”. Afinal de contas, mãe é mãe. E, como diz Maria João, “ser mãe é a melhor coisa do mundo”.
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