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Leandrão acabou com o sofrimento

Abrantes venceu 3-2 Lourinhanense e garantiu a subida

O arraial estava montado e o dia era de festa, mas os pupilos de José Vasques deram 45 minutos e dois golos de avanço ao adversário e iam rebentando com o coração dos milhares de adeptos que encheram as bancadas do Municipal de Abrantes. Depois, sob a batuta do suplente Leandrão, construíram uma vitória assente na raça e na vontade de vencer, que lhes deu a passagem ao escalão acima do futebol português. Não era preciso sofrer tanto mas assim a vitória foi bem mais saborosa.

Edição de 12.05.2004 | Desporto
Tudo se conjugava para uma tarde de grandes emoções em Abrantes. Os adeptos compareceram em peso, e a claque Clã dos Corvos ensaiou uma bonita coreografia, com bandeiras, balões e muito fumo amarelo e azul, as cores da equipa. Mas o Lourinhanense não veio para ser cabeçudo e entrou decidido a complicar a vida a José Vasques e aos seus pupilos.Aos quatro minutos, o “negrão” Osvaldo colocou a sua equipa à frente do marcador. Afonso derrubou um adversário ainda longe da sua baliza, o árbitro assinalou a falta e Osvaldo aproveitou bem o forte vento que se fazia sentir para marcar o livre de forma soberba, fazendo entrar a bola bem ao ângulo da baliza defendida por Vítor Bernardes.O Abrantes sentiu o golo e mostrou-se então algo nervoso. Mas passados poucos minutos, conseguiu reagir e começou a encostar o seu adversário junto à sua área. Os lances de golo foram-se sucedendo, mas na hora de desviar a bola para a baliza, havia sempre alguma coisa que não batia certo. Aos 26 minutos, Sérgio Morujo, sozinho a um metro da linha de golo, conseguiu atirar a bola ao lado da baliza.Dez minutos depois, aconteceu o que parecia impossível, o Lourinhanense fez dois a zero. O lateral direito Águas teve uma incursão no ataque, passou o meio campo e começou a flectir para o centro, e ainda a uns bons trinta metros da baliza, disparou um forte pontapé que levou a bola a embater no poste e a entrar na baliza de Vítor Bernardes. A equipa do Abrantes abanou. Os jogadores olhavam-se incrédulos e os adeptos silenciaram. E até ao intervalo nada de registo conseguiram fazer para modificar a situação. Nas duas únicas vezes que remataram à baliza os jogadores do Lourinhanense marcaram e criaram um ambiente pesado à volta do campo.Ao intervalo, José Vasques deve ter falado ao ego dos seus jogadores, que entraram para o segundo tempo com ganas de vencer. Empurraram o adversário para junto da sua área, dominaram por completo, mas cedo se viu que, apesar de jogarem muito bem, faltava um jogador com faro de matador que materializasse em golo o ascendente abrantino. Santana e Milton, esforçados e a jogarem bem, não conseguiam ser os matadores que a equipa necessitava.José Vasques viu então que tinha que arriscar. Aos 55 minutos, já depois de Sérgio Morujo ter perdido mais uma excelente oportunidade, fez sair o trinco Kleber e colocou em campo o possante Leandrão, que entrou com raça e em pouco tempo dinamitou por completo a defensiva do Lourinhanense.Aos 60 minutos, gerou-se uma confusão na área da equipa visitante, a bola andou de ressalto em ressalto e chegou aos pés de Leandrão que rematou de primeira, colocado em cima da linha de golo. Tiago Guedes defendeu com o braço e o árbitro assinalou grande penalidade e expulsou o jogador do Lourinhanense. Na marcação da grande penalidade, Telmo não perdoou e reduziu a diferença.Este golo acordou ainda mais a equipa do Abrantes e os seus adeptos passaram a incentivar a equipa, que começou a asfixiar o seu adversário. Aos 71 minutos, o possante Leandrão voltou a fazer das suas. Combinou bem com Telmo, que meteu a bola na esquerda em Sérgio Morujo, e centrou tenso para a área, onde apareceu Leandrão a concretizar de cabeça. Foi mais uma explosão de alegria e a partir daí toda a gente acreditou que era possível dar a volta ao resultado.E foi isso que aconteceu. Iam decorridos 82 minutos e a euforia estalou em todo o estádio. Numa bonita jogada de envolvimento, a bola chegou aos pés de Hamilton, que rematou forte para defesa instintiva de Nuno Almeida. A bola ressaltou para a frente, e ali apareceu de rompante Leandrão a cabecear para o fundo da baliza. Estava dada a volta no marcador e os restantes minutos foram já de grande festa, que atingiu o auge quando o árbitro Dário Martins, que fez uma boa arbitragem, apitou para o final.Dentro do campo jogadores, dirigentes e adeptos comemoraram a subida à segunda divisão B, num ambiente indescritível, onde as lágrimas se confundiam com a euforia e alegria de todos. E a festa durou até às tantas, com toda a gente reunida à volta de um porco que foi assando durante o decorrer do encontro. José Vasques tinha estampada no rosto a satisfação do dever cumprido“Mesmo mortos estávamos com vontade de vencer”No final do jogo José Vasques “escondeu-se” um pouco das comemorações da vitória. Deu o protagonismo aos seus jogadores e dirigentes, mas tinha estampada no rosto a satisfação do dever cumprido. Algo contundente nas suas afirmações durante a época, não hesitando em saltar para a frente quando foi necessário defender o seu grupo de trabalho, o técnico foi agora algo comedido nas suas afirmações.José Vasques começou por falar do jogo que a sua equipa acabava de ganhar. “Mesmo mortos hoje estávamos com vontade de vencer, e quando nos vimos a perder imerecidamente por dois zero ao intervalo, revoltámo-nos ainda mais e resolvemos arriscar. Felizmente tivemos o vento da fortuna e vencemos bem”.O técnico garantiu que esta vitória é um degrau que a equipa tem que saborear neste momento para que no futuro possa ser um clube com projecto de segunda divisão B. “Mas o mérito desta subida vai por inteiro para os jogadores, para a sua dedicação, para o seu esforço e também para a coragem que a direcção teve em assumir uma realidade destas, que de facto, acaba por ser megalómana, atendendo à curta vida do clube”, completou José Vasques que garantiu que ainda não sabe se vai continuar em Abrantes.Eufórico estava o jogador Leandrão, que vai ficar indelevelmente ligado a esta vitória. Entrou aos cinquenta e cinco minutos de jogo, e destruiu por completo a equipa do Lourinhanense. “Tive vontade de entrar e ajudar este excelente grupo de trabalho a vencer. As coisas correram-me bem, quero dedicar a vitória a todo este público maravilhoso e também à minha madrinha, que está na Suiça e também precisa de muito apoio”.“Fico no Abrantes para sempre, se Deus quiser. Daqui ninguém me tira. Estou feliz porque a cidade está feliz, e isso para mim é o mais importante. De Abrantes não saio”, garantiu.O capitão de equipa Afonso, jogou com muitas limitações físicas, mas aguentou bem e com esse gesto ajudou a galvanizar os seus companheiros de equipa. “É verdade, já não é de hoje que jogo limitado fisicamente. A equipa técnica tem-me pedido para ajudar e dar o meu melhor dentro do campo, e apesar das muitas dores que sinto, luto para ajudar este grupo de trabalho de que me orgulho ser capitão”.Esta subida é mais um marco histórico na já longa carreira de Afonso, que não escondia a euforia da subida. “É sempre bom subir, e ainda mais quando isso acontece dois anos seguidos, e quando se aproxima o final da carreira é sempre natural sentir uma alegria maior”, referiu o capitão.Emocionado até às lágrimas estava o chefe do Departamento de Futebol do Abrantes, Nuno Pedro. O seu rosto espelhava bem as emoções vividas durante o jogo. “Esta subida foi um corolário de uma época excepcional. Não era um objectivo de início de época, mas a partir de uma determinada fase do campeonato passou a ser”.Satisfeito com a adesão da população de Abrantes à festa da subida, Nuno Pedro quis agradecer a todos, mas demonstrou mais uma vez que a direcção tem os pés bem assentes no chão. “Temos que apoiar e dar mérito a todos quantos têm ajudado neste projecto desde o seu início. Mas agora vamos ter que reunir e discutir o futuro”.“Vamos organizar cada vez mais o clube e nos próximos tempos vai ser necessário profissionalizar alguns sectores, porque o Abrantes quer ser um clube moderno e virado para o futuro”, garantiu Nuno Pedro, que revelou que nada ainda foi falado quanto à próxima época, quer em termos de jogadores, quer de equipa técnica. “No entanto não somos ingratos e isso quer dizer alguma coisa, e se as pessoas quiserem continuar, têm as portas abertas, e nós queremos que continuem a estar”. Quem estava também embalado nos festejos e fazia questão de felicitar jogadores, dirigentes e equipa técnica, era o presidente da Câmara de Abrantes, Nelson Carvalho. “Esta festa é o corolário de uma vitória arrancada a ferros, num acto de grande afirmação e grande vontade”, afirmou o autarca.“Há uns anos eanunciei que devia ser um dos objectivos do nosso concelho ser uma potência desportiva de nível regional, e esta época, com a subida do Abrantes, marca claramente a afirmação desse estatuto”, garantiu o autarca, que fez questão de garantir a continuação do apoio.

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