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Atento observador Serafim das Neves

Edição de 12.05.2004 | E-mails do outro mundo
Já me tinham contado essa do negócio das fotografias nos restaurantes de Almeirim. Estou como tu. Não sou figura pública e não gosto de ser fotografado quando estou a comer uma perna de frango à unha com a barbela toda besuntada de gordura.Infelizmente estamos tramados com esta coisa da privacidade. E agora com os telemóveis com câmara fotográfica incorporada ainda mais. Estamos a meter o dedo no nariz, ou com a mão dentro das cuecas a coçar os tomates e zás. Num segundo temos a fronha distribuída de telemóvel em telemóvel e de computador em computador. O meu maior pesadelo é entrar num site de bizarrias e ver a minha excelsa pessoa com ar de atrasada mental a olhar para uma febra numa qualquer festa de casamento.Ando deprimido. Desolado. Triste e abatido. Um dia destes vi uma reportagem na televisão em que mostravam um sistema de vídeo vigilância de um grande centro comercial. Dezenas de câmaras enviavam imagens para uma parede de monitores. Um segurança controlava o ambiente. Fazia zoom e via as cuecas de uma teen-ager de mini-saia que subia umas escadas. A seguir mudava de local e entrava pelo rego das mamas de uma desprevenida trintona que se debruçava, incauta e desprotegida, para um carrinho de bebé. Estou com uma curte de ocasião num elevador e se calha darmos uns amassos já sei que pode estar um gajo a excitar-se numa qualquer cabine repleta de equipamentos. Quem é que pode viver num mundo destes. No outro dia apanhei um vizinho meu a filmar o que se passava num apartamento do outro lado da rua. A imprevidente vizinha nunca irá saber que passa no DVD do gajo, toda descomposta no sofá da sala, para deleite de uma cambada de gringos que elogiam as capacidades de realização do amigo enquanto bebem umas bejecas.Esta merda é aterrorizadora. E para além da imagem há o som. Mandamos uma bomba e a mesma depois de devidamente samplada vai integrar o próximo CD dum grupo de hip-hop. Li uma semana destas, aqui n’OMIRANTE que até querem colocar câmaras de vídeo nas florestas. Eles dizem que é para vigiar os incêndios, mas é evidente que os pequenos fogos hormonais também vão chegar ao quartel dos bombeiros via satélite. Consegues imaginar um grupo de maduros a seguir os teus avanços no final de um pic-nic com a Sandra, como se estivesse a ver uma novela?Mudando de assunto. Fiquei sensibilizado com a triste história daquele rapazinho de Santarém e das suas duas irmãs que acusam a PSP de lhes ter dado umas cacetadas valentes. Eles ali na foto da página 15, tristes e abatidos, carinhas de anjinhos papudos, inocentes até à medula. E a gente a imaginar os brutamontes da polícia a malhar naquelas carnes tenras sem dó nem piedade. E devem ter molhado a sopa cientificamente porque não se notam nódoas negras nem olhos à Belenenses. Este mundo está cada vez pior. O principal agredido, coitado, que até está sob prisão domiciliária, provavelmente por engano, e que se calha sair de casa é por distracção ou sonambulismo, vitimado pelos maus fígados de agentes que em vez de lhe garantirem segurança lhe criam problemas de insegurança. A ele, um cidadão exemplar que provavelmente terá até os impostos em dia. Meus Deus, que mundo cão é este??!!Um quebra ossos ponderado e amigo do Manuel Serra d’Aire

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