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“Se não facilitasse, metade da Chamusca estava a cair”

Henrique Coutinho foi zelador e fiscal de obras particulares durante 40 anos
Edição de 12.05.2004 | O poder local aqui tão perto
Henrique Coutinho foi durante perto de quatro décadas responsável pela fiscalização das obras particulares em todo o concelho da Chamusca. Hoje, diz com orgulho que se não fosse a forma como desempenhou aquela missão, metade da Chamusca estava a cair de velha.Tudo porque, como em outros locais, uma boa parte dos terrenos estão ainda em nome de antepassados, o que complica bastante sempre que se quer construir, ou fazer obras. Henrique Coutinho, cuja missão era garantir a legalidade das construções, diz que facilitou o que podia facilitar sem nunca prejudicar ninguém, ou violar leis.Nasceu há 72 anos em Casal Moreira, freguesia da Raposa, Almeirim, mas foi morar para a Parreira (Chamusca) aos sete anos. Fez lá a escola e aos 15 anos já trabalhava na agricultura. Mais tarde guardou rebanhos e foi mestre de um forno de tijolo.Foi trabalhar como cantoneiro para a Câmara da Chamusca com 29 anos. Eram tempos difíceis. Ganhava 600 escudos e pagava 150 escudos de renda de casa. Chegou a pensar ir-se embora, mas uma conversa com o presidente demoveu-lhe as intenções. Tirou a carta de tractor e passou a receber mais cinco escudos por dia, o que dava uma boa ajuda.Mais tarde, a câmara comprou uma camioneta e passou a motorista, não sem outra história. Foi o presidente que lhe emprestou dinheiro para tirar a carta. Pagou em prestações e passou a ser motorista e zelador, missão que mais tarde se passou a designar fiscal de obras.Por alturas do 25 de Abril de 1974, escreveu ao então presidente da comissão administrativa que geria o concelho, Cordeiro Pereira, a pedir-lhe para ser apenas motorista, mas, a pedido do autarca, acabou por ficar apenas como zelador. “Era uma fase complicada. As pessoas pensavam que a liberdade era fazer tudo o que quisessem, mas não podia ser assim, porque continuavam a existir leis para cumprir”, recorda. Talvez por isso, foi nesse período quente que fez mais embargos e passou mais multas. A missão de fiscal é muito ingrata e Henrique Coutinho sentiu-o na pele. De início era sempre um inimigo que aparecia, mas depois as pessoas acabavam por compreender. “Usei sempre o sistema de não me deixar enrolar na política e sofri com isso. Para mim todos os contribuintes eram iguais, fossem de que cor fossem”. Foi várias vezes ameaçado, sobretudo através de outras pessoas, mas nunca teve um problema mais grave.Pressões políticas também as sentiu na pele. Não quer citar nomes, mas fala de um ex-vereador que lhe tentou fazer a vida negra. “Pensava que era Deus e que era ele que mandava no que se podia, ou não podia fazer, mesmo que não estivesse dentro da lei”. Quando o presidente entrava de férias os problemas pioravam, mas nunca se deixou dobrar. Passou a falar directamente com o presidente e só lhe prestava contas a ele.Além do serviço de fiscalização de obras particulares, foi várias vezes solicitado para resolver outras questões, no-meadamente conflitos de extremas entre proprietários. Até a GNR por vezes o chamava para resolver quezílias. Entre as técnicas que utilizava para tentar um entendimento, nunca permitia que as mulheres participassem na discussão. Diz que dessa forma nunca se conseguia chegar a um acordo.Contrariamente, à imagem de marca de certos colegas de profissão, Henrique não enriqueceu como fiscal. A honestidade é, de resto, uma das suas imagens de marca. Quando entrou para a câmara tinha apenas uma bicicleta a pedais e quando saiu, em 2001, andava à mesma em duas rodas sem motor. “Tive o azar de lidar sempre com gente sem dinheiro. Era tudo gente pobre, com dificuldades e se faziam alguma coisa era com as fracas economias, ou com empréstimos dos bancos. Nunca ninguém me tentou aliciar”, garante.

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