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Idosos sem comida nem medicamentos

Idosos sem comida nem medicamentos

Segurança Social encerra lar ilegal em Alvito, Tomar

Há um mês acabaram os medicamentos. Há 15 dias a comida. Porque a situação era de risco para os oito utentes ali instalados, a Segurança Social decidiu encerrar o Lar da Paz, que funcionava ilegalmente em Alvito, perto de Tomar.

Edição de 12.05.2004 | Sociedade
O Centro Distrital de Segurança Social de Santarém (CDSSS) encerrou coercivamente na quarta-feira, dia 12, o Lar da Paz, um estabelecimento situado em Carrascal, Alvito, concelho de Tomar, que funcionava de forma ilegal há dois anos. Os idosos foram colocados à guarda das respectivas famílias.De acordo com Segurança Social, a situação dos oito utentes que ainda se mantinham no lar era de alto risco. O que levou a que a entidade estatal não esperasse pelas burocracias legais necessárias, tendo optado por encerrar primeiro e tratar do processo depois. Dona Rosa, a vizinha do Lar da Paz, foi a salvação dos oito idosos. É ela que lhes faz a comida com mantimentos comprados do seu bolso. Uma situação que dura há 15 dias, desde que a pro-prietária do lar, Arlete Paulino, foi internada no hospital após uma alegada tentativa de suicídio. “Deixei o meu marido e a minha neta em casa para estar aqui 24 horas, porque os pais da dona Arlete me pediram” diz a vizinha.De há um mês para cá são os familiares dos idosos que lhes têm comprado a medicação. Porque a farmácia que fornecia o lar se recusou a enviar mais medicamentos enquanto não lhe pagarem uma dívida que ascende a cerca de mil euros. Os casos mais preocupantes são os da dona Custódia e do senhor Leopoldino, que há cinco dias estão sem tomar os comprimidos para a tensão. “Não temos dinheiro para os comprar e a família também não se interessou”, referiu a única funcionária do lar ainda em funções, Isilda Barros. A situação do Lar da Paz começou a afundar-se em Janeiro deste ano, na mesma altura em que Arlete Paulino se terá desentendido com o companheiro que tratava das finanças da casa e passou ela própria a fazer esse papel.A partir daí o dinheiro começou a faltar todos os meses. Deixou de se pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás e ás funcionárias. Até então, o lar tinha funcionado normalmente, tirando o “pormenor” de não estar legalizado.No início deste ano o lar funcionava com 14 idosos e oito empregadas. Sem receberem no final do mês as empregadas foram-se, ficando apenas Isilda Barros, que trabalha desde então 12 horas por dia, gratuitamente. Algumas famílias foram também apercebendo-se de que a situação não era famosa, acabando por tirar de lá os seus familiares. No dia em que a Segurança Social fechou as portas do Lar da Paz, os oito idosos que restavam foram entregues à guarda de familiares.“Lar sem quaisquer condições”O Centro Distrital de Segurança Social de Santarém (CDSSS) soube da situação do Lar da Paz através de várias denúncias feitas já este ano. Margarida Ponte, técnica dessa entidade, referiu que há já vários meses que a proposta de encerramento do estabelecimento aguarda despacho.Margarida Ponte diz que aquele lar não tinha quaisquer condições para algum dia ser legalizado. “O edifício é completamente inadequado para receber idosos”, diz a técnica, referindo-se às inúmeras barreiras arquitectónicas existentes dentro da casa, ao facto das duas casas de banho serem vulgares, da pequena sala de estar se situar num espaço interior.Nos pequenos quartos, as próprias camas de ferro funcionam como barreiras aos idosos, devido ao espaço exíguo existente entre as quatro camas que cada um comporta. Não havia enfermeiro nem qualquer tipo de cuidados médicos. O logradouro representa vários riscos para os utentes, a começar pelo próprio varadim, metade partido e outra metade em risco iminente de cair. O que devia ser um jardim não é mais do que um amontoado de erva e os velhos baloiços de ferro já devem ter servido de brincadeira a alguma criança mas hoje funcionam como mais um empecilho.Apesar da manifesta falta de condições, os familiares pagavam mensalmente entre 450 e 550 euros.Este foi o primeiro lar a encerrar coercivamente este ano pela Segurança Social. O último fechado foi o de Pontével, em Dezembro de 2003. Margarida Cabeleira
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