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O mais antigo arrumador de Santarém

Jorge já conhece quase todos os “clientes” pelo nome

Começou como arrumador para sustentar o vício da droga. Hoje, recuperado da toxicodependência, permanece na actividade para complementar a parca reforma por invalidez resultante de uma insuficiência renal.

Edição de 12.05.2004 | Sociedade
Jorge, 42 anos, solteiro, é um dos potenciais candidatos às licenças para arrumador de automóveis que a Câmara Municipal de Santarém já está habilitada a emitir. O mais antigo arrumador de Santarém em actividade ainda não se dirigiu aos serviços da autarquia para pedir informações sobre essa possibilidade, embora se mantenha diariamente no seu “posto de trabalho” de há 15 anos, na zona do Largo Mem Ramires.Quando Jorge se iniciou na actividade – para alimentar o “vício da droga” que entretanto abandonou - ainda a cidade não estava minada por essa espécie de praga, que se multiplicou por vários parques de estacionamento da cidade, alguns inclusivamente pagos.Na zona onde permanece todos os dias úteis entre as sete e as dez da manhã já conhece quase todos os condutores pelo nome, ou pelo menos de vista. A maior parte é gente que trabalha no centro histórico de Santarém. Bancários, comerciantes, funcionários de seguradoras, jornalistas. O seu método de “trabalho” difere dos caça-moedas de mau feitio. Não pede gratificação a ninguém. Limita-se a indicar os lugares vagos e espera pacientemente que a sorte lhe proporcione alguns trocos que ajudem a complementar a reforma por invalidez de pouco mais de 150 euros. Uma pensão resultante da insuficiência renal que o obriga a sessões de hemodiálise dia sim, dia não.Antes de se dedicar a arrumar carros, Jorge (que não considera importante divulgar o apelido) andou a abrir valas, tirou a carteira profissional de cabeleireiro de senhoras, trabalhou “num monte de coisas”. Agora falta a licença de arrumador. A sua zona está demarcada por natureza e não tem de se haver com concorrência. Também ali a velhice é um posto. “Derivado a ter uma reforma por invalidez, não sei se posso ficar aqui, mas se pudesse era bom para mim. Sempre eram mais umas coroas. Trinta e quatro contos por mês não é nada para quem tem casa e não pode trabalhar. Já que estraguei tanto, ver se consigo agora juntar alguma coisa”.A sua pose não intimida. É simpático por natureza. Gosta de meter conversa. Nunca faz ar carrancudo quando não lhe dão a moedinha por que aspira e não produz ameaças ou desabafos agressivos. “Toda a gente me conhece e dá-se bem comigo. Já sabem porque é que aqui estou. Não preciso de estar a saturar as pessoas”, diz com um sorriso.O mesmo já não se pode dizer de alguns colegas que exercem a actividade pontualmente noutros pontos da cidade.João Calhaz

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