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Tejo abaixo em busca de uma vida melhor

Tejo abaixo em busca de uma vida melhor

Colónia do Chouto, Chamusca, fixou-se há décadas nos arredores do Carregado

Na década de 60, mais de meia centena de naturais do Chouto partiu em busca de uma vida melhor na cintura industrial de Lisboa. O MIRANTE foi partilhar uma tarde de convívio com a comunidade radicada em Casais da Marmeleira, perto do Carregado.

Edição de 12.05.2004 | Sociedade
Quando se pergunta porque deixaram a Chamusca, a resposta é unânime: “Viemos à procura de uma vida melhor e de um futuro melhor para os nossos filhos”. São mais de meia centena os naturais do concelho da Chamusca que trocaram a tranquilidade do campo pela ambição de uma vida melhor na cintura industrial de Lisboa.O MIRANTE passou a tarde de sábado com uma dezena de migrantes, que, na sua maioria, há mais de 20 anos deixou a sua terra (a maioria é da freguesia do Chouto), e instalou-se na pequena localidade de Casais da Marmeleira, próximo do Carregado, concelho de Alenquer. Apesar da proximidade ao bulício citadino e às fábricas que ali laboram, ali ainda cheira a campo e toda a gente se conhece. Nos Casais há algumas semelhanças com o Chouto. “Não perdemos o orgulho de ser choutenses”, explica Domingos Duarte. Este bancário aposentado deixou o Chouto há 44 anos, primeiro para viver em Vila Franca de Xira onde trabalhou como empregado de mesa antes de embarcar para a guerra em Angola (1963/65). Há 11 anos, o quadro do Banco Espírito Santo fixou-se nos Casais da Marmeleira onde o colega de carteira na escola primária, António Alves Júlio, o aconselhou a comprar casa.António, 62 anos, é o animador do grupo. Tem um sorriso permanente e de tudo faz uma graça, por vezes com muito picante. “Não tem vergonha nenhuma”, diz prazenteira Maria Luísa Carvalho. A idosa, viúva do segundo casamento, despe-se de preconceitos e conta sem receios que Francisco Brás, um galã hoje com 74 anos, foi o seu primeiro namoro. “Andávamos no campo e o atrevido arrastou-me a asa”, explica. Já lá vão quase 60 anos.O destino não os quis unir para o matrimónio, mas aproximou-os como vizinhos. Maria Luísa conta que andava na apanha da azeitona e, há 27 anos, veio pelo Tejo abaixo à procura de trabalho. Apaixonou-se pelo capataz Salvador e resolveram ficar a viver nos Casais da Marmeleira.O Ti Chico, como carinhosamente o tratam, era uma homem com muita saída. O seu ar elegante e a sua veia poética contribuíram para o sucesso junto das raparigas.Ainda hoje, quando faz uma pausa no trabalho de jardinagem na fábrica Manuel da Graça, arranja um verso com facilidade. “Passei muita miséria, mas havia sempre alegria no campo e gostava muito de dizer versos e cantar”, conta.Apesar da insistência, o Ti Chico não nos contempla com uma quadra para amostra. Francisco Brás confessa ter saudades do Chouto, mas ironiza: “Estou muito bem aqui e tenho a adega mesmo ao pé”. No grupo, há uma particularidade: todos gostam de vinho. “Quando viemos para cá, havia falta de água e bebíamos vinho”, justifica Joaquim Luís, um dos mais novos do grupo. Joaquim não se arrepende de ter deixado o Chouto e, tal como os conterrâneos, salienta que “a maior vantagem” foi ter conseguido dar formação superior às filhas para que tenham uma vida melhor. “Se ficasse lá não teria conseguido”, diz.Depois das oito horas de trabalho na fábrica Atral Cipan, o operário faz biscates de pintura para aumentar o seu rendimento familiar.Canas Ferreira, 36 anos, é o mais jovem do grupo e vive há 11 anos no Carregado. Mas não dispensa visitas periódicas aos Casais da Marmeleira. O agente principal da PSP elege como principais características dos choutenses a “honestidade” e a “hospitalidade”. “Se uma pessoa disser que é do Chouto tem crédito em todo o lado e se você lá for abrem-lhe a porta de casa e recebem-mo muito bem”, explica. Se dúvidas existissem, a nossa reportagem dissipou-as. Minutos depois de conhecer o repórter, o anfitrião Domingos Duarte, e a sua esposa, Maria Canavilhas, já estavam a mostrar a casa e não deixaram sair o grupo sem provar um petisco improvisado e regado por um copo tinto.Nelson Silva Lopes
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