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A morte passou-lhe ao lado

Presidente da Câmara de Azambuja recorda a feira de outros tempos
Edição de 19.05.2004 | Cultura e Lazer
Joaquim Ramos tinha apenas oito anos quando assistiu à espera de toiros debruçado na janela da Casa dos Abreus, onde é hoje o seu gabinete na Câmara de Azambuja. Acompanhado da mãe, o jovem autarca viveu naquele ano, durante a Feira de Maio, um dos momentos mais marcantes da sua vida.“Um homem que vinha a fugir do toiro formou um salto e agarrou-se ao parapeito da janela. Eu e a minha mãe ainda o tentamos puxar, mas não conseguimos. O touro atingia-o nas pernas e o homem acabou por morrer-nos nas mãos. Foi um dia que nunca esqueci”, recorda o actual presidente da Câmara Municipal de Azambuja.Naqueles tempos, em que as tranqueiras, hoje de madeira, eram feitas de varas de eucalipto, o futuro autarca experimentou muitas vezes o perigo durante as largadas, o ponto mais esperado da feira.Aos 17 anos, a morte passou-lhe mesmo ao lado. No Largo do Município aguardava a largada de toiros com um grupo de amigos. Na altura, o edifício da câmara não era protegido com tranqueiras e o toiro decidiu investir contra os jovens. “Nós fugimos e o toiro rebentou a porta de entrada da câmara. Lembro-me de ter levado uma cornada que me fez saltar para o primeiro patamar. Foi a minha sorte”, conta.Aos 53 anos, Joaquim Ramos recorda com nostalgia os festejos que acompanhou desde muito cedo na terra onde nasceu e onde viveu até aos 18 anos, pouco antes de partir para a universidade, em Lisboa. A Feira de Maio era feita no Campo do Ribeiro, onde actualmente está a nova rotunda.“Recordo a excitação que era, para os miúdos, ver a colocação das primeiras tranqueiras, a antevisão do que seriam as largadas de touros. E lembro-me de uma prática que hoje não existe. Pegávamos o toiro para o levar dentro da jaula que estava na camioneta, junto da Praça do Município”.A tradicional barraca da sopa dos pobres, que assentava arraiais no recinto da feira, era um dos pontos de paragem de Joaquim Ramos. Na cabana improvisada de madeira e caniço serviam-se refeições e ouviam-se fados na Feira de Maio. As receitas revertiam para os mais necessitados.Os carrosséis, o circo e os cavalinhos de lata que se vendiam na feira ainda fazem parte do imaginário infantil de Joaquim Ramos. “Tenho tudo muito presente na minha memória e, talvez por isso perceba porque é que a Feira de Maio diz tanto às pessoas de Azambuja. Não é um simples momento lúdico do concelho, nem uma feira montada para mostrar aos forasteiros. É um pouco o espaço de tempo em que os habitantes de Azambuja se reencontram com o seu passado. Cada habitante de Azambuja tem um papel a desempenhar na Feira de Maio”.Na época ainda não se distribuía sardinha assada na noite de sexta-feira, não se organizavam as tasquinhas das freguesias no Páteo Valverde, ou os espectáculos de sábado à noite, mas o momento continuava a ser genuíno.A largada de toiros era o momento alto. A hora mais ansiada. Quando acabava uma feira ficava a nostalgia, mas logo alguém lembrava que um ano não demora nada a passar.Um amigo de Joaquim Ramos, que não tem muita ligação a Azambuja, espantou-se um dia que na terra natal do autarca, mesmo nos actos mais espontâneos dos populares, estivesse sempre presente a tradição tauromáquica. “Ele passou pelo interior da vila e de repente um miúdo atravessou-se à frente. Parou o carro e buzinou. Enquanto que noutras terras as pessoas responderiam com insultos o miúdo fez-lhe um passo de peito! Acho que isto é bem característico da nossa tradição”, realça o autarca.

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