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Imbatível Manuel Serra D’Aire

Edição de 19.05.2004 | E-mails do outro mundo
Fui a Fátima no 13 de Maio para pagar uma promessa e expiar os meus pecados, que como deves imaginar são muitos. Basta ler estas prosas ímpias. Pedi à Nossa Senhora que livrasse o meu Sporting da descida de divisão e, certamente por intercessão divina, os lagartos até conseguiram acabar em terceiro lugar. Se isso não é milagre, o que é que é? Maior milagre só o do Benfica sagrar-se campeão, porque a taça já lá mora. Mas isso seria pedir muito. Mesmo os entes sagrados têm as suas limitações. Tornar os lampiões campeões ou levar os políticos a cumprirem as suas promessas são desígnios inalcançáveis. Não é por acaso que andei dois dias pela Cova de Iria e não vi um único autarca ou deputado da nossa região. Nem lá nem pelo caminho, de mochila do farnel às costas e cajado na mão. E promessas para pagar não lhes faltam, como tu bem sabes.Se nem Nossa Senhora consegue que os políticos da nossa e de outras praças cumpram as suas promessas, que podemos nós fazer? Deixar de votar? Votar em branco? Orar pelo regresso de Salazar? Pedir ao Bush para os internar numa qualquer prisão do Iraque onde possam ser torturados por militares grávidas? Bom, esta última hipótese é melhor ser desde já posta de parte, não vão eles aceitar. Arrebatado Manel, o 13 de Maio refina a minha costela mística. É nessa altura que valorizo a fé. Mas com as novas tecnologias temo pela privacidade das criaturas divinas. Já não basta o perigo para os anjos que representa o meio milhão de caçadores existentes no país que atiram a tudo o que mexe e até aos sinais de trânsito. As câmaras de filmar que vão ser instaladas nas florestas da região, com o intuito de vigiar os fogos florestais, trazem água no bico. Coisas de ateus, certamente. Não bastava a tropa e o pessoal do rendimento mínimo a limpar o mato?É que para além dos casalinhos que podem ser apanhados com a boca na botija em trajes menores atrás de uma moita, como tu avisadamente referiste, qualquer aparição corre o risco de passar a ficar registada para a posteridade. Seja num pinheiro, num eucalipto ou numa azinheira. Os locais de culto poderão multiplicar-se descontroladamente e o culto, mariano ou outro, banalizar-se. Se agora já existem menções a aparições em Fátima, em Asseiceira, na Ladeira do Pinheiro e na Nazaré – só para falar aqui nas redondezas – imagina o que vai ser daqui para a frente. Chouto, Gaviãozinho, Murta ou Casalinho arriscam-se a tornar-se locais de peregrinação, de romaria, com lojas dos trezentos a venderem imagens sagradas e outros recuerdos. Qualquer bosque fica ameaçado pela construção de mais uma grandiosa basílica e por chusmas de pedintes. E não estamos livres de nos aparecer outra Santa da Ladeira... Há que ter isto em conta, meu caro! Quem te avisa teu amigo é!Estes são riscos perfeitamente evitáveis, ao contrário, por exemplo, dos livros publicados pelos nossos autarcas ou das bichas nos correios ou à porta das finanças. Por isso devemos lutar pela preservação dos entes sobrenaturais, para que não fiquemos com mais nenhum lince da serra da Malcata entalado na garganta. A nossa floresta não deve ser transformada num enorme Big Brother. Se não queríamos incêndios não nos tivéssemos posto a brincar com o fogo. Não nos bastava inventar a roda, as pontas de silex ou a boneca insuflável? Aceita um abraço quebra-costas à lutador de wrestling do Serafim das Neves

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