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A vida é uma viagem sem rumo certo

A vida é uma viagem sem rumo certo

Alexandre Saldanha da Gama, poeta e artista plástico, cidadão do mundo

Alto e esguio, de barbas e cabelos quase brancos a tocarem os ombros, óculos redondos escondendo os olhos azuis, Alexandre Saldanha da Gama fez da vida o que quis sem a fobia de ganhar dinheiro ou de correr atrás de quimeras consumistas. O artista voltou a Torres Novas com uma exposição de colagens.

Edição de 19.05.2004 | Sociedade
Pinta, desenha, faz colagens, edita livros e “tem a sorte” de vender algumas coisas. “Ajuda sempre, mas não pinto nem escrevo com o fito de vender. Algumas pessoas compram e o dinheiro vai aparecendo”, diz Alexandre Saldanha da Gama abrindo bem os olhos.Nasceu há 71 anos em Torres Novas, perto do rio, no porto das Bonitinhas, hoje desaparecido. Desde os finais dos anos 60 que reside em Bruxelas. Uma viagem que começou aos 16 anos quando trocou Torres Novas por Lisboa.“A vida é sempre uma viagem. Sabe-se de onde se parte e mais ou menos onde se quer ir, mas nunca se sabe exactamente onde se chega. O que conta é a intenção não o resultado”.Em Lisboa, estudou na Escola Marquês de Pombal e trabalhou na Sorefame. Quando chegou à idade de cumprir o serviço militar começava a guerra na Índia e por pouco Saldanha da Gama não foi mandado para as praças portuguesas no continente asiático. “Eu era um cabo miliciano, nada politizado, não sabia nada disso. Só não fui para a Índia porque estava de férias no Algarve”.De férias? “Pois, o comandante da companhia percebeu que eu sabia escrever e um dia pediu-me para o ajudar a fazer um discurso, em troca deu-me férias”.Simples, tão simples como tempos depois se “pirou” para França, agora um pouco mais entendido e voltou para participar no golpe de Beja: “Mas quando cá cheguei já o golpe tinha acabado”. Começou a escrever umas coisas contra o fascismo –“sou um homem de esquerda, mas nunca tive filiação partidária” – e acabou por ser preso pela Pide: “Não fez mal ser preso. Na altura até dava estatuto. Santa cagança! Mas sacaram-me o passaporte”.Sem documentos, continuou a viver na zona de Lisboa. “Nesse tempo tinha uma mota de que as miúdas gostavam muito. Um dia ia de mota com uma amiga e ela disse-me que estava grávida. Tive de fugir com ela porque o pai, que era das beiras, ameaçou vir por aí abaixo e matar-me a mim ou a ela”.Com o passaporte à guarda da Pide, a única solução era passar a fronteira a salto. “Arranjei um passador, mas fui eu que tive de passar os três, a mãe da minha filha, eu e o passador que era sapateiro e estava passado de todo com uma bebedeira”.Atravessou a França e acabou por fixar-se em Bruxelas, capital da Bélgica, com o estatuto de exilado político. “Só voltei a Portugal depois do 25 de Abril e a partir daí venho cá duas vezes por ano.”Nas muitas andanças, Saldanha da Gama ganhava o que precisava para viver na restauração ou nos bares: “É sempre a forma mais fácil”. Também andou embarcado e chegou a ter um bar na Bélgica. Mas “como não podia deixar de ser faliu, pois claro”.Hoje vive do seu trabalho de artista plástico e de escritor e afirma que nunca tem dores de cabeça ou insónias: “Se não tenho sono, começo a escrever, não sei o que são depressões, nunca tomo comprimidos a não ser para o estômago quando me meto nos copos”.O seu ar despreocupado e de bem consigo fazem dele alguém estranho ao mundo atarefado de quem corre para lado nenhum. Agora está em Torres Novas, logo mais partirá para Bruxelas, onde com a calma dos dias continuará a pintar, a desenhar, a fazer colagens e a escrever. “O meu próximo livro chama-se ‘Preocupação dos simples’ e devia ser lançado este mês em Lisboa, mas o editor ainda não me contactou... Vou ter de telefonar-lhe”.Margarida Trincão
A vida é uma viagem sem rumo certo

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