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O culto que a igreja quis silenciar

Asseiceira assinalou os 50 anos da primeira suposta aparição de Nossa Senhora

Muitos dos habitantes de Asseiceira, Rio Maior, continuam a crer que Nossa Senhora apareceu ali várias vezes a um menino chamado Carlos Alberto. Cinquenta anos depois da primeira aparição, o culto mantém-se apesar da rejeição da Igreja Católica. No local pedem-se graças, pagam-se promessas e movimenta-se dinheiro.

Edição de 19.05.2004 | Sociedade
Foi há 50 anos que Nossa Senhora apareceu a uma criança de Asseiceira. Pelo menos é essa a crença popular que se materializa todos os dias na reza do terço no chamado recinto das aparições e que no último fim-de-semana arrastou cerca de duzentas pessoas aquela aldeia do concelho de Rio Maior. Apesar da rejeição da Igreja Católica, que em tempos chegou a excomungar quem frequentasse o local.A maior parte dos devotos são oriundos do concelho de Rio Maior, mas a fama de Nossa Senhora do Rosário de Asseiceira também chega a outras paragens. Joaquina Raquel Alcobia, 62 anos, vem de Alcochete vender produtos hortícolas ao mercado de Santana e passa por ali todos os domingos para oferecer flores à imagem. É apontada como uma devota modelo. “Até que eu possa virei sempre. Nossa Senhora ajudou-me muito na minha vida”, diz.A romagem atinge o seu ponto alto todos os dias 16 desde há meio século. Embora o culto não tenha conseguido vencer o cerco que lhe foi movido pelas autoridades eclesiásticas, nem conseguido projecção semelhante à de Fátima.Isso é bem patente nas ruas da aldeia em dia alto de peregrinação. Pelas duas da tarde de domingo, 16 de Maio, cinquenta anos após a suposta primeira aparição da Virgem ao vidente Carlos Alberto, o movimento na aldeia é normal. Não há vendedores ambulantes, nem polícia. Nem gente a rastejar pelo chão cumprindo promessas.Junto à “capelinha das aparições” não estão mais de 200 pessoas, na sua maioria já de idade. Algumas queimam velas no crematório instalado no recinto. Mas a maior parte senta-se à sombra do loureiro onde se diz ter aparecido Nossa Senhora, enquanto não começa o terço e a curta procissão que dará três voltas à capelinha. Há quem empunhe velas, terços, crucifixos, comprados numa espécie de loja de apoio ao recinto, onde se podem ainda adquirir retratos do vidente, em criança e em adulto, por um euro ou um livro sobre a sua vida. O negócio parece ir de vento em popa. Mas a maior fonte de receita vem das dádivas em ouro, apesar de as ofertas já terem sido maiores. Um elemento da comissão garante-nos que num cofre-forte de um banco estão guardadas “dezenas de milhares de contos”, sobretudo em ouro. Muita gente ali deixou brincos e anéis a Nossa Senhora “pelo milagre que lhes concedeu”, conforme se regista no Livro das Graças. Gente que veio de vários pontos do país nos tempos áureos do culto – as décadas de cinquenta, sessenta e setenta. Gente que ali deixou vestidos de noiva, fatos de baptismo, fotografias, figuras em cera e até fardas militares para agradecer.“Reza-se aqui como se faz em Fátima”O culto é hoje mantido sobretudo por habitantes da freguesia e de localidades vizinhas. Gente do campo, impregnada de fé. Bons católicos, como se definem, que até rejeitaram o apoio dos ortodoxos da Ladeira do Pinheiro quando estes lhes quiseram dar a mão. “Reza-se aqui como se faz em Fátima. As pessoas que vêm aqui são as que vão à igreja ou a Fátima”, diz um elemento da comissão que acrescenta não entender a posição das autoridades eclesiásticas relativamente ao fenómeno.Ainda hoje a Igreja trata o assunto com pinças. E em tempos chegou a excomungar os devotos de Nossa Senhora de Asseiceira. Não concede credibilidade ao culto ali celebrado. Não participa nas actividades ali desenvolvidas. Mas, paradoxalmente, aceitou integrar os fiéis de Nossa Senhora do Rosário de Asseiceira na Comissão Fabriqueira da Paróquia de Rio Maior. E até admitiu para o seu domínio todo o espaço designado por “recinto das aparições”. Como contrapartida, o compromisso firmado em letra de lei prevê que sejam os católicos de Asseiceira a administrar as dádivas dos fiéis – que para já querem ver aplicadas no arranjo da capelinha e do recinto - e que o culto ali celebrado não seja objecto de “publicidade”. A esperança da hierarquia católica talvez passasse por tentar circunscrever o impacto do fenómeno, reduzi-lo na sua dimensão, já que não foi possível acabar com ele. E a verdade é que os devotos da Nossa Senhora de Asseiceira aceitam falar sem rodeios e com muito orgulho do que ali se passou e continua a passar, mas pedindo sempre para que o seu nome não conste na reportagem. Porque não podem fazer publicidade e não querem desrespeitar o compromisso estabelecido, que é uma espécie de pacto de não-agressão.Mas o presidente da Junta de Asseiceira, o comunista Augusto Figueiredo, diz que, à luz do Direito Canónico, com os 50 anos de culto ininterrupto a Igreja vai ter de rever a sua posição e reconhecer o fenómeno.Com essas condicionantes como pano de fundo, a história continua a repetir-se e a crença passa de pais para filhos. Pouco depois das duas da tarde a imagem sagrada e os pendões que integrarão a procissão saem dos seus depósitos rumo à capelinha. Os fiéis seguem o cortejo entoando cânticos semelhantes aos que se escutam na Cova de Iria. Na letra, a Cova de Iria é substituída por um loureiro. O 13 de Maio é trocado por 16 de Maio. Porque foi a 16 de Maio de 1954 que Carlos Alberto, então aluno da quarta classe da escola primária de Asseiceira, afirmou ter visto Nossa Senhora junto a um loureiro quando estava a rezar. Apresentou-se como “Mãe do Redentor”, quando o jovem se assustou com o “ramalhar” das folhas. A árvore ainda hoje se mantém de pé. Desde aí, a história da vida daquela gente mudou. A prova está lá, todos os dias, mas sobretudo aos dias 16. É ver para crer.A partir daí, até Janeiro de 1955, a criança garantiu que falou todos os dias 16 com Nossa Senhora. Por vezes à frente de milhares de pessoas. Há quem diga que chegaram a juntar-se 50 mil pessoas no local em 16 de Dezembro de 1954. A imprensa da época relata os exames a que o jovem foi submetido em Santarém e Lisboa para averiguar da sua sanidade mental – nada foi diagnosticado de anormal - e faz referência a grandes concentrações de pessoas em busca de um milagre. E ainda hoje são muitos os que dizem ter presenciado acontecimentos sobrenaturais ou assistido a milagres, como o do cego Silvério da Costa que de repente começou a ver.João CalhazIgreja diz que o fenómeno “não merece credibilidade”O fenómeno de Asseiceira nunca foi reconhecido pela hierarquia da Igreja Católica nem existe qualquer hipótese de haver uma mudança de posição nos tempos mais próximos. O vigário geral da Dioceses de Santarém, padre Fernando Campos da Silva, recorda a O MIRANTE que o assunto foi estudado na altura das supostas aparições pelo Patriarcado tendo-se chegado à conclusão que “não merecia credibilidade”.O caso teve um tratamento semelhante ao que foi dado ao da Ladeira do Pinheiro, na Meia Via, Torres Novas, cujo culto acabou por ser assimilado pela Igreja Ortodoxa. Tanto assim é que, ainda hoje, as manifestações religiosas que têm lugar diariamente em Asseiceira acontecem sem a bênção da Igreja Católica. Tal como as procissões que aconteceram sábado e domingo para assinalar os cinquenta anos da primeira aparição. “Essas celebrações são feitas à revelia da Igreja”, confirma o padre Fernando Campos.Uma nota oficiosa da Cúria Patriarcal, publicada nos jornais diários de 7 de Agosto de 1954, explica a posição da Igreja Católica que se manteve até hoje, afirmando “nada existir que confirme ou pareça confirmar a veracidade de tais aparições”.Por isso, as autoridades eclesiásticas recordavam a todos os católicos “a obrigação de evitarem tudo quanto possa concorrer para dar publicidade a acontecimentos que apenas servem para comprometer a verdadeira fé”. E proibiam taxativamente “a todos os sacerdotes que tomem parte em novas reuniões que se anunciam”.Por último, aconselhavam “todas as pessoas de bom senso” a esclarecerem o povo “sobre a necessidade de maior prudência em casos desta natureza” e “sobre a obrigação de impedir o alastramento da credulidade que facilmente degenera em superstição”.

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