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O presidente que apaga fogos

Entre a junta, os bombeiros e a empresa de que é proprietário pouco tempo sobra para a família
Edição de 26.05.2004 | O poder local aqui tão perto
Luís Pires é bombeiro desde os 14 anos e comandante dos Bombeiros Voluntários de Minde há oito anos. Ingressou na corporação por pura curiosidade – queria saber o que é que faziam aqueles homens quando a sirena tocava e eles saíam disparados como se tivessem fogo no rabo. “Isto é um bicho que se entranha de tal maneira que já não se consegue tirá-lo”, admite o presidente da junta, que comanda actualmente 70 bombeiros, homens e mulheres. “É raro o dia em que não vá ao quartel”, Só pensou que iria morrer queimado num incêndio que deflagrou no concelho de Ourém. Ficou cercado pelo fogo mais alguns homens da sua corporação numa altura em que as comunicações estavam cortadas. A salvação na altura foi enfiarem-se dentro do carro com uma mangueira, abrir um bocado o vidro e ir regando o veículo.Mas o incêndio que mais o marcou – “nunca me irei esquecer nem que viva cem anos” – foi o da Chamusca, ocorrido no Verão quente do ano passado. “Foi o pior fogo a que alguma vez fui. Aí tive mesmo medo do «bicho», como lhe chamávamos”.Lembra-se de os bombeiros não conseguirem dar vazão às casas a arder, do fogo estar sempre uns passos à frente. Mas o pior mesmo foi quando alguém lhe disse que tinha ardido um carro da sua corporação e que os homens estavam desaparecidos. “Nesse dia chorei, chorei muito”.Felizmente os homens apareceram no meio do fumo, quais fantasmas. E o carro foi arranjado e já está novamente ao serviço.Luís Pires diz que não precisa de fazer ginástica. Exercício já ele faz muito para poder controlar a junta de freguesia, a corporação de bombeiros e a fábrica de têxteis para o lar de que é proprietário.O lado de empresário vem ao de cima quando critica o facto do industrial minderico nunca ter apostado em feiras internacionais – “Foi ver muita feira mas expor os seus produtos, fazer negócio, isso não”. Ao contrário, Luís Pires sempre fez questão de que a sua firma estivesse presente em feiras nos quatro cantos do mundo. Hoje a crise passa-lhe um pouco ao lado porque a sua principal actividade é a exportação, grande parte para os Estados Unidos.Entre apagar fogos, fazer negócios internacionais e tratar de agradar aos munícipes a família fica sempre com o papel secundário. “A minha família dá-me mais apoio do que eu a eles”.Tenta compensar a mulher e os filhos ao fim de semana, quando rumam todos até Fátima, onde tem uma casa e onde gosta de confraternizar com os amigos. “Para mim descansar é estar com os amigos, beber uns copos, fazer umas patuscadas. Às vezes quando não aparece ninguém sou eu próprio que telefono para eles aparecerem”.Benfiquista sem fundamentalismos, prefere ir assistir a um jogo do clube da terra do que meter-se no meio da multidão no Estádio da Luz. “Aqui, pelo menos, se chamar nomes ao árbitro sei que ele me ouve”.O ano passado conseguiu tirar uma semana de férias, ao fim de oito anos sem as gozar. Geralmente tira dois ou três dias e é quase sempre para ir a feiras e certames. E até nessas alturas já chegou a receber telefonemas a pedirem-lhe para ir apagar um fogo aqui ou ali. Vida de bombeiro é fogo...

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