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Mendicidade compensa

Ronny Mennes é um belga que vive há três meses da caridade alheia, no Entroncamento

Ronny Mennes é um mendigo belga que há três meses “acampou” junto a um centro comercial do Entroncamento. Não tem trabalho mas consegue comprar mimos às crianças e flores às mulheres, com as moedas que diariamente vão caindo na marmita de alumínio à guarda da cadela Maya.

Edição de 26.05.2004 | Sociedade
“Eu gosto do Ronny, ele dá-me autocolantes dos jogadores de futebol”, diz o pequeno Filipe, de seis anos, morador no Entroncamento. A simpatia que a criança tem pelo belga que há três meses “acampou” junto ao centro comercial Euroshopping, naquela cidade, estende-se a todos os que diariamente com ele convivem.São 11 da manhã quando Ronny Mennes chega ao centro comercial Euroshopping, sendo cumprimentado pelos lojistas e clientes que ali se encontram. A cadela Maya, sua companheira, fica lá fora junto a uma das colunas de entrada do edifício, a guardar a mochila de viajante e a marmita de alumínio, onde na passada as pessoas vão deixando cair umas moedas.Lá dentro o belga senta-se na esplanada, sossegado, sem incomodar ninguém. Quando algum lojista lhe pede ajuda para fazer algo avança sem hesitações, recebendo mais algumas moedas. Há dias em que a marmita está praticamente vazia, assim como os seus bolsos. Mas mesmo sem dinheiro, não fica sem almoço. A proprietária do snack bar “A Loba” oferece-lhe a comida.Algumas das empregadas do supermercado Pingo Doce também costumam trazer-lhe alguns “mimos”, quando saem de serviço. Bolachas, leite, sumos, pão.Ronny retribui sempre que pode a solidariedade das pessoas. Compra ovos de chocolate para as crianças, oferece flores e lembranças no dia da mulher ou no dia da mãe. O “bom coração” de Ronny é comentado por todos os que o conhecem. “Há uns tempos, uma romena entrou no centro comercial com um bebé ao colo, a pedir esmola. O Ronny observou a cena, tirou algumas moedas da sua marmita e foi comprar papa para a criança”, diz uma lojista.Ninguém sabe muito bem de onde vem Ronny Mennes, apenas que apareceu o ano passado naquela zona e ficou por ali. “As pessoas são muito simpáticas”, confirma o belga, justificando assim o facto de ter regressado este ano.Sentado na esplanada do centro, Ronny conta ao nosso jornal que passou por Santarém e que chegou há cerca de três meses ao Entroncamento. Andou mais de dois mil quilómetros a pé, porque em Espanha as autoridades não deixam a sua cadela viajar em transportes públicos. Questiona-se porque é que um homem de 43 anos vive da mendicidade. Ronny diz ser doente e não gostar de estar muito tempo no mesmo sítio. Na Bélgica chegou a trabalhar numa fábrica de cerveja mas foi sol de pouca dura. Fala que, em França, a polícia lhe bateu e lhe abriu a cabeça e refere não ter medo da polícia portuguesa.Da sua vida pessoal pouco se sabe. Quando está no Entroncamento vive numa casa velha, situada entre o parque do Bonito e a aldeia de Atalaia, com um casal (ele alemão, ela espanhola) que, segundo diz, tiram fotografias a aves na Reserva do Boquilobo.É um mendigo fora do comum. Toma banho nos balneários camarários do Bonito, traz a barba desfeita e a roupa lavada. “Ele nunca pede dinheiro”, dizem os lojistas. Apesar do pequeno cartão com os dizeres – “Por favor, para comer. Obrigado” estar diariamente plantado à porta do centro, junto à cadela Maya e à marmita de alumínio.“É um homem bom, justo e respeitoso, quase como da família”, rematam as pessoas que diariamente convivem com Ronny Mennes.

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