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Sobra em garra o que falta em centímetros

Sobra em garra o que falta em centímetros

Maria Rosa Lourenço, uma das mulheres mais baixas de Portugal

Até há pouco tempo Maria Rosa Lourenço lavava roupa no tanque, limpava o pó dos móveis, cozinhava. Nada demais se não medisse apenas 76 centímetros de altura.

Edição de 26.05.2004 | Sociedade
Uma doença congénita, devido ao facto dos pais serem primos em primeiro grau, fez com que Maria Rosa Freitas Lourenço crescesse apenas até aos 76 centímetros de altura. O facto de ser anã não a impediu de levar uma vida quase normal. Sempre se desenrascou a fazer a lida de casa, a cozinhar, a lavar roupa no tanque.“Subia para um banco e se fosse preciso para outro, até ter altura suficiente para poder fazer as coisas”, diz Rosita, assim tratada carinhosamente pelos habitantes da pequena aldeia da Torre, concelho de Tomar.Quem entrar em casa de Maria Rosa nunca imaginaria que ali vive uma anã com apenas 76 centímetros. As cadeiras, a mesa, a cama, o lava-loiça, as peças da casa de banho têm o tamanho normal. Normal como a vida que Maria Rosa sempre quis levar.Filha mais nova de cinco irmãos, Maria Rosa Lourenço foi a única a nascer com problemas. Mas com uma força de vontade de ferro, que só não a levou mais longe porque a mãe, hoje com 81 anos, a superprotegeu. Na altura de ingressar na escola a progenitora foi ter com o delegado de saúde pedindo-lhe para a filha ficar em casa. A escola ainda ficava longe, os transportes eram poucos e a mãe, trabalhadora no campo, não tinha vida para a ir pôr e buscar todos os dias.“Ele fez-lhe a vontade e passou um atestado em como eu não podia frequentar a escola, o que me deixou muito triste”. Ao fim de um ano a escola foi para obras e as aulas mudaram provisoriamente para um edifício mais próximo de casa. Uma mudança vista por Maria Rosa como uma oportunidade caída do céu. Pediu à irmã, nessa altura aluna da quarta classe, que intercedesse junto da professora para ir ver pelo menos os meninos a estudar. No final do seu primeiro dia “de aulas”, a professora disse-lhe que poderia ir no dia seguinte. Foi assim todos os dias, até final do ano lectivo. Por pressão da professora, a mãe acabou por matriculá-la no ano seguinte e Maria Rosa revelou-se uma excelente aluna. Ainda hoje os seus pequenos dedos escrevem uma letra bonita e redonda. Passou no exame da quarta classe com distinção, mas a sua aventura escolar acabou aí. “Estudar em Tomar era impensável para a minha mãe”, diz. Apesar de sempre ter ido à cidade, às compras, ao banco. Com companhia, claro. Sozinha nunca conseguiria. Porque Tomar, tal como o resto do país, não tem estruturas apropria-das para minorias, como os anões. É por isso que Rosa nunca foi ao cinema, levantou dinheiro do multibanco ou despejou um saco do lixo no contentor. Andar de transportes públicos também seria impensável. A autonomia de Rosa perde-se assim que sai de casa.Na sala de estar da sua irmã, sentada num banquinho azul de plástico, Maria Rosa vai desfiando o novelo da sua vida. Mais que as palavras, ou que o gesticular das mãos são os grandes olhos que melhor transmitem a força e a garra de quem nunca se viu como uma coitadinha.Tomou conta da Tânia, a sobrinha que conta hoje 27 anos, até aos quatro anos de idade, enquanto a irmã ia trabalhar. Hoje Maria Rosa Lourenço deixou definitivamente a lida da casa. A idade não perdoa e os 48 anos pesam-lhe cada vez mais, dificultando-lhe a agilidade e tornando-a agora dependente da sobrinha que ajudou a crescer.As forças perderam-se à medida que as dificuldades respiratórias aumentavam. Em Novembro, foi mesmo obrigada a ficar internada no hospital. Desde essa altura, pouco faz. O simples acto de andar torna-se muitas vezes um martírio. Foi por isso que a família lhe comprou uma cadeira de rodas. Para que possa sair ou simplesmente deslocar-se ao médico.E é precisamente no centro de saúde que Maria Rosa encontra agora as maio-res barreiras arquitectónicas. Subir as escadas até ao primeiro andar, onde está o consultório do seu médico, torna-se cada vez mais penoso.Margarida Cabeleira
Sobra em garra o que falta em centímetros

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