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A terra das três mentiras

Vila Nova da Rainha é um dos motores do desenvolvimento regional

A freguesia de Vila Nova da Rainha, Azambuja, é um dos grandes motores de desenvolvimento regional. Concentra indústrias e armazéns logísticos de alguns dos maiores grupos económicos. Mas continuam a falhar os cuidados de saúde e o saneamento básico.

Edição de 07.07.2004 | O poder local aqui tão perto
Até há poucos anos Vila Nova da Rainha, freguesia do concelho de Azambuja, era conhecida como a terra das três mentiras. Dizia o povo que não era vila, tão pouco nova e muito menos propriedade de uma rainha. Há três anos a terra reconquistou novamente o estatuto de vila e renovou-se. Depois de alguma pesquisa na Torre do Tombo chegou-se à conclusão de que a ligação à corte também faria sentido, uma vez que no local se celebrou o casamento de D. Nuno Álvares Pereira e D. Leonor de Alvim.O título que levou a terra a ser conhecida em toda a região sempre desagradou à maioria dos naturais. “Chegava a ser motivo de alguma fricção”, recorda o presidente da junta de freguesia, Joaquim Borda d’Água.Vila Nova da Rainha, que foi noutros tempos lugar de estada de reis, é hoje um motor do desenvolvimento regional, concentrando na zona industrial do concelho de Azambuja várias indústrias e armazéns logísticos de grandes grupos económicos. A falta de emprego é problema que não afecta a população da terra, que ronda os 1200 habitantes. A junta de freguesia tem boas relações com as administrações das empresas, que muitas vezes recorrem à autarquia local à procura de trabalhadores. “Através da boa relação que temos com os grupos já conseguimos oportunidades para o primeiro emprego de muitos jovens”, elucida Joaquim Borda d’Água.Todos os dias muitos naturais de Vila Nova da Rainha deslocam-se para locais de trabalho fora da freguesia. A viagem até à capital é um dos destinos mais concorridos. O apeadeiro existente facilita a vida a quem tem que se deslocar diariamente para Lisboa.As boas acessibilidades são um dos pontos fortes da freguesia. Além do caminho de ferro, Vila Nova da Rainha está apenas a três quilómetros do nó de acesso do Carregado à A1.Mas os acessos são ao mesmo tempo uma das grandes preocupações da freguesia. A Estrada Nacional 3, que divide ao meio a população, regista um intenso tráfego com centenas de automóveis e veículos pesados a passar ali diariamente.“Quase todos os dias são ceifadas vidas neste troço da Nacional 3. As entidades que têm competência para resolver este problema ainda nada fizeram”, critica o autarca.Os semáforos em frente à estrada que dá para o caminho-de-ferro e a construção de uma passagem subterrânea sob a ponte do Rio Ota ajudaram a diminuir o número de vidas perdidas, mas o problema só ficará definitivamente resolvido com a construção de uma variante.O berço da aviaçãoQuem percorre a Estrada Nacional 3 entre Azambuja e Vila Nova da Rainha pode ainda avistar, ao lado esquerdo, o edifício que em 1916 acolheu a primeira escola aeronáutica militar portuguesa. O primeiro curso de formação de pilotos iniciou-se a 16 de Outubro e teve como instrutores Sacadura Cabral e Gago Coutinho. Formandos e instrutores tinham o Tejo como vizinho e utilizavam-no como plataforma para as aulas de hidroavião. O próprio caminho-de-ferro tinha um cais privativo para desembarque de materiais.A escola de pilotos transferiu-se depois para Alverca, mas Vila Nova da Rainha orgulha-se de ter ficado na história como o berço da aviação portuguesa. Hoje o antigo edifício é utilizado como dormitório dos empregados da herdade, mas Joaquim Borda d’Água ainda não perdeu a esperança de o transformar em museu.Apesar de ser um dos grandes motores do progresso da região, Vila Nova da Rainha ainda está longe de reunir alguns requisitos mínimos. Há três anos que a população está sem médico. No edifício da junta de freguesia resta aos utentes medir a tensão arterial numa pequena máquina automática.É o tesoureiro da junta de freguesia que faz o transporte dos doentes alguns dias por semana até ao centro de saúde, na sede de concelho, a cerca de seis quilómetros. Quando é preciso também se trazem receitas que os utentes levantam depois na junta.O sistema de tratamento de esgotos funciona apenas a meio gás. A Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) foi ligada há cerca de dois meses, mas o sistema ainda não recebe metade dos resíduos. Falta ainda ligar à ETAR à parte sul da freguesia, separada pela estrada nacional. Até lá o Rio Ota continuará poluído. Em Agosto deverão arrancar as obras de remodelação do sistema de abastecimento de águas e construção de um novo depósito de abastecimento. Um projecto no valor de um milhão de euros que permitirá substituir os tubos de amianto, um material perigoso que continua a permanecer no subsolo.O comércio da terra resume-se a uma agência bancária, alguns minimercados e outros tantos restaurantes. A vila tem centro de dia, pré-escola e uma escola do primeiro ciclo, que apesar de antiga tem boas condições. Uma das salas já fechou, mas a avaliar pelo número de inscrições no ensino pré-escolar para o ano o espaço voltará a ser necessário.As escolinhas de futsal do União Desportiva e Recreio de Vila Nova da Rainha ocupam muitos dos jovens da freguesia a partir dos três anos. Só o rancho folclórico foi obrigado a entregar há dias as chaves do edifício por falta de componentes.Resta o Grupo Columbófilo Vilanovense, o Clube de Caçadores e o Grupo de Dadores de Sangue. Para rentabilizar os escassos recursos humanos das últimas colectividades da vila há um projecto para unir os vários grupos numa só associação. Os 248 novos fogos do bairro da cooperativa Socasa, que está a ser construído na vila, são a grande esperança para impulsionar a freguesia e ajudar a fixar os jovens casais, que até há pouco tempo não tinham qualquer oferta de habitação à disposição.Ana Santiago

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