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O tempo em que levava o pão aos gaibéus

José Onofre transportava 30 pães de quilo de bicicleta
Edição de 07.07.2004 | O poder local aqui tão perto
Aos 12 anos José Rodrigues Onofre, hoje com 74, começou a trabalhar na padaria e mercearia da família, em Vila Nova da Rainha, Azambuja. Na altura existiam na aldeia meia dúzia de casas e dois estabelecimentos comerciais.Depois de concluir a quarta classe o jovem ainda fez a admissão ao liceu, ávido de seguir os estudos, mas o pai ofereceu-lhe uma bicicleta para tentar cativar José Onofre para a vida de comerciante.A sua jornada de trabalho começava à meia-noite a amassar e cozer pão até de madrugada. Durante o dia trabalhava na loja a aviar sacos de papel bem medidos de farinha, feijão e massa. Aprendeu a arte de amassar e fornear. Nos intervalos dormia com os empregados sobre os tabuleiros à espera que o pão cozesse nos fornos que ardiam com rama de pinheiro.Em Janeiro, quando começavam a chegar aos campos os gaibéus, o jovem ia entregar o pão de bicicleta aos homens da Beira Baixa que vinham trabalhar para a lezíria durante as mondas do arroz. Os grandes ranchos de trabalhadores, que ali permaneciam até Outubro, chegavam a atingir um milhar de pessoas. Por volta das quatro da madrugada o jovem José carregava 30 pães de quilo nos dois sacos de pano, tipo alforge, que levava ao ombro e encetava a viagem de bicicleta até ao local onde ainda dormiam sobre as esteiras os trabalhadores. Pedalava até onde conseguia. Às vezes a lama prendia as rodas e largava a bicicleta para correr até aos campos. De acordo com o pedido feito na véspera – pão grosso ou pão fino - assim José Onofre ia distribuindo a encomenda pelas arcas de madeira. E era assim desde os arrozais da Vala do Carregado até ao Espadanal de Azambuja. Quando o sol nascia já estavam servidos quatro ou cinco ranchos.O comércio da família também servia as gentes que trabalhavam nas charnecas. José Onofre levava-lhes sacos de massa e toucinho do Montijo que estrugiam com papas de milho.Muitas vezes era também o fateiro que se deslocava até à vila para fazer as encomendas. Os pedidos eram aviados e depois fazia-se a entrega nos campos. Só ao fim de semana os jornaleiros visitavam a vila. Durante a semana trabalhava-se de sol a sol.José Onofre nasceu numa aldeia dos arredores de Estarreja, Aveiro, mas veio para Vila Nova da Rainha com cinco anos. Foi comerciante até aos 66 anos. Afeiçoou-se à terra e ocupa hoje o cargo de presidente da assembleia de freguesia. Dedica-se à agricultura, mas conserva com ternura as recordações das gentes da lezíria. Recorda a genica com que dançavam sobre a ponte do rio Ota depois de uma dura jornada de trabalho ao som de pífaros e gaita de beiços. “A vida do campo é a mais ruim, mas é também a mais alegre. Está-se sujeito ao sol e à chuva, mas cada um diz o que quer”.

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