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Lutar por uma vida nova de forquilha na mão

Programa de ocupação para desempregados, na Chamusca, é também uma oportunidade de inserção social

Carlos Luz luta para se desligar de vez do vício da droga. O trabalho é uma terapia que tem dado resultado. O ex-sargento da Força Aérea é uma das 40 pessoas carenciadas que participam num programa de prevenção contra os fogos no concelho da Chamusca.

Edição de 07.07.2004 | Sociedade
Aos 40 anos Carlos Luz agarrou uma oportunidade de refazer a vida depois de ter batido no fundo da degradação física e moral. Roubou, enganou, usou todas as artimanhas para conseguir dinheiro para a droga. Agora está a trabalhar através de um programa de ocupação do concelho da Chamusca, criado no âmbito da prevenção contra os fogos florestais. Carlos Luz é uma das 40 pessoas participantes no programa. Até Setembro vai andar de enxada na mão a limpar caminhos, espaços públicos e orlas florestais na freguesia de Pinheiro Grande. Ganha cerca de 400 euros por mês. Mas não é o dinheiro que o motiva. É sim a oportunidade que tem de se inserir na sociedade. De encontrar um porto seguro para começar tudo do zero. Tinha uma vida invejável quando começou a consumir heroína aos 26 anos. Era mecânico de aviões do quadro permanente da Força Aérea, com a patente de primeiro-sargento. Na garagem de casa havia dois carros. Não tinha problemas financeiros. Tudo acabou por desabar ao longo de dez anos de toxicodependência. Com os primeiros sinais, começaram também a aparecer os problemas no trabalho. Acabou por ser convidado a sair, mas teve a sorte da Força Aérea o ter reformado por doença. Todos os meses recebe 375 euros, dos quais um terço é descontado para a pensão de alimentos da filha, que tinha 15 dias de vida quando Carlos entrou no mundo da droga.Reencontrou a filha, já ela tinha 14 anos, quando foi internado no Hospital de Santa Maria devido a uma infecção na coluna vertebral. Carlos Luz, que nasceu em Torres Novas e viveu alguns anos no Entroncamento, tem consciência que este programa é a primeira oportunidade que tem para emendar a vida e inserir-se na sociedade. Sem drogas e sem álcool. E quer fazê-lo pela filha. Já comprou um carro em segunda mão para ir visitar a filha à Lourinhã. “Gostava de ser um pai mais presente, mais próximo. Quero ter uma vida com mais dignidade e com honestidade. Valores que fui perdendo ao longo do tempo em que andei na droga”, reconhece o ex-toxicodependente que está em recuperação na Associação Nova Fronteira, na Chamusca, há 20 meses. De pele tisnada, com algumas rugas, olhos meio fechados, Carlos Luz não tem pudor em falar dos erros que cometeu. Como daquela vez em que assaltou um supermercado. Foi condenado em tribunal a pagar uma multa de 450 euros. A pena foi substituída por trabalho a favor da comunidade. Cumpriu 80 horas ao serviço da Junta de Freguesia de Pinheiro Grande. Pintou as papeleiras e os bancos do jardim. E a partir daí teve a consciência que a sua vida podia mudar se conseguisse arranjar emprego.“Roubamos tudo e todos”, recorda enquanto rega uma oliveira na Estrada Nacional 118 que atravessa a localidade. Mas reconhece que “não adianta chorar sob o leite derramado. Eu sei que fiz asneira”. Garante que agora não consome nem drogas nem álcool. Nunca mais bebeu uma cerveja porque, diz, depois do primeiro copo não sabe parar. Carlos Luz já conseguiu arranjar amigos na localidade. Só lhe falta arranjar um emprego estável, havendo algumas perspectivas nesse sentido. Das suas palavras adivinha-se que tem uma vontade de ferro em pôr o passado para trás das costas. “Ando sete horas por dia agarrado a uma forquilha. Se para recomeçar a vida tenho que passar por isto, então passarei com muito gosto”, sublinha. Como recomendação a outras pessoas, o ex-toxicodependente diz que todos os que estão em dificuldade deviam aproveitar oportunidades como estas. O programa de ocupação começou no dia 24 de Maio e decorre nas freguesias de Carregueira, Chamusca, Chouto, Parreira, Pinheiro Grande, Ulme e Vale de Cavalos. As freguesias de Carregueira e Chamusca são as que têm mais pessoas, respectivamente 11 e 13. Ulme só tem uma pessoa no programa. Parreira e Pinheiro grande têm quatro e o Chouto 3.

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