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Nudez causa polémica em Vila Franca

Populares divididos com o monumento de Alves Redol

O monumento que perpetua a memória de Alves Redol está a gerar polémica em Vila Franca. Autarcas e populares não aceitam a nudez do escritor e há quem defenda a retirada da estátua concebida por Lagoa Henriques. A família considera uma obra de arte que retrata a força de Redol.

Edição de 07.07.2004 | Sociedade
O monumento de homenagem ao escritor Alves Redol, erigido em frente ao edifício com o seu nome, em Vila Franca de Xira, está a dividir a população e os autarcas. Alguns não gostaram de ver o escritor neo-realista “tal como veio ao mundo”.O Mestre Lagoa Henriques, autor da obra, colocou Redol a olhar o horizonte, sentado sobre pedras, com uma pose elegante. O escultor inspirou-se nos momentos em que observou o escritor vilafranquense sentado nas rochas da costa da Nazaré. A boina que caracterizou Redol está colocada na cabeça e há um livro sobre a perna esquerda.A nudez simboliza a força do homem que o autor conheceu de perto, mas a opção não agradou a todos. A família de Alves Redol considera uma obra de arte de excelente qualidade, agradeceu a homenagem e louvou a iniciativa da empresa Plana SA que assumiu os custos da obra.O presidente da junta de freguesia é uma das vozes críticas. “Não consigo ver Alves Redol naquela figura”, disse. José Fidalgo Gonçalves (PS) salvaguardou que, nas questões estéticas, os gostos não se discutem, mas não evitou a apreciação. “Trata-se de perceber a simbologia daqueles elementos, que podem ou não representar a figura de Alves Redol”, argumentou. O autarca lamentou que a junta de freguesia não tenha sido consultada sobre as características da obra. Na última assembleia de freguesia, Jorge Pereira da CDU disse que a assembleia devia tomar uma posição no sentido de não querer a estátua naquele local. O autarca afirmou que a monumento “não simboliza minimamente quem foi Alves Redol” e não dignifica a cidade. “É de um desprezo total por um escritor vilafranquense”.O MIRANTE visitou o espaço envolvente do monumento, muito apreciado durante as festas do Colete Encarnado, e também ouviu opiniões divididas. “O Alves Redol era um homem muito querido desta terra e respeitado. O escritor merecia mais dignidade nesta homenagem. Não tem jeito nenhum estar nestes propósitos”, disse Maria da Luz Vicente, uma vilafranquense radicada em França que regressou à sua terra para assistir ao Colete Encarnado. Ao seu lado, Ildefonso Barreiros aplaude a obra. O idoso garantiu que conheceu Alves Redol e que a escultura retrata de forma fidedigna a sua postura. “Ele era um homem pequeno, mas com porte atlético e uma enorme coragem e força”, referiu.Na Assembleia de Freguesia de Vila Franca de Xira, alguns autarcas referiram-se à ausência de elementos que expliquem a nudez do escritor, ao mau enquadramento geral da obra e às características da boina. “Nem ser sequer é a tradicional boina catalã que Alves Redol usava”, defendeu Jorge Pereira (CDU). Família de Redol está orgulhosa A família do escritor ficou radiante com o trabalho do mestre Lagoa Henriques. António Redol, filho de Alves Redol classificou a peça como “excelente”. “É uma obra de arte que nos orgulha a todos”, disse. O herdeiro de Alves Redol explicou a O MIRANTE que a família foi acompanhando a evolução da peça, incluindo a sua mãe, que entretanto faleceu. “Achámos que a escultura teria mais força nua. Vestida ficaria menos interessante”, disse.Segundo António Redol, o escultor apresentou um esboço vestido e outro nu, mas todos gostaram mais do nu. A ideia foi aplaudida também pela empresa que financiou na íntegra a escultura e pela presidente da câmara. O filho de Alves Redol louvou a ideia da empresa e desafiou outras construtoras a seguirem-lhe o exemplo recuperando uma prática de apoio à promoção e divulgação da cultura. O monumento colocado na praceta do edifício Alves Redol foi integrado no processo de construção dum prédio com sete pisos, mesmo no centro da cidade. A empresa promotora e a câmara municipal acordaram a localização da estátua.Nelson Silva Lopes

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