uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
31 anos do jornal o Mirante
Um cenário vergonhoso

Um cenário vergonhoso

Cinquenta e cinco aldeias de Torres Novas ainda não têm saneamento básico

No concelho de Torres Novas ainda há esgotos a correr livremente para ribeiras sem qualquer tratamento e fossas despejadas para terrenos. A população de muitas aldeias, além de não ter saneamento básico, ainda tem de pagar para ver as suas fossas limpas. Uma dupla factura.

Edição de 13.07.2004 | Sociedade
Freguesias inteiras e dezenas de aldeias sem saneamento básico, colectores a escoarem os esgotos directamente para os ribeiros, fossas sépticas colectivas a transbordar e particulares a pagarem custos elevados para limpar as suas fossas é o panorama negro do concelho de Torres Novas no que diz respeito ao saneamento básico. Cinquenta e cinco das 75 aldeias não têm rede de esgotos. É verdade que das 17 freguesias, apenas duas não têm saneamento em nenhuma das aldeias que as constituem – Paço e Parceiros da Igreja -, mas somente outras duas – Lapas e, recentemente São Pedro - têm cobertura total e tratamento de efluentes.Os serviços camarários dispõem de uma cisterna para despejar as fossas particulares mediante um pagamento de 6,48 euros para o primeiro depósito e 4,49 euros nos seguintes, mas outras entidades e privados também têm depósitos que alugam para despejar as fossas. Nesses casos, os efluentes são descarregados em qualquer sítio. Na grande maioria das situações os efluentes não chegam às estações de tratamento, nem através dos colectores.A Cooperativa Agrícola de Torres Novas e Barquinha é solicitada frequentemente para este tipo de trabalho e os munícipes pagam 20 euros à hora, mais 25 cêntimos por quilómetro. Mas há cerca de dois anos os responsáveis pela estação de tratamento de águas residuais (ETAR) da cidade proibiram que esses efluentes fossem descarregados ali para tratamento. A partir daí a cooperativa só aceita executar este trabalho se os munícipes tiveram terrenos onde os dejectos possam ser despejados. “Não podemos descarregar nos rios nem perto de casas, tem de ser nos campos, por isso é que o trabalho diminui. Houve alturas em que andava dias inteiros nesse serviço”, adianta António Rodrigues, funcionário da cooperativa.O vereador da Câmara de Torres Novas, Mário Mota (PS), esclarece que os efluentes podem ser descarregados desde que se peça autorização. Isto para impedir que sejam despejados nas ETAR produtos não passíveis de serem tratados naqueles equipamentos.António Rodrigues adianta que a proibição surgiu quando tentou despejar uma cisterna com águas residuais de uma lavagem automática de automóveis. “Estive lá não sei quantas horas e depois disseram-me que não podia despejar. Deixámos de fazer esse trabalho e só limpamos as fossas fora da cidade desde que haja terrenos”.Um problema de saúde pública do qual a câmara tem conhecimento e não existe nenhum regulamento, para além da lei geral, que sancione este tipo de infracções. Por outro lado, ao contrário do que acontece noutras autarquias, a Câmara de Torres Novas não tem nenhuma solução para resolver o problema das populações que não têm saneamento básico, para além de alugar o limpa-fossas.A própria câmara é responsável pela poluição de diversos cursos de água próximos das aldeias que dispõem de canalizações instaladas e ligadas a desaguarem directamente nos ribeiros. Pedrógão e Adofreire (ambas na freguesia de Pedrógão), Boquilobo (freguesia da Brogueira), Rexaldia (freguesia de Chancelaria), Lamarosa e Árgea (freguesia de Olaia) ou Alcorochel, sede da autarquia com o mesmo nome, são casos paradigmáticos.Em Rexaldia a estação de tratamento foi construída no início dos anos 90, mas para entrar em funcionamento era necessário a construção de um estação elevatória, o que nunca foi possível por desentendimento com o proprietário do terreno para onde estava planeada.Em Árgea e Alcorochel a câmara investiu na aquisição dos terrenos, pagou para se fazerem as escavações onde os tanques seriam construídos e a obras ficaram por aí. Em qualquer das aldeias, as futuras ETAR ficavam localizadas no centro do agregado populacional e a população revoltou-se. O então presidente da Junta de Alcorochel, Jorge Fazenda, apresentou uma proposta de construção de uma ETAR compacta, que foi aprovada pelo executivo camarário, mas nada mais se adiantou. Os buracos estão abertos e os esgotos correm para os ribeiros.Em Pedrógão e Adofreire a situação é idêntica. O ribeiro das Mouriscas, que atravessa as aldeias, transformou-se numa vala de esgotos. Os poços estão poluídos e o cheiro torna-se insuportável. Também em Boquilobo, a dois passos da reserva natural do Paul de Boquilobo, os esgotos correm livremente para o ribeiro.Face à situação, a Câmara de Torres Novas pretende lançar um concurso público internacional para a construção e exploração das redes de água e esgotos. Margarida Trincão
Um cenário vergonhoso

Comentários

Mais Notícias

    A carregar...