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Os estrangeiros do nosso futebol

Sonharam com o “El Dorado”, passaram por muitas dificuldades, mas gostam de estar entre nós

São vários os estrangeiros espalhados pelas equipas de futebol da região. De início vinham à procura do El Dourado, mas na maior parte dos casos apenas encontram dificuldades. Com percursos diversos, todos têm algo em comum: a vontade de ficar a viver em Portugal.

Edição de 21.07.2004 | Desporto
Leandrão, o menino da favelaque queria ser jogador de futebolO sonho de jogarna Europa A história de André Leandro Martins, “Leandrão”, é a história do menino da favela que queria ser jogador de futebol. Tentava imitar o craque Careca e sonhava jogar num clube da Europa, a fantasia de quase todos os jogadores brasileiros. Um sonho que cedo se concretizou. Leandrão começou por cima, aos 20 anos, veio do Grémio de Portalegre para a Académica de Coimbra, onde esteve durante dois anos.“Vim para Portugal com a intenção de ganhar dinheiro para quando um dia voltasse ao Brasil ter uma vida melhor”. Mas embora a vida de Leandrão não tenha sido muito fácil, já conseguiu comprar uma “casinha” no seu país. Contudo agora já não vê com tanta acuidade a hipótese de voltar ao seu país de origem.Leandrão jogou em vários clubes portugueses. Académica, Espinho, Caldas, Esmoriz. Jogou em Itália no Avelino, e no regresso a Portugal veio para o Abrantes, onde está de corpo e alma. “A cidade conquistou-me e eu estou conquistando a cidade. Gosto de Abrantes e das suas gentes, e daqui não vou sair. Quero acabar a minha carreira no Abrantes”.Agora com 32 anos também não vai continuar a jogar futebol por muitos mais anos, mas está a criar raízes que tornarão muito difícil o seu regresso ao Brasil. “Encontrei aqui a minha alma gémea. Devo muito à minha namorada Luma e à “teimosa”, que é a sua mãe, e também à minha madrinha. A elas estou profundamente agradecido pelo apoio que me têm dado. É com elas que vou ficar”, garante com veemência Leandrão.A possibilidade de vir a ficar ligado ao futebol é uma das metas de Leandrão. Vai tirar o curso de treinador e quer ser técnico nem que seja das camadas jovens. Vive o dia a dia totalmente ligado à modalidade. Os tempos livres são passados com a namorada e a família, a madrinha e os amigos em Abrantes. “12 anos depois de aqui estar todo este tempo, já me sinto português, não digo que um dia não voltarei ao Brasil, mas isso só acontecerá se as coisas se modificarem muito num futuro bem longo”.Vítor Romero, um chileno que escapou à ditadura de PinochetTomar é a sua terrae Portugal o seu paísVítor Romero nasceu em Santiago do Chile, de onde saiu ainda criança. A ditadura de Pinochet obrigou os seus pais a imigrar para a Suécia. “A vida era difícil no Chile, eu era muito jovem, mas ainda me lembro de algumas situações muito difíceis, e os meus pais, como todos os chilenos, sofreram na pele os problemas da ditadura. Por isso tiveram que sair do país à procura de uma vida melhor”.Na Suécia, Vítor Romero começou a jogar futebol nas camadas jovens do Amarby e um dia, ainda muito jovem, com 18 anos, foi convidado para vir jogar no Vitória de Setúbal, na altura treinado por Malcom Allison. Mas o treinador foi dispensado antes de começar a época e Vítor Romero ficou “apeado”. Surgiu então a hipótese de vir com Vítor Esmoriz para Tomar. “Vim, fiquei e peguei quase de estaca”.“Apaixonei-me por Tomar e por uma tomarense, casei bem casado, tenho um filho português nascido em Tomar e eu sou também tomarense e português. O Chile não me diz nada, ainda agora vibrei com Portugal no Campeonato da Europa de uma forma intensa. No outro dia estava a ver o Chile na Copa América e não me dizia nada”, explica Vítor Romero.Nos 17 anos que leva em Portugal, Vítor Romero jogou 10 anos no União de Tomar, o clube do seu coração. Passou ainda pelo Alcanenense, Fátima e Sanjoanense. Durante esse tempo tirou o curso de treinador de futebol e agora é técnico no União de Tomar. Contudo não desdenha poder vir a treinar outros clubes. Embora reconheça que isso não será muito fácil. “A classe de treinadores é muito complicada, todos batem com a mão nas costas, mas por trás estão a ver se conseguem empurrá-lo para ocuparem o seu lugar”. Estabeleceu a sua vida, entrou no negócio e tem duas sapatarias. Ao princípio ainda pensava que um dia iria voltar para a Suécia para junto dos seus pais, mas para o Chile nunca, nem de visita. “Ainda fui convidado para jogar no Cobreloa, um dos principais clubes chilenos, estive uma semana à experiência, mas um dia sem dizer nada a ninguém, zarpei e voltei a Portugal, que é onde vou ficar até ao fim dos meus dias”, garantiu Vítor Romero, um estrangeiro que garante ser bem português.Tamandaré,um brasileiro em MonsantoVida difícil por culpade outrosWilliam Silva, mais conhecido por “Tamandaré”, é um brasileiro nascido no Estado de Pernambuco há 24 anos. Começou a jogar nas camadas jovens do Sport Recife e, aos 17 anos, assinou o seu primeiro contrato como profissional, com o Clube Atlético do Porto, um clube da primeira divisão pernambucana.Veio para Portugal pela mão de Alves Gomes, na altura para jogar no Benfica B, onde nem tudo correu muito bem. Mas a partir daí houve uma sucessão de contratempos e de situações menos claras que o iam levando abaixo. “Hoje sinto que muita coisa correu mal, não digo que Alves Gomes tivesse apenas a intenção de me prejudicar, mas que me complicou muito a vida complicou”, garante Tamandaré.“Na altura estive para assinar com o Felgueiras, depois com o Campomaiorense, na altura na primeira divisão, mas quando chegava o momento de assinar, as coisas com Alves Gomes davam para o torto. Quando já desesperava, surgiu o Barreirense, então na segunda divisão, e aí eu disse que se não ficasse voltava imediatamente para o Brasil, e acabei por ficar e ali passei dois anos excelentes”, referiu o jogadorTamandaré sente-se enganado por muita gente. É um profissional de futebol que vive com muitas dificuldades, mas apesar disso já conseguiu que a esposa viesse viver com ele para Torres Novas, uma cidade onde já fez amigos. “Por cada clube por onde passo deixo sempre amigos, gosto de trabalhar e fazer amigos, mas nem sempre as coisas têm corrido bem. Agora com a cabeça bem assente e no Monsanto, um clube com estabilidade, espero fazer uma excelente época, que me dê hipóteses de dar o salto para um clube de outra dimensão”, diz esperançado o atleta.Apesar de tudo por que tem passado, Tamandaré ainda não pensa voltar ao Brasil. Passa os tempos livres do futebol com a família e com os amigos, quando se sente mais deprimido passeia só e assim consegue colocar as suas ideias em ordem. “Sou profissional de futebol, tenho sentido algumas dificuldades, mas mesmo assim já consegui fazer algumas coisas na minha terra que queria fazer quando vim para Portugal. A minha ideia é voltar ao Brasil, mas isso só no final da minha carreira”.Rui Nancassa veio da Guinéà procura de uma vida melhorSer estrangeiro tem-lhe dificultado a carreiraNão é difícil adivinhar a sua origem africana, o próprio nome o indica. Rui Nancassa é um nome curto mas que esconde grandes ambições, difíceis de alcançar é certo. Mas espírito de luta não lhe falta. “A minha vida tem sido difícil, mas apesar de tudo é muito melhor do que era na Guiné”, garante o jogador, de 24 anos, actualmente ao serviço do Fazendense.Veio para Portugal à procura de uma vida melhor. Começou a jogar nas camadas jovens do Mansalá e já como sénior jogou no Sporting de Bissau, na capital do país onde nasceu. Quando tinha 19 anos foi convidado para vir para Portugal para jogar no Beneditense, aceitou o convite com as duas mãos, e esteve no clube da Benedita durante dois anos. “No final as coisas começaram a correr mal. Não havia dinheiro para pagar os ordenados e a vida tornou-se difícil. Só não desesperei porque tive alguns amigos que me ajudaram”, referiu Rui Nancassa.Quando tudo parecia muito negro surgiu o amigo Armando Cardoso, que o trouxe para o Fazendense, onde as coisas melhoraram bastante, mas o facto de ser estrangeiro condicionou a sua carreira. “Na segunda época havia outro estrangeiro na equipa e isso não foi nada benéfico para mim, e estive quase todo o ano sem jogar”. A época passada jogou no Águias de Alpiarça e este ano voltou ao Fazendense. Sente que tem sido muito apoiado e está agora a tentar tratar dos papéis para passar a ser português. “Vivo só, sou profissional de futebol, e ter o bilhete de identidade português é indispensável para poder aspirar a outros voos”.Rui Nancassa vive em Lisboa, mas é nas Fazendas de Almeirim que se sente em família. “Neste momento ainda não sei qual vai ser o meu futuro. Não sei fico em Portugal se vou voltar à Guiné, tudo depende do que a vida me reservar. Para já só quero pensar em jogar futebol e se possível subir a outros níveis”. Até lá vai convivendo com os amigos, passeando e vivendo, o dia a dia, o melhor que pode.Aposta nos portuguesesAlverca e Vilafranquense são dois clubes onde habitualmente se apostava em jogadores estrangeiros que procuram afirmar-se no futebol português mas, curiosamente, este ano nenhuma destas equipas apresenta estrangeiros nos seu plantel.No Alverca recorde-se o caso de Deco, recentemente transferido do Porto para o Barcelona por 20 milhões de euros, ou de Mantorras e Yanick, que estão actualmente a jogar no Benfica.O Vilafranquense, que ainda a época passada teve no angolano Dionísio o seu melhor marcador, também formou a sua equipa apenas com portugueses.

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