uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
31 anos do jornal o Mirante
Melão de Almeirim em vias de extinção

Melão de Almeirim em vias de extinção

Fruto que deu fama ao concelho já quase não se produz

Quem actualmente passa por Almeirim e compra um melão branco a pensar que está a adquirir o famoso fruto que deu fama à cidade está enganado. O tradicional melão de Almeirim está em vias de extinção, vencido pelo aumento de produção de melão branco.

Edição de 21.07.2004 | Economia
O melão que deu fama a Almeirim está em vias de desaparecer. Já praticamente ninguém produz o fruto que se tornou célebre há cerca de 40 anos. As sementes do melão verde riscado também já são raras e se desaparecerem por completo perde-se um material genético de grande valor. Hoje as pessoas compram nas bancas, à beira da estrada e nos mercados o melão branco do Ribatejo. E muitos não sabem que afinal esse não é o fruto característico de Almeirim. Há cerca de quatro anos, recorda o presidente da Federação dos Agricultores do Distrito de Santarém (FADS), Amândio Freitas, houve uma tentativa de proteger o melão verde riscado, também conhecido por “Manuel António”. A ideia era incentivar a produção e criar a marca Almeirim. Mas a falta de união entre produtores ditou a morte do projecto. Este fruto começou, curiosamente, a ser produzido por seareiros de Alpiarça, mas foi o concelho vizinho que acabou por colher os louros de um melão muito doce e de extrema qualidade. Actualmente a produção do melão Manuel António é residual. Só alguns agricultores mais antigos semeiam uma pequena quantidade para manter a tradição, que geralmente nem chega aos circuitos comerciais. Era no melão “Manuel António”, nome do produtor de Alpiarça que introduziu a variedade na região, que residia “a essência do melão de Almeirim”, sublinha Amândio Freitas. “É uma pena não se preservar pelo menos a semente que já quase ninguém tem. É uma perda do ponto de vista da qualidade e da tradição”, explica o presidente da FADS. Uma dos motivos que tem contribuído para a extinção desta variedade é o facto das sementes nunca terem sido comercializadas. Elas passavam de mão em mão entre produtores, depois de Manuel António as ter descoberto quando vinham misturadas num lote comprado em Espanha. A semente passou a ser aproveitada de uma parte da produção de um ano para dar para a época seguinte. Torcato Ferreira Correia, agricultor de Almeirim com 77 anos, diz que foi o lucro que levou ao predomínio do melão branco. “O verde riscado tinha produções baixas e estragava-se muito porque quando estava a amadurecer não podia apanhar sol. Tínhamos que andar a tapá-lo com palha de arroz, mas mesmo assim estragava-se grande parte da produção”, conta. Como o melão que actualmente se encontra à beira da estrada é mais rentável, os produtores foram desistindo de fazer o tradicional melão de Almeirim. Torcato Correia, que costuma estar à beira da Estrada Nacional 114 à entrada da cidade, garante que deixou de semear o antigo melão há cerca de 20 anos. Hoje tem pena de não ter guardado umas sementes porque era um fruto de uma “qualidade excepcional”. Para além de ser muito doce e sumarento, depois de colhido aguentava-se muito mais tempo que o branco. “Chegávamos a guardá-lo mais de um mês, enquanto este que se produz agora ao fim de uma semana está mole”, explica. No mercado de fruta de Alpiarça, onde dezenas de agricultores tentam escoar a sua produção, os reboques de tractores e camionetas estão carregados de melão branco. Custódio Raposo, produtor de melão há 52 anos, assegura que nos últimos anos não tem aparecido a variedade Manuel António no espaço de venda situado no Carril, ao lado da Vala Real. Ao contrário de Torcato Correia, este produtor de Alpiarça encara o desaparecimento do tradicional melão com naturalidade. “É o progresso! Hoje tudo quer melão barato e o Manuel António tinha que ser vendido mais caro devido à fraca produção”, vaticina. No mercado o melão branco está a ser vendido aos intermediários a um preço que varia entre os 20 e os 30 cêntimos por quilo. À beira da estrada, directamente aos consumidores, o preço sobe para 80 cêntimos. Amândio Freitas garante que ainda é possível, com algum esforço, tentar preservar o material genético do melão verde riscado. “É uma ideia que temos que aproveitar para tentar evitar a extinção completa do melão que levou o nome de Almeirim a todo o país, associado à qualidade”.
Melão de Almeirim em vias de extinção

Comentários

Mais Notícias

    A carregar...