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Fogo deixa idosos sem nada

Fogo deixa idosos sem nada

Irmãos surdos-mudos resgatados das chamas pelos bombeiros na aldeia de Água Boa, Tomar

A intervenção dos bombeiros salvou um casal de irmãos surdos-mudos que se encontrava refugiado em casa cercado pelas chamas. O fogo destruiu-lhes a casa e roubou-lhes todos os haveres.

Edição de 20.07.2004 | Sociedade
A casa e todos os haveres de Maria Engrácia e António Lopes foram consumidos pelo fogo que na semana passada percorreu as freguesias de Sabacheira, Pedreira e Carregueiros, no concelho de Tomar. Isolados do povoado, na aldeia de Água Boa (Sabacheira), os irmãos surdos-mudos foram salvos por pouco pelos bombeiros.O fogo começou pelas 15h00 no Sobral (Sabacheira) e rapidamente se propagou pelas freguesias vizinhas de Pedreira e Carregueiros. Em São Simão (Pedreira) as chamas lamberam as habitações e ainda consumiram alguns barracões e anexos, mas o maior drama aconteceu em Água Boa.Maria Engrácia Lopes, 72 anos, e António Lopes, de 69 anos, moravam numa casa isolada da povoação. Os poucos vizinhos que tinham, há anos que abandonaram as habitações. Actualmente, os moradores mais próximos residem a cerca de um quilómetro. Assustados com o fogo, os dois irmãos fecharam-se em casa e por pouco não morriam lá dentro. Os bombeiros tentavam defender as primeiras casas quando alguém chamou a atenção para outra habitação algumas centenas de metros à frente, escondida entre a vegetação.Engrácia e António conseguem emitir alguns sons que se tornam imperceptíveis para a maioria das pessoas. José Manuel Costa Santos conhece-os desde que nasceu e serviu de cicerone à reportagem de O MIRANTE. Com uma edição do jornal conseguiu transmitir que éramos jornalistas e os irmãos, sem qualquer receio, começaram a explicar o que se tinha passado e o susto que apanharam.As chamas vieram do lado do vale e entraram para dentro de casa, onde se tinham refugiado. Pelos gestos largos, os sons e a expressão facial explicam o barulho das árvores a arder e a rapidez com que as chamas chegaram à casa de que restaram apenas as paredes exteriores. Engrácia e António ficaram apenas com a roupa que traziam no corpo.Depois do incêndio os irmãos foram morar para casa de familiares no Casal Julião, uma aldeia próxima. A casa, que estava desabitada, pertence aos herdeiros de outra irmã já falecida.“Eles vivem de uma pequena reforma e uma sobrinha, filha da irmã que morreu, é que toma conta deles, mas actualmente está de férias no estrangeiro”, diz José Manuel Costa. Mas outras pessoas da aldeia ajudam como podem os dois irmãos surdos-mudos que nunca aprenderam a ler nem escrever e que dificilmente se orientam sozinhos.Lá no fundo do vale, junto às ruínas da casa de Engrácia e António, um casal de holandeses também idoso via a destruição que o fogo deixou e num português atrapalhado explicava que costumava ajudar os irmãos com dinheiro e géneros alimentícios. No Casal Julião, António Lopes tira do bolso duas notas embrulhadas em papel pardo e mostra à irmã a dádiva mais recente dos holandeses. Com os mesmos gestos largos e um código linguístico que só os próprios entendem, os irmãos conversam e despedem-se amistosamente.Margarida Trincão
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