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O fogo levou-lhe tudo

O fogo levou-lhe tudo

Funcionário da Câmara de Almeirim ficou sem casa e vive da ajuda dos colegas

No dia 25 de Junho um fogo numa fábrica desactivada de Almeirim alastrou à casa de um funcionário da câmara municipal. Dimas Rodrigues, que vivia com algumas dificuldades, ficou sem nada. Até as recordações desapareceram nas chamas.

Edição de 20.07.2004 | Sociedade
Ao olhar para os escombros queimados da casa, Dimas Rodrigues não consegue conter as lágrimas. O cabouqueiro da Câmara de Almeirim estava de férias na sua terra natal, na zona de Viseu, quando um fogo que começou numa fábrica desactivada na zona industrial da cidade alastrou à sua habitação. Foi no dia 25 de Junho e quando recebeu a notícia pelo telefone ficou em estado de choque. Já por duas vezes Dimas Rodrigues, 57 anos, tinha visto o seu lar feito de madeira e chapas de zinco ameaçado pelas chamas. Tal como agora, dessas vezes, dezenas de pneus armazenados no exterior da antiga fábrica começaram a arder. Mas os bombeiros conseguiram sempre salvar a casa situada no meio de uma vinha. Os poucos bens que conseguiu juntar ao longo de trinta anos ficaram reduzidos a cinzas. A cama, as roupas, fotografias do casamento fazem agora parte de um amontoado de ferros retorcidos. Dimas Rodrigues vivia no local há perto de 30 anos, quando começou a trabalhar para a autarquia. Foi lá que criou os seus dois filhos. A casa não tinha as mínimas condições, mas guardava muitas recordações de vida. Tinha sido emprestada por um agricultor de Almeirim que aproveitava a presença do funcionário da câmara para ter a vinha vigiada. Dimas Rodrigues morava sozinho, já que a mulher está em Viseu junto dos filhos. “Para além de ter perdido tudo, o que me custa mais é ver desaparecer as recordações. Quando os meus colegas da câmara começam a falar do assunto fico emocionado. Já chorei uma série de vezes”, conta, acrescentando que as poucas coisas que tinha foram adquiridas com sacrifício e muito trabalho.O fogo levou-lhe também todos os documentos. Como os papéis que tinha para tratar da reforma daqui por três anos. Declarações do período em que trabalhou no estrangeiro e do tempo em que foi tropa e combateu na guerra do Ultramar. Com o olhar inundado de tristeza, Dimas Rodrigues recorda que fazia sempre um aceiro de três metros à volta da casa. E este ano, pela primeira vez, não cavou o terreno pertencente à antiga fábrica, onde o feno dá pela cintura de uma pessoa. “Foi preciso ter azar”, desabafa. Sem ter para onde ir e sem grandes recursos económicos, já que grande parte do ordenado de cerca de 500 euros é enviado para a mulher, Dimas Rodrigues pernoita nas instalações dos serviços de águas da câmara. Dorme num sofá na sala de convívio dos fun-cionários do piquete das águas da autarquia, do qual também faz parte. “Sinto que estou a estorvar os meus colegas. Eles agora evitam ir à sala porque sabem que eu durmo lá e não querem incomodar”, sublinha. Entretanto a câmara está a recuperar uma pequena sala no edifício do serviço de águas, transformando-o num quarto onde o infortunado funcionário ficará instalado. No meio da desgraça, Dimas Rodrigues ainda encontrou uma pontinha de felicidade. Conseguiu salvar a bicicleta que é o seu único meio de transporte. Por sorte, antes de ir de férias para a terra, deixou-a guardada no local de trabalho. Aos poucos, o cabouqueiro vai agora tentando refazer a vida. Alguns colegas de trabalho já lhe deram roupa. Mas ainda lhe faltam casacos para o Inverno. Aos poucos tenta também esquecer a desgraça que se abateu na sua vida que, como descreve, tem sido sempre a “andar para trás”.
O fogo levou-lhe tudo

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