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Último concerto de Carlos Paredes foi no Entroncamento

Guitarrista deixou de tocar em 1993

Foi a 12 de Junho de 1993. Seriam onze da noite. O mestre Carlos Paredes, dobrado sobre a sua guitarra, interpretava mais um tema. O Centro Cultural do Entroncamento estava sobrelotado. Havia espectadores sentados no chão, nas escadas, entre as filas de cadeiras. De repente os disjuntores do quadro eléctrico dispararam. Os microfones deixaram de captar som e a sala ficou na mais completa escuridão. O guitarrista não deve ter dado por nada, tão concentrado estava no seu labor. Oitocentas pessoas, de respiração suspensa, viveram um raro momento de magia. Foi a última vez que Carlos Paredes pisou um palco.

Edição de 28.07.2004 | Cultura e Lazer
O último concerto da carreira do mestre da guitarra portuguesa, Carlos Paredes, realizou-se no Entroncamento. Foi a 12 de Junho de 1993 e uma pequena passagem dessa actuação, com o nome “Discurso” foi incluída no disco “Canção para Titi”, editado pela Valentim de Carvalho em 2000.A actuação de Carlos Paredes, acompanhado à viola por Luísa Amaro, ocorreu no Centro Cultural. O espectáculo foi uma “oferta” da já extinta estação de rádio, RCE-rádio, aos habitantes do Entroncamento, por ocasião do segundo aniversário de elevação a cidade. António Avelar de Pinho, produtor musical, natural do Entroncamento, foi o responsável, juntamente com o empresário José Carlos Agostinho, proprietário da estação de rádio, pelo momento único vivido naquela noite.Carlos Paredes já se encontrava afectado pela doença - mielopatia crónica - que o havia de imobilizar poucos meses depois, mas apesar de debilitado fisicamente deu um concerto inesquecível. Perante uma plateia completamente rendida ao seu virtuosismo, o mestre evocou as figuras tutelares da mãe que lhe cantava canções de embalar acompanhando-se a si própria com uma guitarra portuguesa, e da tia que ele considerava como uma segunda mãe. Pelo meio fez um elogio às mulheres guitarristas “Não é muito vulgar apreciar as mulheres que gostam de tocar guitarra mas eu, porque as oiço tocar muitas vezes, acho que têm uma grande sensibilidade. E espero que, no futuro, algumas dessas raparigas se distingam”.As entradas para o concerto eram gratuitas, mas limitadas à lotação da sala, cerca de seiscentos lugares. A organização foi surpreendida com uma afluência nunca vista e viu-se obrigada a deixar entrar mais umas duzentas pessoas que ocuparam cada centímetro disponível. À porta do centro cultural havia quem estivesse disposto a pagar o que fosse necessário para poder assistir.A primeira parte do espectáculo foi preenchida com um recital de viola clássica a cargo de um jovem músico chamado José Horta. Depois, António Avelar de Pinho apresentou Carlos Paredes. Ninguém adivinhava que era a última vez que o mestre da guitarra portuguesa pisava um palco.Num intervalo entre duas músicas, um espectador pediu a Carlos Paredes que interpretasse a Balada de Coimbra que o seu pai, Artur Paredes; costumava tocar. O guitarrista optou por um outro tema “inspirado no rio Mondego” e justificou-se: “Neste momento não estou preparado para tocar essa música”. Antes, tinha tocado “Canção para Titi” e “Uma canção para minha mãe”, esta última com uma dedicatória emocionada: “Vou tocar o que se pode chamar uma canção de embalar, dedicada a minha mãe, de quem recordo os momentos em que ela cantava para mim e eu escutava meio adormecido”.Perto do final do concerto os disjuntores do quadro eléctrico do Centro Cultural dispararam. A sala ficou mergulhada na mais completa escuridão e os microfones deixaram de captar o som dos instrumentos. Completamente alheio ao que se passava, Carlos Paredes continuou a tocar. Foi um momento único. Oitocentas pessoas de respiração suspensa fizeram absoluto silêncio e a guitarra ganhou uma ressonância arrepiante.O concerto do Entroncamento foi registado em fita magnética pelos técnicos do RCE-rádio João Graça e José Domingos e transmitido no dia seguinte. Carlos Paredes ouviu atentamente a transmissão, em casa do empresário José Carlos Agostinho, onde estava hospedado, e fez questão de telefonar para a rádio a dar os parabéns aos técnicos pela qualidade da gravação. O guitarrista, entrevistado em directo, confessou que iria ouvir a gravação mais vezes e que gostaria que o espectáculo fosse editado em disco. “Espero fazer uma gravação que será comemorativa deste encontro com a vossa terra”.O concerto nunca foi editado em disco mas o produtor de “Canção para Titi”, António Avelar de Pinho, acabaria por juntar aos oito inéditos gravados nos estúdios de Paço de Arcos em Julho de 1993, um pequeno extracto do espectáculo do Entroncamento. Uma pequena faixa de um minuto e quarenta, intitulada “Discurso”, que começa com Carlos Paredes a explicar como é que os guitarristas imitam sons do dia a dia, como o do vento, na guitarra, para finalizar com a sua interpretação musical de um discurso de um professor numa sala de aulas. A gravação foi masterizada por Paulo Jorge Ferreira.Alberto BastosMonumento nacionalCarlos Paredes nasceu em 16 de Fevereiro de 1925 em Coimbra, no seio de uma família de grandes guitarristas. Aos quatro anos começou a tocar guitarra com o pai, Artur Paredes, e só parou em 1993 quando a doença a isso o obrigou.Amália Rodrigues, responsável pela primeira grande apresentação do guitarrista no estrangeiro – Olympia de Paris em 1967 – considerava o músico “um monumento nacional como o Mosteiro dos Jerónimos”.O primeiro álbum de Carlos Paredes “Guitarra Portuguesa” saiu no ano do Olympia, em 1967. Antes tinham sido editados alguns discos de pequeno formato, o primeiro dos quais em 1957 com o nome “Carlos Paredes”.O mestre da guitarra portuguesa compôs temas para filmes e para teatro, grande parte dos quais nunca foram editados em disco. Em Dezembro de 2000 foi editado o seu último álbum de originais: “Canção pata Titi” com a duração de 19 minutos e 10 segundos. As sessões de gravação decorreram em Julho de 1993 e foram interrompidas devido ao agravamento do estado de saúde do artista.Sobre o guitarrista escreveu Maria João Seixas: “Quando ouço falar em identidade nacional, proponho, ainda hoje, que se escute Carlos Paredes para melhor se perceber quem somos e o que devemos ousar querer ser”.

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