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O culpado é o preto

Edição de 27.07.2004 | Opinião
Em Fevereiro de 2002, passou na TVI uma reportagem sobre uma actuação policial em Coruche. Foi realizada uma busca em várias residências. Procedeu-se à apreensão de bens, nomeadamente jóias e numerário, por haver a suspeita de serem produto da venda de armas. Tal não se confirmou e os pertences foram devolvidos.Tenho pena de não ter assistido ao programa na televisão.Houve críticas, baseadas no facto de alguns dos suspeitos serem de etnia cigana.Segundo me recordo, não houve nenhuma censura quanto ao modo como as forças policiais agiram. Não foi apontada nenhuma ilegalidade, incorrecção ou abuso.Portanto, eu questiono-me: será que tinha surgido algum repúdio se todos os suspeitos fossem caucasianos?Parece-me que levantar a questão só porque estavam ciganos envolvidos é um modo de discriminação sem sentido. Primeiro tinha de se afirmar existirem falhas e depois dizer que estas só ocorreram por uma questão rácica. Mas não houve críticas deste género.Nós, portugueses, podemos ter defeitos. Contudo, os casos de racismo são relativamente isolados.Há uns anos atrás, o Governo decidiu dar uma instrução curiosa. Nas esquadras, passou a ser proibido mencionar a raça do detido, arguido ou suspeito. Os formulários deixaram de incluir essa característica.Podia parecer um pouco fundamentalista. É um modo de identificação, como o sexo, a altura, a idade aparente ou a cor do cabelo.No entanto, eu concordo com essa restrição. É a melhor maneira de evitar alguma discriminação que pudesse surgir.Em 1980, ficou famosa uma frase proferida por um polícia do Texas, nos Estados Unidos: “como é negro, é você o escolhido”. Neste caso, para ser preso. Só dez anos depois, é que o tal negro foi libertado. Estava inocente.Uma jovem de dezasseis anos, loira, muito bonita e alta, encontrava-se a treinar voleibol, na sua escola secundária. Era um sábado e poucas pessoas lá se encontravam, tirando os jogadores. Cheryl saiu de campo e dirigiu-se aos balneários. Não mais voltou.Foi encontrada no sótão da escola, sem vida e completamente nua. Tinha sido morta.Os dois porteiros eram os principais suspeitos: Henry Peace e Clarence Bradley.O agente policial disse-lhes que um deles ia ser executado e fez aquela medonha escolha baseada na cor da pele.Clarence foi efectivamente condenado à morte. Chegou a redigir o seu testamento e arrumar definitivamente os seus pertences. À última hora, a execução foi adiada.Uma moça chamada Brenda contou algo de revelador.O seu antigo namorado, Dexter Robinson, confessara-lhe que tinha violado e morto uma rapariga em 1980. Não dissera exactamente onde. Mas Dexter tinha sido porteiro daquela escola secundária. Um mês antes do homicídio fora despedido. Logo depois do assassinato, fugiu.A isto somavam-se vários factores. O negro tinha-se submetido ao detector de mentiras. O resultado foi-lhe favorável. Não existiam vestígios de sangue, ADN, pêlos ou impressões digitais que incriminassem Clarence.O julgamento ficou anulado e, em 1990, Clarence foi libertado.Tinha 38 anos de idade. Exactamente a mesma que eu conto agora neste momento.Olho para trás e penso: o que seria da minha vida se a tivesse passado esse tempo na prisão, entre os meus 28 e os 38 anos de idade, por um crime que não havia cometido?Seguramente, não tinha as minhas duas filhas, com seis e oito anos. Profissionalmente, estagnaria. Tinha perdido o pai, aos meus 35 anos, sem acompanhá-lo na doença.O caso de Clarence é recordado no livro “Linchamento Legal”, lançado agora em Portugal.* Juiz(hjfraguas@hotmail.com)

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