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Avieiros querem ficar à beira rio

Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira deu luz verde para o avanço das novas moradias

Os avieiros de Vila Franca de Xira querem ficar junto ao rio. A câmara quis realojá-los noutro bairro, mas os moradores não aceitaram. Enquanto alguns aguardam com ansiedade a construção não ligar das novas moradias, outros insistem em ficar nas casas que construíram após o 25 de Abril.

Edição de 04.08.2004 | Sociedade
Os avieiros radicados em Vila Franca de Xira não querem perder a ligação ao rio Tejo e não aceitaram as propostas de casas novas em Povos ou noutros bairros sociais do concelho. João dos Santos, um nazareno de 80 anos (embora não pareça), vive com a mulher numa das casas pré fabricadas colocada no local, há três meses, pela Câmara. A habitação será utilizada enquanto decorre a construção das novas moradias. O idoso garante que a casa foi um “aí Jesus que lhe apareceu”. “ Quiseram mandar-nos para Povos, mas eu disse logo que não. Eu fugi da Nazaré, que era a minha terra, para vir viver aqui e agora queriam afastar-me do Tejo”, disse.O octogenário conta que veio viver para Vila Franca com ano e meio, mas depois o pai, que era negociante de peixe, teve de voltar às origens e levou toda a família. Aos 17 anos, João pegou na trouxa e, sem dizer nada a ninguém, veio a pé para Vila Franca. Já lá vão 63 anos e não está arrependido. “Estou neste bairro há mais de 50 anos, construí uma barraca e depois uma casita que até estava muito boa até fazerem aquela estrada”, explica, apontado para a estrada que liga a EN 1 à zona ribeirinha.Agora o idoso e a mulher vivem num contentor com dois quartos, uma cozinha e uma casa de banho. “Até tenho polivan para tomar duche”, mostra com orgulho. De Verão a casa é quente, mas os idosos estão habituados ao calor tórrido e não se queixam.Mas se há quem esteja ansioso por uma casa nova, ali bem perto, num corredor estreito que separa duas correntezas de casas e barracas, Clara Cristina insiste em ficar na casa humilde que construiu com o marido após o 25 de Abril. “Trabalhámos muito para ter esta casa e para nós chega bem. Para que é que eu quero uma casa nova?”, questiona. A idosa argumenta ter direito a mais valias e garante que nunca irá sair do local onde vive há mais de 50 anos. “Quando a minha filha mais velha nasceu já eu morava aqui numa barraca”, lembra.O casal começou por viver na bateira (pequeno barco de pesca), depois construiu uma barraca para os filhos e mais tarde fez outra melhor para albergar toda a família. Após a chegada da liberdade e com mais posses, a família seguiu o exemplo dos vizinhos e com autorização da Administração do Porto de Lisboa construiu a casa.A presidente da câmara, Maria da Luz Rosinha, acompanhou o nascimento daquele bairro e garante que a maior parte das casas foram feitas na calada da noite. “Não é o bairro da meia noite, mas é parecido”, ironiza a autarca.A edil diz reconhecer o apego que algumas famílias têm às casas onde viveram durante décadas e onde nasceram alguns dos seus filhos, mas explica que construir casas novas, mantendo às velhas é um processo complicado. Oposição responsabiliza a câmara O terreno está terraplanado e estão reunidas as condições para avançar com a construção das primeiras moradias que vão realojar 46 famílias no bairro dos Avieiros. O último passo na caminhada da burocracia foi dado na quinta-feira, 29 de Julho. A Assembleia Municipal ratificou por unanimidade a transferência da parcela de terreno, que estava afecta à Administração do Porto de Lisboa (APL), do domínio público para o município de Vila Franca de Xira e a cedência em direito de superfície ao movimento cooperativo.Mas não se pense que o debate foi pacífico. Francisco Santos (PSD) e Carlos Braga (CDU) responsabilizaram a maioria socialista e os técnicos da câmara pelo impasse gerado a partir de um lapso no registo dos terrenos quando, em 1999, a APL transferiu para a posse do município uma área de 17167 m2. A parcela incluía os térreos onde está construído o pavilhão e a sede da União Desportiva Vilafranquense (UDV) e tinha quase o dobro dos 8719 m2 que era a área ocupada pelo bairro dos Avieiros. “Como é possível só em 2004 (cinco anos depois) estar a tratar-se disto, será que ninguém deu conta antes?”, questionou Francisco Santos (PSD). “Não sei se não terão havido outras situações de falta de rigor dos serviços da câmara ou de outras entidades que nós não detectámos”, reforçou.O comunista Carlos Braga responsabilizou os serviços da câmara e por inerência a maioria socialista pelo embaraço criado. “Há uma clara falta de rigor. Espero que não tenha consequências para o UDV e que o clube não tenha que demolir o pavilhão”, afirmou.A presidente da Câmara, Maria da Luz Rosinha descansou os autarcas. A edil garantiu que a edificação do pavilhão não pode ser posta em causa. “Ninguém vai demolir o pavilhão, só se fosse para construírem outro melhor e com mais espaço”, ironizou.A autarca reconheceu que os serviços deveriam ter feito um cruzamento de informação com a Administração do Porto de Lisboa, mas salvaguardou que o problema está ultrapassado e que a correcção foi aprovada por unanimidade pela APL.Quanto aos atrasos no bairro dos Avieiros, Maria da Luz Rosinha disse ser um processo complicado. A presidente lembrou que inicialmente o local escolhido para a construção daquele bairro era outro, mas as famílias avieiras quiseram permanecer no local onde alguns vivem há mais de 50 anos. A construção naquele local à beira do Tejo “obrigou a múltiplos pareceres e autorizações”.O terreno denominado como o antigo espaço da laminagem está consignado no Plano Director Municipal (PDM) como área industrial e a câmara e assembleia municipais tiveram de aprovar a alteração. Agora que a burocracia foi ultrapassada, Maria da Luz Rosinha garante que o bairro dos Avieiros pode avançar. O projecto surge no âmbito do protocolo assinado entre a câmara e a federação das cooperativas de habitação e está incluído no Programa Especial de Realojamento (PER). A construção será faseada e prevê a manutenção de algumas moradias. Enquanto decorre a construção das novas casas, os moradores foram realojados temporariamente em contentores. Nelson Silva Lopes

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