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Dar novo rumo à agricultura timorense

Nuno Nunes, engenheiro de Tomar coordena projecto financiado por Portugal

Nuno Nunes tem 28 anos, é engenheiro agrónomo e há seis meses que coordena um projecto de reconversão agrícola em Timor Leste. Um projecto do Governo português, em parceria com o seu congénere timorense, a Fundação São José (de Dom Basílio Nascimento) e da Caritas Diocesana de Bacau, que deverá ser implementado nos próximos três anos.

Edição de 11.08.2004 | Economia
Apaixonou-se pelo país mesmo antes de o conhecer, através dos relatos que um amigo, trabalhador na missão agrícola portuguesa em Timor, lhe fazia. Foi por isso que Nuno Nunes, engenheiro agrónomo de 28 anos, deixou a empresa de gestão agrícola onde trabalhava assim que apareceu a hipótese de trabalhar naquele país asiático.A oportunidade surgiu por acaso. Havia um projecto novo – de cooperação para o desenvolvimento - a implementar em Natarbora, no distrito de Manatuto, e precisavam de um técnico para o coordenar. Nuno candidatou-se e foi seleccionado. O objectivo era aliciante – alterar o comportamento dos timorenses relativamente ao cultivo da terra.“Em Timor pratica-se uma agricultura muito diferente da ocidental”, refere o engenheiro agrónomo natural da Serra, Tomar, adiantando que, por natureza, as pessoas vivem do que a natureza lhes dá. Se estão perto da floresta, por exemplo, recolhem tudo o que esta lhes possa dar para sobreviver. Não interessa o futuro, interessa garantir comida a cada dia que se acorda.A missão de Nuno é bem explícita – contrariar a agricultura que se faz um pouco por todo o país, em que 70 por cento dos terrenos da área de planície são incultos, sem floresta e sujeitos a queimadas sucessivas para realização de uma agricultura sem rumo definido.O objectivo imediato é garantir a existência de alimentos ao longo do ano. Até agora a agricultura tem sido feita por o que Nuno chama de picos – “Tiveram por exemplo o pico das tangerinas em que, numa semana, as árvores deram uma quantidade inacreditável do fruto. Mas só durou mesmo uma semana porque o clima quente fá-las apodrecer rapidamente”.Arranjar variedades de plantas precoces e tardias, ou seja, que dêem alimento mais cedo ou mais tarde e implementar na zona culturas ainda não existentes faz também parte da intervenção coordenada por Nuno Nunes.Quando iniciou o trabalho em Timor, Nuno estava ligado à missão agrícola portuguesa no país, uma intervenção que terminou agora por falta de capacidade financeira. O projecto segue agora tendo como financiadores o ministério da Segurança Social. A fundação São José, do Dom Basílio do Nascimento, é responsável pela sua coordenação no terreno.Os objectivos são os mesmos, o dinheiro é que vem de outro lado. Para já, Nuno tem contrato por mais um ano para continuar o seu trabalho, ensinando os timorenses a fazer culturas diferentes. Apesar de ter de se expressar em tetun terik, dialecto da zona, o engenheiro agrícola diz que ensinar timorenses é muito mais fácil que dar formação a portugueses. “Os timorenses aprendem depressa, porque têm necessidade de aprender, em Portugal vai-se muitas vezes a aulas de formação apenas por capricho”.Em Natarbora há apenas uma pessoa nativa que fala português – o professor da língua de Camões na escola daquele sub-distrito – e mais meia dúzia de pessoas que aprenderam português antes de 1974. E que já esqueceram quase tudo.Não há fome em Natarbora, pelo menos da maneira que os ocidentais vêem. Porque os timorenses sabem retirar a sua subsistência da natureza. “Mas dão as boas vindas a qualquer coisa a mais que apareça”.Combatendo não a fome mas a pobreza, o projecto propõe-se dar novo ímpeto a uma região de Timor Leste com necessidade urgente de ser estimulada. As 415 famílias que vivem em Natarbora foram convidadas a participar numa acção que influenciará toda a população no desenvolvimento da produção e das trocas comerciais, que permitam dar saída aos produtos locais.Tendo sempre em atenção de que a introdução das novas culturas se devem não só adaptar às necessidades da população como também satisfazer gostos e enquadrar-se no contexto cultural da região, o plano de apoio ao desenvolvimento da agricultura no distrito de Manatuto prevê uma intervenção baseada em sete acções – intervenção hortícola, arvense, culturas de elevado rendimento, intervenção florestal, frutícola, para produção animal e ainda um plano para a organização de produtores.Em curso estão neste momento a horticultura e as plantações de milho e soja, das quais se obtêm alimentos no curto prazo. A produção de plantas em viveiro para posterior distribuição está também bem encaminhada, com a primeira fase já realizada – a construção dos viveiros.Os promotores do projecto esperam que as acções previstas venham a aumentar já em 2005 a capacidade produtiva dos agricultores locais, estimando-se um acréscimo do rendimento obtido com a venda de produtos em mercados regionais e nacionais. Nesta perspectiva, a pobreza das famílias de Natarbora seria reduzida.É isso que espera também Nuno Nunes, o engenheiro agrónomo de Tomar que trocou um emprego estável em Cascais por um trabalho de aventura em Timor.Margarida CabeleiraUm outro mundoArroz...com todosDia sim, dia sim, ao almoço e ao jantar, Nuno Nunes come arroz. Arroz simples, com folhas de papaia, de banana, ou com vegetais. Uma vez por semana mata-se uma galinha para desenjoar e come-se acompanhada...com arroz. É ao fim de semana, quando vai a Dili, que o engenheiro agrónomo tira a desforra e come bifes com batatas fritas e tudo o resto a que tem direito, nos muitos restaurantes internacionais da capital.A vinte à horaA aldeia de Natarbora, onde Nuno exerce a profissão, dista cerca de 140 quilómetros da capital de Timor Leste. Mas uma distância que, em Portugal, Nuno percorre em menos de duas horas, é feita em oito horas, a menos de 20 à hora. E na alturas das monções, quando as chuvas alagam as estradas, muitas vezes nem se consegue passar.O primeiro sustoNo primeiro dia em Continente asiático, o engenheiro agrónomo teve logo um encontro imediato com a bicharada local. Estava instalado num hotel de Bali (Indonésia), à espera da ligação aérea para Dili, quando começou a ouvir um sssssh sussurrante. Primeiro pensou que era obra do Tom Cruise, cuja cara aparecia no ecrã do televisor do quarto, mas teve a certeza que não quando descobriu debaixo da cama uma cobra enorme com ar perigoso. Aos gritos saiu do quarto e chamou a gerência, que fez pouco caso...até perceber que se tratava de uma nadja, a cobra mais mortífera do mundo.Águas impróprias para mergulhosNuno Nunes adora praia e na zona onde reside há águas límpidas e areais de perder de vista. Locais idílicos mas interditos a banhistas. É que os tubarões e os crocodilos são reis e senhores por ali e mergulhos, só mesmo rápidos e com água pelo joelho.O carro do doutorO engenheiro agrónomo é uma das três pessoas na aldeia a ter um carro. Uma carrinha pick-up, como convêm a quem tem de atravessar montes com mais de dois mil metros de altitude e estradas em terra batida e lama. Um técnico timorense que supervisiona obras na região e o homem que faz o transportes de mercadorias e bens são os proprietários dos outros dois carros.Medo do fogão a gásNuma aldeia onde não há coisas tão básicas como luz e gás, Nuno conseguiu agora uma pequena vitória – um gerador que garante o funcionamento do pequeno frigorífico que lhe deram. Mas com o fogão a gás, a história já é outra. O cozinheiro continua a usar petróleo ou a tradicional fogueira para cozinhar porque tem medo do gás.Raparigas, só em DiliTentando adaptar-se à comunidade Nuno Nunes levanta-se às 6h30, bebe um bom café timorense como se bebe água e faz bastante exercício “porque ali é obrigatório ser-se saudável”. Notícias do mundo só sabe quando vai a Dili e vê o jornal da manhã da RTP1 e quando quer divertir-se com o sexo oposto tem de percorrer os 140 quilómetros porque quem se meter com uma jovem da aldeia é para toda a vida. “E eu só estou ali temporariamente”, diz a brincar.

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