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Ao volante da freguesia

António Vaz Venda deixou os autocarros para enfrentar o desafio autárquico
Edição de 17.08.2004 | O poder local aqui tão perto
Depois de quase vinte anos ao volante dos autocarros da rodoviária, António Vaz Venda decidiu, finalmente, nas últimas eleições autárquicas, aceitar o convite para se candidatar à condução dos destinos da Junta de Freguesia de São José da Lamarosa, uma das oito do concelho de Coruche.Já tinha sido convidado anteriormente. Mas como a profissão o obrigava a passar muito tempo fora da freguesia, nunca tinha aceite. Embora sempre pensasse que quando deixasse de ser motorista entraria para a vida política. E assim foi. Em Dezembro de 2001 concorreu como cabeça de lista do PS à junta e ganhou com 80 por cento dos votos.António Vaz Venda nasceu há 57 anos em Glória do Ribatejo, concelho de Salvaterra de Magos. Aos 13 anos veio para a Lamarosa viver em casa de um familiar. Sempre teve uma postura humilde, o que facilmente lhe permitiu criar novas amizades.Começou a trabalhar no campo aos 15 anos, actividade que manteve até aos 18, quando foi trabalhar na construção civil. Entretanto chegou a altura de cumprir o serviço militar. Teve nove meses de instrução no continente e depois rumou a Angola, onde esteve 27 meses.Era cabo-clarim, militar que tinha como função emitir os vários toques da vida do quartel, pelo que, em mais de dois anos, saiu apenas duas vezes para o mato. O suficiente para quase ficar marcado para sempre. Numa dessas ocasiões, um colega que ia em sexto na fila ficou sem uma perna devido ao rebentamento de uma mina e ele ia apenas três posições atrás. Ia como voluntário e, curiosamente, já 16 dias depois do tempo da comissão ter terminado.Hoje ainda recorda a ex-colónia portuguesa com muita saudade, sobretudo pelo seu clima maravilhoso. É um dos passeios que um dia gostaria de dar, mas sabe que não é uma viagem fácil de concretizar. Tem consciência que provavelmente ia encontrar uma terra diferente e admite que até podia regressar desiludido.Quando regressou à metrópole voltou à construção civil mas não se manteve na profissão durante muito tempo. Passou por uma moagem de farinhas e, em 1976, entrou para a rodoviária. Foi cobrador durante oito anos, até que passou a motorista, função que desempenhou ao longo de quase duas décadas.Dos 27 anos como funcionário da rodoviária, recorda muitas histórias. Como aquela, há perto de vinte anos, em que ia assistindo a um parto em pleno autocarro, a meio da ponte de Vila Franca de Xira. “Começaram a chamar-me a atenção que havia uma senhora quase a ter um bebé, liguei os quatro piscas e fui sempre a acelerar até ao hospital de Vila Franca de Xira. Soube no outro dia que a senhora teve o bebé na ambulância”, recorda.Hoje o país tem boas vias de comunicação mas na altura apanhavam-se estradas muito más. Sobretudo nos 12 anos em que fez serviços de aluguer e em que tinha de percorrer muitas estradas secundárias. Mas não foi dos mais sacrificados. Os seus trajectos dividiam-se pelo Alentejo e pelos troços Coruche - Lisboa e Lisboa - Setúbal, onde as estradas já eram relativamente boas e os autocarros tinham melhores condições.Como cobrador e motorista da rodoviária deixou muitos amigos. Desde pessoas que começou a acompanhar quando ainda eram estudantes no ensino básico e que transportou já como adultos, até aos colegas de trabalho. Diz com orgulho que saiu da empresa a bem e destaca o facto de ter juntado dezenas de colegas num almoço de despedida.Casado há mais de trinta anos e pai de dois filhos, um rapaz com 30 e uma rapariga com 26 anos, António Vaz Venda ainda não decidiu se se vai recandidatar, mas é provável que opte pelo sim porque acha que ainda tem muito para dar. Oficialmente está a meio tempo na junta, mas muitas vezes passa lá o dia inteiro.Não sonha com grandes obras, até porque os meios das juntas de freguesia são escassos. Mesmo assim, nestes dois anos e meio, a junta por si dirigida já comprou uma carrinha de 9 lugares, um tractor com retro-escavadora incorporada para abrir valetas, ampliou as casas de banho públicas e está a acabar um pavilhão com 350 metros quadrados junto à sede da junta, entre outras obras.“Gostava de ter feito mais mas o dinheiro não dá para tudo. Tem de se gerir o que se tem e para se conseguir fazer alguma coisa é preciso estar do lado de dentro, no terreno, junto das pessoas”, refere António Venda, lamentando que muitas vezes as pessoas exijam coisas que as pequenas autarquias não conseguem fazer.

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