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“Gostava de lidar com a malta”

António Evangelista, o autarca que trabalhou uma vida no campo
Edição de 17.08.2004 | O poder local aqui tão perto
António Evangelista, 85 anos, é das pessoas mais conhecidas e acarinhadas da freguesia de São José da Lamarosa e, simultaneamente, um dos mais profundos conhecedores da história local.Filho da terra, nascido numa família pobre, fez a terceira classe e começou a cavar chão para arroz quando tinha apenas 14 anos. Eram tempos muito difíceis, em que se ganhava à semana e o dinheiro mal chegava para sustentar as bocas que havia em casa.E se hoje quase não há desemprego na Lamarosa, há meio século tinha de se lutar pelo posto de trabalho. “Luta” que começava no largo central da freguesia, junto à Igreja Matriz, onde os homens se juntavam à espera que os seareiros e proprietários agrícolas das redondezas aparecessem a recrutar braços de trabalho para preparar a terra, cuidar da vinha e dos pomares, semear arroz, grão e chícharo ou ceifar as cearas de trigo, entre muitas outras tarefas marcadas pela dureza.Também ele andou nessa luta. Chegou a andar a cavar terra para arroz 22 semanas seguidas. Ainda por cima, naquele tempo não havia botins de borracha e no Inverno, mesmo com geada, andava-se descalço dentro da água.As coisas melhoraram aos 29 anos, quando começou a trabalhar para a família Prudêncio, de Almeirim, que detinha uma das casas agrícolas mais prósperas da região. Trabalhou lá 27 anos, a maior parte dos quais como capataz, e foi lá também que criou os sete filhos, quatro mulheres e três homens.Ao longo destes anos muita coisa mudou na Lamarosa. “Mudou tudo”, responde à pergunta “o que é mudou nos últimos 50 anos”. Em sua opinião, o 25 de Abril de 1974 foi um dos pontos de partida para as mudanças, embora defenda que os ricos tenham ganho mais que os pobres.Outra data que se lembra é a chegada da electricidade, que chegou à sua casa, num dos pequenos lugarejos na freguesia, em 1982, década e meia depois de ter chegado à Lamarosa. Ainda hoje se recorda, da primeira vez que viu televisão, em 1957, na Azambuja. “Trouxeram a rainha de Inglaterra a Portugal mas só lhe mostraram os sítios bons”, recorda.Em 1986, já reformado, foi eleito presidente da Junta de Freguesia de São José da Lamarosa. Já tinha feito parte de listas anteriores, em lugares secundários, mas dessa vez decidiu encabeçar a lista da CDU nas eleições autárquicas. Ganhou por escassos dois votos, vantagem que nas eleições seguintes subiu para 72 votos, sinal que o seu trabalho foi apreciado.“Gostava de lidar com a malta”, recorda António Evangelista, que é lembrado como autarca por ser um presidente sempre disponível. “Era uma pessoa que estava a tempo inteiro na junta. Havia um problema e pouco depois estava lá para ajudar a resolver as coisas”, descreve António Venda, o actual presidente da junta.Nos dois mandatos à frente da autarquia (1986 a 1993), António Evangelista orgulha-se de ter melhorado bastante a situação financeira da junta. “Quando entrei havia 42 contos e quando saí deixei lá quase cinco mil contos”, conta o ex-autarca, que faz questão de salientar que nunca misturou a política com os interesses da junta.Apesar de ser estimado pela maior parte da população, não conseguiu que o seu trabalho fosse apreciado por todos. Nunca ligou muito às críticas mas um dia, na taberna, não resistiu. Depois de ter ouvido várias provocações, acabou por não se controlar e começou a discutir com o autor dos insultos, o que não fazia parte da sua maneira de ser e o levou a uma decisão radical: deixou de beber.Decisão de que hoje não se arrepende em nada. Apesar de não ser homem de exageros, admite que era amigo da pinga e gostava de beber o seu copito. A três meses de completar 86 anos, António Evangelista, é uma parte da memória viva da Lamarosa.

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