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As chamas não se apagam com água

As chamas não se apagam com água

Sapadores florestais chilenos estão pelo terceiro ano a trabalhar no concelho de Abrantes

Vários sapadores chilenos estão a trabalhar na nossa região desde há três anos, contratados por indústrias de celulose. Pretendem implementar novos conceitos e práticas na prevenção e combate a incêndios florestais. Conhecimentos profundos, organização e disciplina são os seus principais atributos.

Edição de 18.08.2004 | Sociedade
“Quando saímos de manhã para combater um fogo nunca sabemos se vamos regressar”. É assim que Mário Santana descreve o risco da sua profissão. O sapador florestal chileno foi o responsável pela introdução da actividade em Portugal. Os “Rambos” das florestas que enfrentam as chamas com moto-serras pás e enxadas estão pelo terceiro ano consecutivo na Herdade da Caniceira, perto de Bicas, concelho de Abrantes. “O fogo não se apaga com água”, resume.Mário Santana coordena três equipas de chilenos a operar no país, contratados pela Afocelca. Um agrupamento das indústrias de celulose Caima, Celbi e Portucel dedicado exclusivamente à prevenção e combate a incêndios florestais. Com ar militarista, botas da tropa empoeiradas e calças verdes, o chileno é também o coordenador operacional da Afocelca.Os cinco elementos que compõem cada brigada são bastante jovens, na casa dos 20 anos, em boa forma física. Mário Santana é o mais velho. Tem 47 anos, 25 dos quais a trabalhar nas florestas chilenas e de outros países, como Brasil, Estados Unidos da América, Argentina e Uruguai. Passa o ano inteiro de país em país com elementos das suas equipas. Apesar do ar simpático, Mário Santana evidencia alguma austeridade nas ordens que dá à equipa. Tem que ser assim. “Um manda e todos os outros obedecem”. Fora do trabalho, nos momentos de descanso, quando não há fogos, convivem entre todos no espaço da herdade. Pernoitam nas instalações, pintadas de branco com barras azuis, onde existe uma sala de coordenação, quartos, cozinha, sala de refeições. A comida é feita por duas cozinheiras. As ementas são estabelecidas pela equipa. Umas vezes há pratos portugueses, outras comidas chilenas. Não são muito diferentes, diz o coordenador. Em Portugal come-se mais peixe. Ou por exemplo javali, que não existe no Chile. Quando chegou à Caniceira, há 3 anos, as pessoas olhavam-no com curiosidade e desconfiança. Quando ia com a sua equipa ao café a Bicas ou a Tramagal, alguns populares perguntavam de onde eram e ao que vinham. Hoje, Mário Santana já tem alguns amigos nestas localidades. Já fez também amigos entre os comandantes e os bombeiros da região. Este ano os sapadores já estão em Portugal há quatro meses. Regressam ao Chile em Setembro. As saudades da família sentem-se sobretudo quando não estão a intervir em fogos. Quando estão em actividade só pensam em debelar as chamas. Não pode haver medos, diz Mário Santana. “Mas tenho respeito pelas chamas”, ressalva. Semanalmente ou quinzenalmente telefonam para o Chile. No dia em que visitámos a brigada, na segunda-feira, não havia fogos. Mas o trabalho não faltava. Estavam a limpar uma zona junto a um ribeiro para a transformar num espaço de merendas e lazer. “Precisamos estar em forma. Ter exercício físico”, justifica o coordenador que já fez cursos de formação nos Estados Unidos da América e no Canadá, onde, considera, estão as maiores escolas no sector do combate a incêndios. As rivalidades, intrigas e tudo o que pode destabilizar a motivação do grupo não são admitidas. Cabelo curto e barba sempre feita são marcas de um sistema de trabalho paramilitar. A disciplina está presente em todos os actos dos sapadores. Nada é feito sem autorização do chefe. Todos sabem o seu lugar e ninguém discute ou recusa as ordens. “É uma forma de trabalhar diferente da que vemos em Portugal”, considera Mário Santana. O tempo que tem passado na Caniceira já lhe permite ter algumas ideias sobre o nosso país. Considera que os fogos são um problema social. Que os portugueses são desorganizados e com falta de disciplina. É isto que Mário Santana quer mudar, contribuindo para a formação de sapadores portugueses. Pessoas que arriscam a vida para combater fogos. Senão, diz, “qualquer dia Portugal não tem floresta”. Conhecidos pelo acidente na ChamuscaOs sapadores florestais chilenos ficaram conhecidos pelo acidente que ocorreu nos fogos da Chamusca em Agosto do ano passado. Nessa altura dois elementos da brigada chilena morreram asfixiados no teatro de operações porque saíram do local do fogo por um caminho diferente do seguido pelos outros colegas, desobedecendo às ordens do chefe. Mário Santana era esse chefe e recorda com tristeza o episódio. Conta que esteve para voltar ao Chile, mas depois de conversar com todos os elementos das brigadas de sapadores florestais acabou por ficar. Considera que foi uma grande perda e sentiu o perigo muito perto. Na altura, o seu filho, de 20 anos, também fazia parte da brigada, tendo saído ileso do episódio. Hoje, considera que acidentes como este, que também acontecem no Chile, fazem parte desta “profissão de risco”. E garante que quando está a combater um fogo lembra-se dos seus companheiros que faleceram em trabalho e que estão sempre no coração dos sapadores. Em Portugal há muita gente a mandarO conhecimento que já tem da forma como se combatem os incêndios em Portugal, leva o chileno Mário Santana a dizer que “existem muitos chefes e poucos índios” no nosso país. O sapador florestal refere-se aos índios como os bombeiros e aos chefes como os comandantes. Por isso, diz, é preciso diminuir o número de pessoas que mandam a bem da boa coordenação. Outro dos problemas identificados é o facto dos bombeiros não serem profissionais. Mário Santana diz que o sistema de voluntariado não permite haver disciplina. Considera ainda que tem de haver bombeiros com preparação física e chefes que dêem uma ordem e que esta seja acatada por todos. Mário Santana considera ainda que faz falta a realização de simulacros de incêndios florestais para treinar as corporações de bombeiros. E que deve haver um intercâmbio nacional com todas as entidades a puxarem para o mesmo lado. E não vê com maus olhos uma associação de Portugal a Espanha para a criação de práticas e sistemas conjuntos de combate a fogos. Brigadas retiram do caminho das chamas a matéria combustívelMatar o fogo à nascençaOs sapadores chilenos são equipas que trabalham todo o ano na floresta. No Chile a época de incêndios começa em Outubro e prolonga-se até Maio. A equipa que está em Portugal até 14 de Setembro, tem uma semana de férias e começa logo a trabalhar nas matas do seu país natal. Cada brigada é constituída por cinco elementos que se fazem transportar em helicópteros. São colocados a cerca de 100 metros da cabeça do fogo e têm por missão retirar do caminho das chamas toda a matéria combustível, originando o enfraquecimento e extinção das labaredas.Mário Santana, coordenador dos sapadores chilenos em serviço em Portugal, considera que os fogos não se apagam com água. Para o sapador o importante é agarrar o fogo à nascença, cortar-lhe o alimento. A água é apenas lançada através de helicóptero como apoio.Por isso, diz, em Portugal têm que se rever algumas formas de combater os incêndios. E recorda o modelo chileno. “Há uns anos o Chile tinha o mesmo problema de desorganização que Portugal tem. O Estado obrigou as empresas, os proprietários de terrenos, a criarem os seus meios de prevenção e combate a incêndios florestais. Os bombeiros estatais só tratam dos sinistros urbanos”. Fora da época de incêndios no Chile, os sapadores fazem outros serviços nas florestas, como a plantação, o corte de árvores, desbastes, limpeza… Assim estes elementos aprendem a dar importância à florestas, a analisar o seu comportamento e ficam a conhecer o terreno. Os sapadores têm formação teórica sobre o comportamento do fogo, as formas de combate, entre outras matérias, complementada com simulacros e exercícios práticos. Os primeiros sapadores portuguesesNa herdade da Caniceira estão no terreno quatro brigadas, num total de 18 elementos, que constituem os primeiros sapadores formados pelos chilenos. Os métodos e as técnicas são iguais e apenas o transporte é diferente. Os portugueses vão para o terreno em carrinhas todo-o-terreno. A criação destes sapadores foi fomentada pela Afocelca - associação das indústrias de celulose Caima, Celbi e Portucel para a prevenção e combate a incêndios – há 3 anos, quando chegaram a Portugal os especialistas chilenos. Anteriormente as equipas que faziam a prevenção de incêndios nas matas das empresas eram constituídas por dois elementos. Agora são quatro.Está também a ser implementado o sistema de trabalho idêntico aos chilenos, ou seja, os elementos portugueses vão trabalhar todo o ano na floresta. Até há 3 anos as pessoas que faziam prevenção de incêndios eram recrutadas apenas no Verão, o que não permitia uma continuidade na formação nem a aquisição de experiência. O chileno Mário Santana, que assume a coordenação operacional da Afocelca, considera que daqui por três anos já vão existir bons grupos de sapadores portugueses.
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