uma parceria com o Jornal Expresso

Edição Diária >

Edição Semanal >

Assine O Mirante e receba o jornal em casa
31 anos do jornal o Mirante

Renascer das cinzas em Santarém

Edição de 25.08.2004 | Opinião
No curto período de 80 anos (1755-1834), Santarém foi praticamente destruída por três vezes. O terramoto de 1755, as invasões francesas e as lutas liberais tiveram especial preferência pela velha Scallabis.Poucas cidades sentiram tão drasticamente as dores do infortúnio. Mas também poucas terras souberam erguer-se como a Fénix das suas cinzas.Não é fácil imaginar a grandeza que Santarém possuiria, hoje, caso não tivessem ocorrido tamanhas calamidades. A cidade regenerada ostenta, ainda, actualmente, ímpares singularidades na vastidão da sua arquitectura (entendida no sentido mais lato que esta expressão contempla), desde a paisagem aos pergaminhos do carácter humano da sua laboriosa gente.Nem os repetidos surtos vandálicos, invariavelmente trazidos pelas catástrofes, revogaram os títulos da cidade-berço do Infante Santo: “Princesa das nossas vilas”, “Capital do gótico”, “Catedral do azulejo”, “Chão sagrado de duas pátrias” e “o mais aberto sorriso agrário da terra portuguesa”. Nesta região, viveram reis, nasceram príncipes, decorreram cortes, fizeram-se guerras, produziram-se as melhores colheitas e projectaram-se palácios dos mais belos de Portugal. Mas que força mágica teria permitido aos escalabitanos levantar, por três vezes consecutivas, a sua cidade, em momentos de terrível decadência?Os períodos de maior desgraça constituem o melhor terreno para o crescimento da solidariedade humana. É nas horas em que perdemos quase tudo que mais intensamente avaliamos a natureza das fragilidades individuais e a força das causas mobilizadoras em prol da cidade que fomos e ainda somos!Quantos projectos, quantas obras, quantos esforços foram feitos pelos escalabitanos visando reerguer Santarém nas centúrias de setecentos e de oitocentos? Ninguém sabe, nem é do domínio da necessidade saber! O que importa é que o título mais nobre e eterno de Santarém consista na capacidade redentora dos escalabitanos, já demonstrada através de intransigentes lutas pela sua própria sobrevivência.A menos de 50 minutos do principal aeroporto e a uma hora do maior porto de mar, servida pela linha do Norte, Santarém é uma constelação de caminhos, afirmando o seu carácter verdadeiramente exclusivo enquanto pólo de articulação dos grandes eixos viários de Portugal. A nossa cidade pôs em prática, há doze anos, projectos alternativos geradores de um pólo complementar relativamente à grande Lisboa. Não se temeu a “perificidade” da capital do país que, agora, é disputada (à luz dos ilimitados conceitos de competitividade autárquica) por cidades, vilas e aldeias do Ribatejo.A ancestralidade da sua relação com Lisboa representa uma das componentes da nossa estratégia para o desenvolvimento qualificado do concelho de Santarém, apostando na desconcentração da área metropolitana lisbonense e fazendo da nossa cidade a base de grandes empresas e serviços estatais. O grupo Lactogal, líder ibérico de produtos lácteos, escolheu Santarém para implantar o seu novo centro de transformação industrial, enquanto que Sousa Cintra construiu uma moderna cervejeira e o grupo J. J. Louro edificou a maior fábrica de colchões do nosso país. A IMOCOM lançou o “W Shopping”, bem como o projecto urbanístico mais relevante da nação, fora de Lisboa e do Porto (“Urbanização das Trigosas”). A Tagusgás decidiu-se pela capital ribatejana. O Brasil criou um Consulado, em Santarém, apesar da proximidade da sua Embaixada de Lisboa. De entre as ambições por realizar, a “Universidade do Ribatejo” não pode ser considerada uma utopia. Este sonho do Professor Veríssimo Serrão, apresentado nos anos 80, constituirá um dos melhores estímulos para o desenvolvimento regional. A instalação do Ministério da Agricultura, nesta cidade, recentemente anunciada pelo Primeiro-Ministro e preconizada pelo PS (no seu congresso distrital de 1992), será uma homenagem ao “tributo ribatejano” para a riqueza nacional. Porém, não há autarquia, mesmo que seja bem dirigida, capaz de conseguir, isoladamente, metas tão ciclópicas como a criação de uma Universidade, a instalação de um Tribunal Administrativo ou a descentralização de uma Secretaria de Estado. Para que Santarém volte, uma vez mais, a ter assento no “primeiro banco” dos municípios portugueses, impõe-se criar uma força de coordenação e de dinamização de vontades dispersas, tanto de personalidades influentes na vida pública, como de quadros com obra feita na iniciativa privada. Mais do que nunca, a sua contribuição é decisiva para ajudar Santarém a renascer, de novo, das suas próprias cinzas!Póvoa da Isenta (Moinho de Vento), 12 de Agosto de 2004.

Comentários

Mais Notícias

    A carregar...