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Médico milagreiro continua a arrastar fiéis

Médico milagreiro continua a arrastar fiéis

Milhares de pessoas visitaram o túmulo de Sousa Martins em Alhandra

Na manhã de 18 de Agosto centenas de pessoas acumularam-se junto ao jazigo do médico Sousa Martins, em Alhandra, considerado um santo milagreiro por milhares de pessoas. Uma manifestação de devoção impressionante protagonizada por gente que veio de norte a sul do país.

Edição de 24.08.2004 | Sociedade
Ermelinda Xavier saiu de Vila Real às três da manhã para vir a Alhandra na quarta-feira agradecer ao doutor Sousa Martins a ajuda na resolução dos seus problemas de saúde. Em visíveis dificuldades, a caminhar de joelhos desde a entrada do cemitério, aproximou-se vagarosamente do túmulo e dirigiu algumas orações ao médico com fama de milagreiro, adorado por muita gente de norte a sul do país.“Tive problemas de cabeça e há quatro meses que não tenho sentido nada. Tenho que agradecer a Sousa Martins o que fez por mim”, referiu a O MIRANTE, acrescentando que também o irmão já recebeu a ajuda milagrosa do antigo médico de Alhandra. “Ele vinha no carro comigo”, fez questão de referir.Ermelinda Xavier foi uma das centenas de devotos que se acumularam desde manhã cedo junto ao jazigo de Sousa Martins, no cemitério de Alhandra. Nesse dia assinalava-se mais um aniversário da morte do médico e investigador. A fila prolongava-se desde o parque de estacionamento perante um sol que foi aquecendo naquela manhã de Agosto. A grande maioria das pessoas são mulheres de várias idades. As crianças contam-se pelos dedos. Vêm com flores para depositar à volta do túmulo, velas, pequenas estatuetas e t-shirts com imagens alusivas a Sousa Martins, o médico que viveu no século XIX e que para muitos ainda é considerado um santo milagreiro. As ruas nas imediações do cemitério ficam cheias de carros. Um guarda da GNR, fica à entrada e limita o acesso dos veículos às pessoas com dificuldades de locomoção.Já dentro do cemitério os cerca de 50 metros em linha recta que distam da entrada até ao jazigo de Sousa Martins são divididos por um cordão que ordena as pessoas. Só quatro a cinco entram de cada vez no jazigo.Fora desse corredor só têm “prioridade” as pessoas que pagam promessas de joelhos e que apresentam manifestas dificuldades físicas. Um jovem abre a corrente para as deixar entrar no jazigo, enquanto distribui folhetos da Junta de Freguesia de Alhandra assegurando a abertura da Casa Museu Dr. Sousa Martins a partir daquele dia, acrescentando que o recinto passou para a sua alçada. No espaço de um minuto as pessoas entram, tocam no túmulo do médico e no da esposa, Maria das Dores, e rezam. Saem e entram outros tantos. A maior parte deixa um contributo em dinheiro na caixa de esmolas, que está logo ao lado. Muitas moedas mas também várias notas. Cerca das dez horas a caixa é retirada por já se encontrar cheia.Após o contacto com o túmulo de Sousa Martins, muitas pessoas vão colocar velas cerca de cinco metros mais abaixo. O fogo arde com intensidade, tanta é a cera a derreter das centenas de velas colocadas. Ao fim de uma hora já tinham passado centenas de pessoas pelo local. João e Alberta Reis, o filho e os pais, também foram a Alhandra. São emigrantes em França e aproveitaram o último dia de férias em Portugal para visitar o túmulo de Sousa Martins.“Tentamos vir cá sempre desde que somos casados há 17 anos. Para pedir saúde para a família e agradecer o que tem feito por nós. Mesmo que às vezes nem tudo corra como se quer”, comentou Alberta Reis.Perto das 10h30, um trio de senhoras entrou para o fim de fila, bem fora do cemitério. Maria Umbelina, Lígia Costa e Maria Nunes deslocaram-se do Zambujal, Loures. A motivação era a fé. Já conheciam a estátua de Sousa Martins que está em Lisboa, mas nunca tinham ido à sua campa. “Existe uma grande devoção”, confessa Maria Umbelina.Cada qual tinha flores para depositar. E um desejo a concretizar: pedir uma vida com saúde. Para Lígia Costa e Maria Nunes não foi a primeira visita e têm notado a presença de muita gente. O que determina o maior ou menor número de pessoas, dizem, é o tempo. Os respectivos maridos, em trabalho ou por opção, não as acompanharam. Pouco depois chega uma mulher de braços no ar, agarrada de um lado, pelo marido, e do outro, por uma senhora que reza e apela em voz alta à sua cura por Sousa Martins. Vagarosamente chegaram até ao túmulo, perante o olhar de muita gente.O marido, Hermano Barros, explicou que a mulher pediu muito para ali se deslocar, já que fica sempre num estado inconsciente, especialmente quando se aproximam as datas marcantes da vida de Sousa Martins, a do falecimento e a do nascimento. Fé todos os diasNão é só nos dias do nascimento e morte de Sousa Martins que há crentes em visita ao seu jazigo. O MIRANTE verificou como um casal de Oliveira de Azeméis visitou o túmulo no dia anterior. Joaquim e Maria Almeida aproveitaram uma visita ao Parque das Nações para uma paragem “obrigatória” em Alhandra.Tomavam o pequeno-almoço junto ao carro, eram nove da manhã, quatro horas depois da saída de casa. Um problema de visão motiva a crença de Maria Almeida na força curativa do médico alhandrense. “A sombra do Sousa Martins acompanhou-me sempre num sonho. Através dele consegui melhorar um problema de visão”, assegurou, dizendo de seguida que vários exames nada detectaram.Maria Gameiro, apesar dos seus 79 anos, viajou desde o Laranjeiro até Alhandra. De autocarro, barco e comboio. Muito religiosa, diz ter percebido que Sousa Martins faz algo pelas pessoas.De mão no jazigo e terço na outra, rezou mais uma vez, tal como fez quando o neto de 12 anos completou o ano escolar com boas notas. Acende cinco velas e deixa sempre o seu contributo na caixa de esmolas. A visita à casa-museu de Sousa Martins também não é descurada. Negócio paraleloUns metros mais abaixo, na rua de acesso ao cemitério, desenvolve-se um negócio paralelo ligado à devoção a Sousa Martins. Imagens, medalhas, pequenos bustos, velas e flores, entre outros objectos. Tudo entre um e 15 euros. As bancas montam-se a partir das cinco da manhã. Maria Helena Mourinha e a cunhada, Emília Mourinha, juntam duas bancas cheias de pequenos artefactos. O que mais vende são as flores e as velas. Nos melhores dias fica tudo vazio até ao fim da tarde.“Costumamos comprar a maior parte das coisas em Fátima. Se estiver bom tempo é sinónimo de boas vendas. Mas Agosto é mês de férias e nota-se alguma baixa em relação a Março, o outro grande dia”, explica Maria Mourinha.Há 25 anos que se deslocam àquele local nos dias de romaria ao túmulo mas indicam que nos últimos três anos o ritmo de vendas tem abrandado.Uma opinião partilhada por Celeste Fernandes, que vende bolos regionais no mesmo local a partir das oito. Queijadas de Sintra, regueifas de Santa Maria da Feira, cavacas das Caldas, línguas da sogra, e outras doçuras. Mas o negócio anda um pouco amargo. Há dez anos que ali vai mas as pessoas compram cada vez menos. Três euros é quanto custa uma queijada, a título de exemplo. Pães acabados de fazer num forno a lenha e recheados com chouriço e torresmos são preparados na camioneta de António Cruz, que vem de Salvaterra de Magos. Já é hábito fazer feiras e mercados, mas aquela manifestação religiosa também está no roteiro. E, apesar do negócio andar em baixa, há sempre quem queira enganar o estômago. Quem foi Sousa MartinsJosé Tomás de Sousa Martins nasceu em Alhandra, a 7 de Março de 1843, filho de um carpinteiro. Era o mais novo de quatro irmãos. Tirou o curso de farmacêutico e depois o de médico. Torna-se um dos cientistas mais prestigiados do país, pelo estudo da tuberculose e das doenças nervosas. Integra a Geração de 70 e afirma-se «um progressista e um maçon». Solteiro, dedica-se à medicina, física, química, botânica, zoologia, cirurgia, literatura, poesia, filosofia, história e oratória. A luta contra a tuberculose fazia-o expor-se à doença, nos contactos diários e directos com os doentes terminais. Faleceu na madrugada de 18 de Agosto de 1897, com 54 anos. Padecia de tuberculose e acabou por se suicidar.
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