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Mendigar pelo neto

Emília da Conceição calcorreia vilas e cidades da região apelando à caridade alheia

Não há cidade ou vila do norte do Ribatejo que Emília da Conceição não tenha já calcorreado, pedindo ajuda para que o neto, há dois anos electrocutado numa catenária, possa continuar os tratamentos.

Edição de 25.08.2004 | Sociedade
Com o cabelo enrolado num carrapito, Emília da Conceição esfrega o quintal de sua casa, no Entroncamento. São quase sete da tarde e a idosa, de 78 anos, ainda puxa pela força que lhe resta depois de um dia a calcorrear a cidade de Abrantes, a bater de porta em porta, pedindo “qualquer coisita” que ajude a suportar as despesas médicas do neto, há dois anos electrocutado numa catenária. Fez dois anos no último sábado que Pedro Miguel, hoje com 17 anos, decidiu subir a um vagão de um comboio de mercadorias parado na estação do Entroncamento. O cabelo molhado atraiu a electricidade da catenária e o jovem foi projectado a vários metros de distância. Em vez da escola, nesse dia Pedro foi parar ao hospital de Santa Maria, em Lisboa, com queimaduras de segundo e terceiro grau em todo o corpo.Agora Pedro Miguel usa uma cinta em todo o corpo, porque a pele demora a cobrir a carne viva. Entre a cinta e a carne são colocadas placas de silicone para prevenir qualquer colagem do tecido. De tempos a tempos Pedro tem de trocar de cinta, que é colocada no hospital mas paga sempre pela família.Emília Conceição ainda se lembra do sacrifício que foi quando pagaram as primeiras quatro cintas e quatro placas, que vieram de Espanha. “O meu filho teve de vender a cama onde dormia para juntar mais algum dinheiro”.Foi por isso que a idosa decidiu fazer alguma coisa. “Ao fim de horas a caminhar chego estafada mas com a alma leve”, afirma. “Já hoje fui a Abrantes”, diz Emília com ar cansado. Sai de casa de manhã, de autocarro ou de comboio, “que é mais barato”, e escolhe uma vila ou cidade para mendigar algum apoio. É assim quase todos os dias, desde o início do ano.No princípio custava-lhe muito pedir. “A minha reforma é curta e sempre chegou para as minhas coisas. Mas com 40 contos, desculpe, eu ainda falo em contos, não consigo governar-me e ajudar o meu neto”.Hoje já consegue olhar olhos nos olhos a quem pede. Afinal, como diz, é por uma boa causa. “E olhe que nunca ninguém me negou ajuda”. Aceita o que lhe dão. Antigamente havia pessoas que preferiam apoiar em géneros, hoje em dia dão quase sempre dinheiro. Dão menos agora, porque a vida também está má. Em dias bons consegue juntar 50, 60 euros.Ao fim de semana entrega o que conseguiu angariar nos dias anteriores ao filho, que reside actualmente numa aldeia próxima de Fátima. “Ele não gosta que eu ande a pedir, sente-se mal, mas se não fosse assim o meu neto já tinha morrido”.Na mão leva sempre documentos comprovativos da si-tuação do neto. A justificação de que não anda a enganar ninguém. A carta do hospital onde o médico descreve as intervenções feitas e os equipamentos de que necessita, o cartão escolar e a fotocópia do Bilhete de Identidade de Pedro Miguel.Muitas vezes, quando chega a casa, a mão vem cheia mas o estômago vazio. Há dias em que passa com o copo de leite e um bocado de pão. “Na minha idade a fome já é pouca”, diz, enquanto encolhe os ombros. Nunca gasta um cêntimo do que junta. Por muito que seja é sempre pouco para o fim a que se destina.Na sexta-feira a última casa que visitou foi a do pároco de Rossio ao Sul do Tejo. “Hoje deu-me dois contos, disse que não podia dar mais porque andava com obras em casa mas já me chegou a dar o dobro”. A algumas casas já foi duas e três vezes. Sabe que ali há gente caridosa.Recorda-se da Cruz Vermelha de Santarém lhe ter dado 50 euros em troca de um “gatafunho” a servir de assinatura num recibo e de duas irmãs terem trazido também uma boa quantia do Seminário da capital de distrito. Num supermercado da região a gerente passou um saco de caixa em caixa e na Câmara de Torres Novas uma funcionária levou-a a cinco ou seis salas. “Todos me deram uma ajuda”.São estas recordações que a levam a levantar-se todos os dias sem pensar na coluna curvada ou nas dores nas articulações. “Ando a passar o meu purgatório na terra, mas Deus há-de compensar-me no céu”.Margarida Cabeleira

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