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Honrando os Filhos, cumprem-se as Cidades

Joaquim Veríssimo Serrão

Homem fora de série, leal e simples, Joaquim Veríssimo Serrão é, segundo Antero Ferreira, o vulto da intelectualidade portuguesa que mais obras compôs desde que há memória em Portugal

Edição de 01.09.2004 | Opinião
Classificamos os monumentos de bom quilate com variados títulos: do “valor concelhio”, ao “imóvel de interesse público” e ao “monumento nacional”.Segundo a grelha definida através de lei específica, o antigo matadouro municipal de Santarém, por exemplo, é um bem de “valor concelhio”, enquanto que as muralhas da cidade são imóveis de interesse público. A Fonte das Figueiras é um dos 15 monumentos nacionais da urbe escalabitana1. Além destes, o Pelourinho de Alcanede e o Mosteiro de Almoster constituem os únicos bens que, fora da nossa cidade, mereceram, até hoje, tamanha honraria.Contudo, todo este legado cultural resultou da criação humana e da capacidade de plasmarmos nos monumentos a “nossa fome de imortalidade”, repetidamente “cantada” por Unamuno no seu livro Do Sentimento Trágico da Vida.Habituados à dimensão material e física do património, esquecemos, amiúde, o verdadeiro sentido cultural e humano que envolve este conceito. Não admira que, no Ocidente, o título de “monumento nacional” exclua, entre outras, as obras dos poetas e dos professores, dos médicos e dos juristas, dos historiadores e dos dramaturgos…Curiosamente, aquilo que, entre nós, não é usual ocorre nos países orientais onde coexistem os “monumentos nacionais em pedra” e os “monumentos nacionais vivos” — cidadãos e suas obras que, de tanto se superarem, transcenderam o próprio tempo. São referências nacionais e exemplos para o porvir. Em três palavras: fora de série!Dentro de 100 ou de 200 anos, poucos portugueses estarão interessados em conhecer os nomes dos melhores empresários, governantes e deputados da “nossa actualidade” (mesmo que estes tenham existido). Continuar-se-á, porém, a saber que Pessoa escreveu Mensagem; Garrett, Viagens na minha terra e Veríssimo Serrão produziu a sua (nossa) preciosa História de Portugal.Homem fora de série, leal e simples, Joaquim Veríssimo Serrão é, segundo Antero Ferreira, o vulto da intelectualidade portuguesa que mais obras compôs desde que há memória em Portugal: “25 285 páginas recenseadas [até 7 de Novembro de 2000], distribuídas por 424 títulos, a que acrescem 264 artigos em dicionários e enciclopédias, uma vastíssima epistolografia e colaboração dispersa na imprensa diária e regional!...” (in 5 Discursos Académicos, Lisboa, 2002, p. 30).Esclarecido, rigoroso e exacto, Veríssimo Serrão é o Mestre dos Mestres da “Oficina da História de Portugal”. Grande e humilde, sem vaidades, nem vestígios de arrogância, tornou-se um “monumento vivo”, património da humanidade.Bendito o berço que viu gerar a personalidade mais completa no domínio da investigação histórica, nos séculos XX e XXI, em Portugal.Abençoada a terra que pode apertar contra o peito o Homem que mais fez pelo bom nome e pelo prestígio da Capital do Ribatejo.Santarém dever-se-á preparar, com brevidade e eficiência, para estar à altura do preito de homenagem ao Professor Veríssimo Serrão que, em 2005, entrará na “verdura” dos 80 anos de idade.O autor da monumental História de Portugal merece uma estátua junto à Torre da Trindade que, justamente, salvou do camartelo, durante o auge da insensibilidade patrimonial e do “botabaixismo” escalabitanos.Simultaneamente, a municipalidade deverá atribuir o nome do Presidente da Academia da História (após a sua necessária autorização) à nova e ampla avenida que começa junto à rotunda do “Modelo” e prossegue no sentido do hospital de Santarém. É aí que ficarão os Bombeiros Voluntários. Melhor sítio não há. Os Bombeiros dão vida por vida. Veríssimo Serrão deu a sua alma a Portugal e o seu amor a Santarém.Honrando os Filhos, cumprem-se as Cidades!Póvoa da Isenta (Moinho de Vento), 21 de Agosto de 2004.1 Os restantes catorze monumentos nacionais da cidade de Santarém são os seguintes: Igreja da Graça (Santo Agostinho), Igreja de São João de Alporão, Túmulo de Fernão Rodrigues Redondo, Túmulo de João Afonso, Capela de Nossa Senhora do Monte, Igreja de Santa Clara, Igreja de Santo Estêvão (Santo Milagre), Igreja do Seminário de Santarém, Igreja e Claustro de São Francisco, Igreja de Santa Maria de Marvila, Edifício e Igreja da Misericórdia de Santarém, Igreja do Hospital (ou Igreja de Jesus Cristo), Torre das Cabaças e Templo Romano de Scallabis.

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