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“Sei tudo o que se passa na noite”

José Manuel Santos, o último guarda nocturno de Abrantes

José Manuel Santos conhece de ginjeira todas as personagens da noite abrantina e tem muitas histórias para contar. O último guarda nocturno da cidade tem sido, ao longo de 27 anos, um precioso ajudante da polícia e testemunha involuntária de alguns amores furtivos.

Edição de 01.09.2004 | Sociedade
É o último guarda nocturno de Abrantes, conhece todos os cantos e recantos do centro histórico, todas as histórias de amores menos decorosos e os autores de muitos dos assaltos que por ali se fazem. Na cidade não há quem não conheça a figura alta e esguia de José Manuel Santos e ele retribui o reconhecimento: não há quem lhe passe despercebido, nem ao longe e de costas.Sabe todas as histórias da noite. Histórias mais ou menos indecorosas, locais de encontros ilícitos, entradas fortuitas em casas de outros e regresso ao lar de sapatos na mão para não fazer alarde. “Sei de tudo, nada me escapa. É por isso que muitos não gostam de mim”, diz. Nasceu no Rossio ao Sul do Tejo há 63 anos, foi mobilizado para Moçambique e por lá ficou mais uns anos. Com a independência voltou a Portugal – “quis ficar e mandar a mulher e os quatro filhos, mas acabei por vir também” – com uma mão atrás outra à frente e uma família para alimentar.Em Moçambique era agricultor, em Abrantes tornou-se padeiro. Fartou-se ao fim de seis anos de farinhas, fermentos, massas e fornos e tentou a sorte noutra profissão, que não o obrigasse a estar fechado.“Quando voltei custou-me muito”, recorda com mágoa. Foi-lhe difícil deixar as terras de África. Foi-lhe difícil trocar o dia pela noite. Depois habituou-se e como a noite não era assim tão má começou a trabalhar como guarda nocturno.“Já lá vão 27 anos e gosto muito do que faço. Nunca tive medo de nada, nunca voltei a cara a qualquer situação”, afirma convictamente. O pior é andar sozinho, ainda por cima na era dos telemóveis.“Foi a pior coisa que inventaram. Quando querem fazer alguma marosca, vêem-me e avisam os outros, como sou sozinho não posso estar nos dois sítios”. Mas, apesar disso o Zé Manel é o braço direito da polícia. Tem os seus métodos muito próprios e se não consegue evitar os roubos, é capaz na maior parte das vezes de identificar os seus autores.O filtro de um cigarro é uma arma inestimável. “Como os conheço a todos, ando de olho neles. Sei a que horas entram em casa e se nessa noite houve alguma coisa antes de irem para casa começam a ser suspeitos. Depois logo se vê se foram ou não”. O método é simples, o filtro é colocado num local que logo que a porta é aberta cai. Zé Manel vai rondando e por esse pequeno sinal sabe se já entraram ou não em casa.É também pelo filtro do cigarro que conhece amores menos consentâneos com os preceitos sociais. Por vezes de pessoas insuspeitas. “Uma vez houve uma senhora, já não mora em Abrantes, que me encontrou num café da cidade e pediu para se sentar na minha mesa, para me explicar o que se tinha passado na noite anterior. Claro que do princípio ao fim disse que não tinha visto nada, mas vi ali para os lados do Outeiro. Sei tudo o que se passa”.Trabalha da meia-noite às seis da manhã. Sábados, domingos e feriados pouca diferença faz. As folgas são tiradas de cinco em cinco dias, segundo um esquema organizado por ele. E se na noite de Natal, no Ano Novo ou no seu aniversário for dia de trabalho, não há trocas.“O maior susto que apanhei foi no dia em que fazia anos. Houve um que me quis cortar com uma faca. Ainda carreguei a pistola mas não foi preciso disparar”, conta.Zé Manel anda sozinho, vestido de cinzento como as antigas fardas da PSP, armado de bastão, pistola e rádio. “Tudo como deve ser, porque tratei de tudo”. E sempre que há algum problema comunica para a esquadra. “Há sítios na cidade que eles não conhecem, não se passa de carro e eles não andam a pé. Eu é que ando a pé e sozinho”.O esforço, embora Zé Manel goste do que faz, não tem grandes compensações monetárias. Recebe cerca de 150 euros da câmara municipal e mais 250 dos comerciantes. “Da polícia não recebo nada e tudo o mais é à minha custa. Se preciso de uma farda sou eu que a tenho de comprar”.Durante o dia dorme uns bocados e está sempre pronto a ajudar. De Moçambique trouxe quatro filhos, os dois mais velhos com problemas de saúde. Depois enviuvou e anos mais tarde criou nova família de que nasceram mais quatro filhos. Muita gente para alimentar com 400 euros mensais, mas Zé Manel não tenciona mudar de vida. “Tenho gosto pelo que faço e não me escuso a nada, mas devia haver mais guardas nocturnos. Eu ando no centro histórico, e o resto da cidade? A câmara devia pagar e não esperar pelos comerciantes”, conclui.Margarida Trincão

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